Zélia Duncan: “Não bebo nem me drogo. Sou a mais careta das cantoras brasileiras”

07 Outubro 2017911

Zélia Duncan começou a cantar aos 16, mas só se tornou famosa depois dos 30, quando "Catedral" entrou numa novela da Globo. Até lá, foi funcionária pública e cantora residente num hotel em Abu Dhabi.

Há artistas que chegam, veem e estouram e depois há artistas que chegam, veem e, por muito que tentem, passam anos sem estar perto sequer de rebentar. Até que o conseguem por fim. A história da brasileira Zélia Duncan, prestes a completar 53 anos, é destas últimas: começou a cantar em bares aos 16 anos, à boleia da mãe e à revelia do pai, nos tempos em que ainda se apresentava como Zélia Cristina; só se tornou famosa para lá dos 30, depois de anos de coros, atuações noturnas e espetáculos em hotéis — durante cinco meses chegou a ser cantora residente num hotel nos Emirados Árabes Unidos.

Quando rebentou, Zélia Duncan rebentou em grande: em 1994, o seu álbum “Zélia Duncan” foi considerado pela revista Billboard norte-americana um dos 10 melhores álbuns latinos do ano — “Fina Estampa”, de Caetano Veloso foi um dos outros nove. Nunca mais parou: ao todo, ao longo de quase 37 anos de carreira, Zélia Duncan, que também é autora de uma coluna semanal no jornal O Globo, gravou 12 CD e 5 DVD; ganhou inúmeros prémios; participou em peças de teatro e musicais; e cantou com alguns dos maiores nomes da música popular brasileira — está em Portugal até este sábado, 7 de outubro, exatamente para apresentar uma série de concertos com um deles, Simone.

Foi uma das cinco cantoras brasileiras a atuar na tomada de posse da “presidenta” Dilma Rousseff, em 2011, na Esplanada dos Ministérios em Brasília, onde cresceu. Uma das músicas que escolheu foi “Pagu”, uma espécie de hino feminista no país, que compôs com a então amiga Rita Lee.

Nessa altura, já não se falavam há anos: em 2006, a lendária banda Os Mutantes, símbolo maior do tropicalismo no Brasil, fundada em 1966 por Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, reuniu-se para uma série de concertos e Zélia foi convidada a assumir o lugar da amiga, que não quis nem ouvir falar em regressar. “Liguei-lhe para saber se a incomodava que fosse. Disse-me que ia divertir-me: ‘Vai!’ Deixou de falar comigo uns tempos depois. Deixei de tentar entender, tenho a certeza de que não fiz nada, talvez o pecado tenha sido ser feliz”, confidenciou agora Zélia Duncan, em entrevista ao Observador. “Entrevista de vida?! Uau! Você tem tempo? É que eu nasci faz tempo…”

Nasceu “faz tempo” em Niterói. O que faziam os seus pais?
Os meus pais eram funcionários públicos, foi isso que fez com que nos mudássemos de Niterói — que é colado ao Rio de Janeiro, há uma ponte de 13 km que os une — para Brasília. Tinha 6 anos na altura. Com a inauguração da nova capital, começaram a chamar gente para ir para lá, era um lugar muito vazio. Ofereceram algumas vantagens e os meus pais, funcionários públicos, com uma vida muito suada, classe média-média, foram para Brasília, atrás de uma vida melhor.

E conseguiram?
Conseguiram um divórcio! Mas acho que a nossa vida foi melhor lá, sim.

São 4 filhos. É a mais nova, a mais velha, uma das do meio?
Sou a mais velha das mulheres: tenho dois irmãos mais velhos, venho eu e depois a minha irmã Helena, que é 5 anos mais nova. E tenho uma irmã por parte de pai, mas da minha casa são esses quatro. Todos achamos que Brasília nos fez bem. O céu de Brasília é muito famoso, nós tivemos esse céu por dentro, pudemos ter espaço. Como artista comecei a cantar com 16. Fiz muitas coisas que acho que meninas de 16 do Rio não fariam.

Como por exemplo?
Cantei com uma orquestra e com músicos muito talentosos, que encontrei cedo porque havia menos concorrência, menos gente. Quando cheguei ao Rio pela primeira vez, com 18, já tinha alguma experiência como cantora. Era pequena, claro, mas era um tesouro para mim. Sentia-me mais confiante.

Do que é que se recorda dessas diferenças de vida, entre o Rio e Brasília?
A gente tinha uma vida simples, uma boa vida. Não era uma vida de necessidades, mas era uma vida de muito suor; o meu pai e a minha mãe trabalhavam muito, ela sempre trabalhou o dia inteiro fora.

Faziam o quê concretamente?
Trabalhavam numa repartição pública, foram transferidos para Brasília para fazer a mesma coisa mas lá conseguiram ter mais oportunidades e crescer um pouco. Os apartamentos eram funcionais, não se pagava um aluguer caro, só uma taxa de ocupação. Nesse sentido melhorámos um pouco e cada um seguiu o que queria: os meus irmãos formaram-se, eu formei-me há pouco tempo até…

Zélia Duncan é a terceira de quatro irmãos

Formou-se em quê?
Quando terminei o 2.º grau já era cantora, então fui cantar. Cantar, cantar, cantar. Não fui para a faculdade, mas agora, há uns cinco anos, formei-me em Letras.

Porquê Letras? Porquê agora?
Porque eu amo estudar, e estava em dívida para comigo. Fiz a faculdade com muita alegria. Não precisava de o ter feito… não precisava entre aspas, porque acho que precisamos sempre de estudar, aprender e fazer alguma coisa de que gostemos. Cantar é uma coisa que amo, a faculdade trouxe-me uma viagem diferente.

Como é que se deu com os colegas de curso?
Tinha um colega que me incomodava. Olhava muito para mim, como se eu estivesse no Zoológico; virava-se para trás nas aulas e ficava a olhar-me como se fosse um bicho estranho. De resto foi tudo muito divertido. Eles eram muito mais novos do que eu, uma vez um deles, um garoto, bonitinho, esticou um caderno e disse: “Zélia, meu sogro te adora! Dá-me um autógrafo para ele?”. “A minha mãe te adora” era das coisas que ouvia todos os dias, mas alguns deles também já tinham ido a shows meus. Fiz uma aula de Carlos Drummond, que é um dos maiores poetas brasileiros, éramos só seis pessoas na sala, era opcional. Ninguém queria ler, só eu, que adoro Carlos Drummond. No fim do curso houve uma menina que me disse: “Zélia, a minha mãe não acredita que eu venho todos os dias para esta sala e ainda ouço você recitar Drummond!”.

Ia sempre às aulas?
Não. E como às vezes faltava a provas tinha de juntar notas, por isso o meu CR, que é o Coeficiente de Rendimento, é baixo. Ressinto-me um pouco disso. Levava os textos para os aviões, para os hotéis, os meus colegas mandavam-me emails a dizer o que tinha acontecido… Acho que a escola, tal como as corridas, vêm do meu desejo de estar no bolo, de ser mais um na multidão. Quando cantas e tens um grande destaque, tens uma certa tendência para achar que o céu nasceu para te iluminar. Quando vou para o bolo e tenho de estudar para uma prova estou só a ser mais um. Estou a ser comum, que é uma coisa que não podes ser quando és artista e queres destacar-te.

Essa noção, essa necessidade de não perder o chão, veio com a idade?
Não, sempre fui assim. Quando apareci já tinha 30 anos, foi bom, já era uma jovem madura. Nunca tive essa ilusão, trabalhei muito para aparecer e acho que isso ajudou. Não quero ser Pollyana — “Que bom é sofrer!” — não é isso. Acho que cresces quando és feliz, mas isso só pode acontecer depois de um sofrimento, depois de uma batalha. Quem é só feliz não conhece a vida. Quem acha que é só feliz está a alucinar. Emociono-me muito com a vida de todos os dias, não quero abrir mão disso. Mas claro que gosto de aplausos, gosto de sentir que a minha música entrou na vida de alguém e a modificou. A minha vaidade usa coleira. Deixo-a vir quando estou no palco mas de resto não: “Fica quieta! Pô, cala a boca!”. A vaidade é um defeito que atrapalha muito. Pode virar arrogância…

Nunca passou essa fronteira?
Já! Já parei e disse “Pô, por que é que disse isto?”. Ponho o dedo na minha própria ferida, faço análise, acho que a arrogância pode cegar. E não há nada mais triste do que um artista crente que abafa e não faz nem calor, como diz a minha mãe. Tem a ver com isso, você acha que está arrasando e não está arrasando tanto assim. É muito delicado ser uma pessoa conhecida, continuas a ter dores e humores.

E há aquela ideia de que se tem de estar sempre maravilhosa e simpática…
Correndo até o risco de ser antipática, costumo dizer o que estou a pensar. Já não deixo que abusem de mim. Quero que o público goste de mim e quero ser educada e gentil com ele, mas não vou dar-lhe graxa por causa disso. Se uma pessoa me diz “Ah, mas eu comprei o teu disco” respondo-lhe: “Amigo, compraste o disco porque isso te deu alegria, não te devo o meu disco, pagaste o que ele valia”. Às vezes estou a correr e vem alguém pedir-me para tirar uma foto. Digo que não dá, que estou a treinar, mas claro que ele vai dizer que sou antipática. Acho que ser artista também é isso, é conseguirmos despojar-nos do irresistível desejo de agradar.

Não sabia que corria. Já fez alguma maratona?
Já fiz cinco maratonas e várias meias-maratonas. É uma coisa que entrou para o top five da minha vida há alguns anos.

Quais são as outras quatro?
Bom, cantar tem de estar… Ler e escrever, correr… e comer, comer bem. Gosto de coisas simples.

Quando decidiu ser cantora como é que o seu pai e a sua mãe reagiram?
A minha mãe sempre me apoiou, mas o meu pai não queria que eu cantasse. Eu e a minha mãe sempre nos rimos disso. Ele nunca me impediu de fazer nada, mas se pudesse tinha-me impedido, não teve força para isso. Hoje gosta — de um artista que dá certo toda a gente gosta. Mas ninguém quer um artista novo e jovem dentro de casa; as famílias preferem ter um engenheiro ou um médico. Ou, no caso das filhas, preferem que elas se casem cedo com homens ricos.

Zélia Duncan (à direita) nos tempos da escola, em Brasília

Quando começou a cantar em bares ainda era menor de idade.
Tinha 16 anos. Primeiro comecei na Funarte, uma casa para onde tinha de se mandar uma fita, uma cassete, para concorrer. Fiz a gravação na casa de uma amiga, que tinha uma boa aparelhagem. Eu e um amigo, o Marcelo Saback, ganhámos o primeiro lugar e o prémio era fazer um show. Fizemos um show de quatro dias, com músicos profissionais. A partir daí nunca mais parei.

Como é que foi essa primeira subida ao palco?
Foi incrível. Eu estudava, o colégio inteiro foi, esgotámos os quatro dias. Levava aquilo muito a sério. Era muito séria, sou muito mais jovem hoje. Ficava muito tensa, o meu repertório era o de uma mulher feita. Depois disso passei a cantar em bares, cantava em tudo o que aparecia.

Cantava à noite e no dia seguinte de manhã ia para a escola.
Claro, ficava todos os dias até às 2h da manhã. O meu pai dizia que aquilo era um absurdo, que eu era menina, que era menor, então a minha mãe, que já estava separada dele, ia comigo. Esperava que eu acabasse e depois levava-me para casa. Ela própria tem uma linda voz, acho que se realiza um pouco através de mim. E, tenho de admitir, o meu pai também tem uma linda voz. A primeira fase da minha carreira deve-se muito à coragem e à perseverança da minha mãe.

E a segunda à sua. Com 18 anos largou tudo e foi para o Rio. Como é que isso aconteceu?
Sabe aquelas coisas que se fazem quando se é jovem, sem pensar? A minha mãe, tadinha, tive de trabalhar muito com ela, na cabecinha dela. Era uma menina super protegida em Brasília, cantava em tudo quanto era lugar, mas estava em casa. Fui para o Rio de Janeiro dividir apartamento com outra cantora, imagine o que foi para ela. Mesmo assim, deixou-me ir. Cantei à noite, passei por coisas muito malucas, fazia backing [coros] para outros cantores. Não conhecia o Rio, apanhava o autocarro para ir para o subúrbio como um ratinho branco com um mapa na mão. Uma vez adormeci, acordei com o motorista a dizer “Aí! Ponto final!”. Levantei-me, olhei à volta, era de noite, não sabia onde estava nem o que fazer. Eram dois homens dentro do autocarro, disseram-me para ir com eles, que me levavam até à garagem. Podiam ter-me levado para onde quisessem…

Correu bem.
Sim, levaram-me, apanhei um táxi para o sítio onde a banda estava, quando cheguei o autocarro da banda estava a sair, podia ter ficado de novo perdida. Ia para os bailes, onde fazia backing para um cantor chamado Bebeto, que é muito conhecido no Brasil. Segui um chamamento — o chamamento da música, não nada mística, segui o meu desejo de cantar —, mas era backing de um cantor num meio de um baile dos subúrbios, uma coisa totalmente… tinha de ganhar dinheiro para ficar no Rio, a minha mãe não podia estar sempre a mandar-me dinheiro.

Na altura só cantava?
Sim. Passado um ano, sofrida, voltei para Brasília. Fortaleci-me e depois, aos 22 anos, voltei para o Rio e nunca mais me fui embora. Quando voltei para Brasília, a minha mãe conseguiu que eu entrasse num emprego, então tornei-me funcionária pública também.

No início da carreira, a cantora dava pelo nome de Zélia Cristina

O que é que fazia?
Nem sei… como é que se chamava?… Era agente de qualquer coisa… Aos 22 pedi transferência para o Rio. Cantava à noite, morava em Niterói, com uma tia, e trabalhava no Rio, tinha de ir de barco, era duro. Fiquei um tempo a trabalhar no tribunal…

Ok, trabalhava num tribunal.
Era no Tribunal Regional do Trabalho, imagine, uma coisa odiosa! Cheguei a ser promovida, foi nessa altura que soube que tinha de sair. Comecei a cantar com um cantor chamado José Augusto, que viajava muito, demiti-me. Era uma incerteza total, fazia backing, tive de trabalhar muito, cantar muito à noite, entretanto fiz a escola de teatro e foi nessa altura que surgiu o convite para ir para Abu Dhabi.

Antes disso, como foram esses anos? Uma miúda de 18 sozinha no Rio pode fazer tudo aquilo que quiser. O que é que fez?
É engraçado falar disso. Fiz um musical há pouco tempo, e todo o elenco era mais novo do que eu, o que foi estranho, sempre fui muito precoce e de repente era a mais velha. Olhava para eles, eram divertidos, saíam do espetáculo e iam para uma discoteca e depois para outra, chegavam não sei a que horas. A dada altura pensei: “Meu Deus, onde é que eu estava quando tinha esta idade?! Porque é que eu não fiz isto?”. Não me drogo. E não bebo.

Nunca? Por princípio?
Porque nunca gostei. Já experimentei maconha, tentei beber, aquelas coisas de criança. Mas o fumo faz-me arder a garganta e a bebida não me dá prazer, nunca apanhei uma bebedeira. É estranho, não é? Mas sempre fiz desporto, jogava na seleção de Brasília de basquete… Foi aí que percebi: com a idade deles eu estava a trabalhar, cantava à noite de segunda a sábado, não é que não me tenha divertido, mas isso de sair à noite, de chegar a sexta-feira e sair à noite, nunca existiu na minha vida.

Como é que foi parar a Abu Dhabi?
Foi em 1991, eu tinha 27 anos e estava numa fase difícil no Rio, ganhava pouco dinheiro, tinha gravado o meu primeiro disco, “Outra Luz”, e não tinha acontecido nada. Também tinha feito uma peça de teatro, mas nada me dava dinheiro como queria, morava com a minha avó, não estava numa boa fase. Foi aí que chegou esse telefonema, de um casal de músicos que conheci em Brasília, a chamar-me para cantar em Abu Dhabi. Para ganhar 1500 dólares por mês — nunca tinha visto tanto dinheiro na vida, até hoje é um bom dinheiro. Fiquei abalada, mas disse que não. De manhã. À noite ligaram de novo e disse que sim. Numa semana estava em Abu Dhabi, precisavam de uma cantora com urgência.

Durante 5 meses Zélia Duncan foi cantora residente no Meridien, em Abu Dhabi

Foi contratada por um hotel?
Pelo Meridien. No dia em que cheguei, ensaiei à pressa, e cantei. Cantava todos os dias, tinha um dia de folga por semana, sexta-feira, por causa do feriado árabe. Eram para ter sido três meses, foram cinco. E de lá fui para França.

Como é que foi a vida em Abu Dhabi?
Foi maravilhosa, morava no hotel, foi uma maneira de cortar o cordão umbilical com a minha mãe e com a adolescência. No primeiro mês chorava muito com saudades, depois comecei a minha viagem. Percebi que era possível viver longe, que era uma adulta. Conheci um monte de gente, só no hotel havia trabalhadores de 30 nacionalidades. Havia um tipo do Sri Lanka, outro das ilhas Maurícias. Os meus grandes amigos eram tailandeses, eram os eletricistas do hotel.

Como é que surgiu essa amizade?
Aconteceu: eu trabalhava num lugar que se chamava Casa Brasil e eles estavam sempre lá de tarde, quando eu estava a passar som. Depois disso tudo, com uma amiga francesa que também fiz no hotel, fui para a Tailândia, de mochila. Tudo por causa dos eletricistas. Também havia o grupo dos indianos: eram muito inteligentes, lidavam com os computadores. Foi muito interessante ver as especificidades das nacionalidades.

E mais? Também conheceu locais?
De manhã andava num curso de inglês, o meu inglês era muito macarrónico, quis melhorar. Lá conheci mulheres árabes — era uma women class, não havia aulas mistas. Nunca teria tido a oportunidade de conhecer mulheres árabes locais se não fosse assim, porque elas são muito ricas e vivem enclausuradas.

Fez alguma amiga?
Sim, uma nunca mais esqueci nem quero esquecer. Chamava-se Shafika, tinha casado com 14 anos, mas gostava do marido. E fazia uma coisa que era rara: conduzia. Às vezes dava-me boleia até ao Meridien e conversávamos. Éramos tão radicalmente diferentes: eu era uma cantora brasileira, descabelada, que dizia palavrões; ela uma árabe casada, rica, que usava burqa. As pessoas não tinham uma imagem muito boa das brasileiras, e ainda para mais eu era uma artista. E uma mulher sem homem, coisa que no mundo árabe não vale nada, vale menos do que um camelo. As outras colegas, mais jovens até que a Shafika, olhavam-me com um certo preconceito, ela era uma mulher mais aberta. Abu Dhabi deu-me essa vivência e também uma imersão na música, era tudo o que eu fazia. Consegui comprar um violão de aço, coisa que até aí não tinha dinheiro para comprar. Comecei a escrever e a ler mais…

Porque não havia mais nada, só deserto.
Sim, no dia-a-dia, por muito que fosse conhecendo outras pessoas, brasileiros até, estava sozinha. A vida é isso. Não me deixava abater, escrevia cartas para casa e letras de músicas, que comecei a mandar para o meu parceiro, Christian Oyens. Muitas músicas importantes para mim já estavam compostas — “Não vá ainda”, “Sentidos”, “Nos lençóis desse reggae”. Lá escrevi outras e quando voltei, 8 meses depois, já tinha muitas das músicas que, não sabia ainda, me iam tornar conhecida. O próprio deserto de que falo na Catedral, o deserto que atravessei e ninguém me viu passar, é também um deserto literal: fomos uma vez numa viagem ao deserto e passei duas noites de sonho, debaixo de um céu muito estrelado. Dormíamos em barracas, comíamos no meio das dunas, foi uma experiência inesquecível.

Antes cantava sobretudo versões, é quando volta de Abu Dhabi que decide tocar as suas próprias músicas?
Sempre cantei versões, mas também sempre fiz questão de ir a outros sítios, onde se faziam shows de originais. A viagem a Abu Dhabi foi muito importante para a adulta que vim a ser.

É quando regressa ao Brasil que a sua carreira finalmente explode.
Não foi logo mas sim, aconteceu-me aquilo que sempre ouvi dizer que acontecia aos outros. Voltei de Abu Dhabi com 6 quilos a mais e nem um tostão no bolso, gastei tudo a viajar. A minha mãe e a minha irmã acolheram-me e eu voltei a trabalhar, comecei tudo outra vez, parecia que era do zero, mas não era. Comecei a fazer um show num sítio, bem pequenino, chamado Torre de Babel, às terças-feiras. E conheci uma mulher que foi muito importante na minha carreira, a Ivone Kassu, que morreu há dois anos, infelizmente. Ela era assessora de imprensa, gostou de mim e começou a falar de mim a algumas pessoas. Um dia disse-me que o Guto Graça Mello ia ver-me. E eu, que já cantava há algum tempo, que já tinha mais de 30 anos, achei: “Guto Graça Mello?! Produtor de Simone e de tantas estrelas?! Ele não vem ver-me a mim”. E não veio, nunca veio. Até que chegou o dia do último show da temporada.

E ele foi.
Estava no camarim, no cimo de umas escadinhas, uma coisa onde praticamente só cabia eu, e veio alguém dizer-me: “O Guto tá aí”. Que loucura… Entrei para fazer o show, era eu e dois músicos espremidos num palco mínimo; antes do bis ele foi ter comigo e disse: “Alguém tem de fazer alguma coisa”. Respondi-lhe: “Que tal você?”. Começámos a fazer um disco e a meio ele começou a fazer um outro — Maria Bethânia canta Roberto Carlos. Obviamente fiquei pendurada. Tive de esperar um ano, a achar que ele se ia esquecer de mim, até que um dia eu estava a gravar, num estúdio pequeno, e no estúdio grande ao lado estava uma atriz que não cantava nada, uma merda de uma cantora, uma pessoa linda que inventaram que tinha de cantar. O Beto Boaventura, que era presidente da Warner, tinha ido ver essa atriz, mas o Guto perguntou-lhe se não queria espreitar-me. Ele quis. Puseram as minhas músicas a tocar e ele parado, a ouvir. No fim, o Guto deu-lhe uma fita para levar e ele: “Tá. Vou viajar para o Chile, vou estar 15 dias fora”. Pensei logo: não rolou. Até que um belo dia toca o telefone e é o Guto: “Zélia, o Beto voltou da viagem e ele tá louco com você. Só ouviu você durante a viagem, quer você de qualquer maneira”.

E depois?
Tivemos uma reunião na Warner no dia seguinte. Com o Beto e com a Beth Araújo, que trabalhava na Warner e depois veio a ser minha empresária — a história é longa, eu avisei! Acontece que, pelo meio, eu tinha ido gravar com o Almir Chediak, que tinha projetos em que chamava artistas para cantarem a obra de outros, como Caetano Veloso. A Cássia Eller e o Ney Matogrosso tinham-lhe dado o meu nome. Um dia, estava eu a gravar “Sábado em Copacabana”, um clássico do Dorival Caymmi, a Beth passou pela porta e ficou a ouvir. Disse-me: “Pô, as pessoas têm de te ouvir!”. Ou seja, quando o Beto voltou da viagem a Beth já lhe tinha falado de mim. Puseram-me logo o contrato em cima da mesa. E foi aí que o Beto se virou para mim — o meu nome é Cristina, eu atuava como Zélia Cristina — e disse: “Zélia, vamos tirar esse Cristina?”.

Com a avó, Zélia Duncan

Foi aí que ficou Duncan, como a sua avó.
Eu comecei a cantar em miúda, quando me perguntaram qual era o nome para pôr no cartaz foi o que disse: Zélia Cristina. Como não queria ficar só Zélia, pedi para ficar com o Duncan. Acho que me deu sorte, a minha avó ajudou-me muito.

O que a faz explodir é a “Catedral”, a música da novela.
A “Catedral” estava no meio do disco, eu não sabia que ela ia estourar, não era a música de trabalho, a que se mandava para a rádio. O meu single tinha quatro músicas — a “Catedral” não estava entre elas. O disco saiu, foi muito bem recebido e considerado pela Billboard um dos melhores daquele ano.

1994, certo?
Isso. Quando vendeu 5 mil cópias fiquei tão feliz… Para a indústria era um número pequeno, mas para mim era lindo. Foi a Beth, que já era minha empresária, que ficou obcecada com a “Catedral” e a entregou a Roberto Talma, que era muito importante na Rede Globo. Foi por isso que a música entrou na novela.

Antes disso, a música “Nos Lençóis desse Reggae” já tinha entrado na banda sonora das “Confissões de Adolescente”.
Sim, foi a primeira que entrou mas isso não era uma novela, era uma série, e não passava na Rede Globo sequer, não era uma coisa massificada. A “Catedral”, quando entrou na novela [A Próxima Vítima], passou inteira num episódio. No dia seguinte a minha vida mudou.

É o poder da Globo…
Mudava de estação de rádio e a música estava em todo o lado, comecei a ficar conhecida, a viajar, a atuar noutros espaços, e a aprender tudo de novo. Eu tinha lutado muito. É diferente uma pessoa que aparece e estoura, como aconteceu com a Simone, que tem uma história linda de ser reconhecida muito rápido. A minha vida não foi assim. É engraçado que a minha geração tem um pouco essa marca: Zeca [Baleiro], Lenine, Chico César – todos estouraram a partir dos 30 anos. Digo que sou da geração que carregou o amplificador.

Em 2010 Zélia e Caetano Veloso gravaram juntos "A Vida é Ruim"

O assédio da imprensa foi grande?
Começou a loucura, o trator, a partir daí toda a gente quer saber o que pensas das coisas, qual é a tua opinião… Sempre insisti em não perder a minha vida mas claro que tive o momento do “é melhor não ir ao shopping”. Por outro lado sempre pensei que era só um momento e que os momentos passam. E depende muito do que é que as pessoas querem também.

O que é que queria?
Acho que se és um artista que está em evidência o tempo todo, então estás com algum problema, o que estás a apresentar está com algum problema.

Porque é sinal de que se está sempre a fazer a mesma coisa?
Exato. Em algum momento tens de errar ou pelo menos tens de te alimentar. E tu não te alimentas em público, não te arranjas para um show em palco. É preciso silêncio, é preciso solidão, é preciso o chinelo, ter esse lugar onde tu és tu, sem precisares de aprovação. O artista já é carente por natureza. Quer dizer, a minha vida só se realiza se tu me ouvires. Então o que é que eu vou fazer da minha vida? Ficar a implorar-te que me ouças? Tenho de me desenvolver, fortalecer-me, saber que tenho alguma coisa para te oferecer e saber que tu também precisas de mim, senão a nossa relação vai sempre ser desigual.

Teve sempre essa noção?
Não! Fui aprendendo, quando estourei ficava três horas no camarim a receber o público, achava que de alguma maneira devia alguma coisa. Isso alimentou-me, deu-me momentos incríveis, mas também me desgastou terrivelmente. Saía de lá e queria ir para o hotel, não conseguia comemorar, sair para jantar, para namorar, para fazer amizades. É um grande desgaste, és muito sugado. E és tu que tens de dizer não. Estou sempre à procura do equilíbrio, entre o alimentar-me e o despedir-me disso. É difícil, tu queres ser amado… Se queres ser amado como ser humano, imagina como artista!

Como é a sua vida hoje em dia? Que tipo de coisas mais prosaicas é que se obriga a fazer para manter esse equilíbrio?
Moro na Urca já há 20 anos, é um bairro muito privilegiado do Rio, que é tombado, o que quer dizer que não se pode construir em cima do que já existe. Claro que é Rio de Janeiro e o Rio de Janeiro é sempre esculhambado mas é charmoso, tem muito silêncio. Sou muito caseira, gosto de caminhar, de correr, de ir ao cinema. E todos os meus programas têm de incluir comida. Infelizmente, não cozinho nada, estou no nível microondas, só sei fritar ovos.

Como é que foi a passagem pelos Mutantes, esse símbolo tão grande da música brasileira?
Foi gloriosa. Foi uma coisa que nem sequer desejei, de tão impossível que era. Quando aconteceu foi extremamente arriscado para mim. A Rita Lee e Os Mutantes são artistas míticos no Brasil, que mudaram a música brasileira; a Rita Lee com eles, e depois sem eles. E eu fui fazer o que ela faria. Liguei-lhe para saber se a incomodava que fosse, éramos amigas nessa época. Disse-me que ia divertir-me: “Vai!”. Certamente muita gente ia odiar ver-me lá, mas eu dei-me bem, dei-me bem com eles e o resultado foi bom. Fiquei um ano e meio com Os Mutantes, fiz duas tours internacionais, brinquei às bandas, coisa que sempre tinha querido fazer. Foi uma experiência super rock ‘n’ roll.

Em que sentido?
Na desorganização, na maluquice, na diversão, na infantilidade…

Conte-me histórias dessa maluquice.
Eles têm histórias, eles são rockeiros. O Arnaldo Baptista — não sei se sabe a história dele — atirou-se da janela de um hospital e ficou em coma durante três meses, na época deles, lá para trás. Quando acordou tinha ao lado uma fã que é hoje a tutora e mulher dele, a Lucinha. Nunca mais voltou ao normal, é um tipo genial mas tem limitações sérias, é uma criança grande, às vezes dizia coisas que ninguém mais era capaz de dizer, em entrevistas nunca sabíamos o que ia acontecer. Depois há o Sérgio [Dias], que é um homem muito galante e bem falante, uma pop star, no show que fizemos em Nova Iorque foi comparado ao Santana e ao Eric Clapton. A presença do Arnaldo causava uma comoção inacreditável nos fãs, o nosso show no Barbican [em Londres] foi aplaudido de pé várias vezes. Pude ser cúmplice e testemunha disso. Quando começaram a zangar-se de novo e a armar confusão saí. Ele e o irmão tinham uma zanga histórica de 30 anos, não se encontravam em palco desde então. No Brasil, quando se juntaram e eu entrei foi um big deal. Cantámos em São Paulo para 50 mil pessoas, no caminho para o palco ouvi aquele barulho do público… até hoje não sei como fui parar ali. Logo eu, a mais careta das cantoras brasileiras…

Rita Lee deixou de lhe falar depois de ter andado em digressão com Os Mutantes

É assim que se define?
Sim, entre muitas outras coisas. Estar no meio de uma banda de rock, que experimentou todos os tipos de viagem, foi uma honra. Como diz um amigo meu, eu ali no palco com eles parecia a menina que ganhou o bilhete premiado: “Cante por um dia com os Mutantes”. E era assim que me sentia mesmo.

A Rita Lee não quis regressar?
Não quis, nunca quis, não é amiga deles, não se dá com eles.

E agora também já não se dá consigo.
Ela deixou de falar comigo uns tempos depois. Deixei de tentar entender, tenho a certeza de que não fiz nada. Talvez o pecado tenha sido ser feliz.

Ter-lhe corrido bem?
Sim, talvez para ela isso tenha sido imperdoável. Mas a Rita é das artistas que mais amo e sempre vai ser.

Consegue fazer essa distinção?
Claro! Jamais diria o contrário de uma artista daquele tamanho, com uma obra tão importante para o Brasil, e de uma mulher tão importante para o Brasil, que sempre falou da posição feminina. Tenho uma parceria com ela chamada Pagu. É uma música muito importante para mim e que é cantada no Brasil como um símbolo do feminismo. Tenho muito orgulho nisso, acho que nunca fui tão feminista como sou hoje.

Esse seu feminismo expressa-se em quê?
Está presente sempre. Acho que o feminismo é a coisa mais humana do mundo — óbvio que há um feminismo que às vezes cai no vazio —, mas o feminismo é ser igual, não é o contrário do machismo, que é um dos maiores males do mundo.

Sendo mulher no mundo da música sofreu com isso?
Com os meus colegas não, mas como cantora da noite, sofri com isso sempre. Fui assediada nas casas noturnas, os clientes que estão lá a beber acham que tu podes ouvir qualquer tipo de coisa, qualquer tipo de gracinha, e que estás ali à disposição deles. O que acontece no Brasil é isto; tu passas e os tipos acham que podem dizer qualquer coisa. A minha sobrinha, que tem 25 anos e é feminista, não deixa passar nada, mas a maioria deixa. No Brasil, nem há um mês, um tipo ejaculou em cima de uma mulher dentro de um autocarro. E foi solto, para 4 dias depois fazer o mesmo e ser preso. Que tal? Foi preciso que mais uma mulher passasse por isso, sendo que o homem já tinha passado pela polícia por motivo de assédio 17 vezes! A lei é feita para quem? Há violações no Brasil todos os dias a toda a hora, e a culpa é sempre da mulher, que vestiu uma saia curta. Se és mulher, podes ter a certeza de que vais ter de lutar para ser respeitada, não há outra possibilidade. Então ok, vamos lutar. Já não acredito em viver sem pensar nisso. No feminismo negro, por exemplo: a mulher negra é desrespeitada três vezes mais do que a mulher branca — e a mulher branca é muito desrespeitada.

E a mulher gay?
Também. Mas acaba por ser mais aceite, por um motivo quase torpe: é bonito ver duas mulheres juntas, o homem gosta de imaginar coisas.

Li algumas notícias contraditórias e fiquei sem saber: é verdade que casou?
Não casei. É tudo falso, tudo tolo. Tudo o que sai no Brasil relativamente à minha vida pessoal é dedução. É um assunto que não me interessa. Se quiser escrever que sou gay não tenho nenhum problema com isso, agora sobre com quem estou ou não, não falo. Nem se tivesse seis filhos ia falar desse assunto.

Nunca pensou ser mãe?
Quando era jovem só pensava em cantar. Agora, já mais velha, olho para as crianças de outra maneira, penso mais… Parir nem pensar, mas adotar uma criança… acho que não vai acontecer, já não tenho idade para isso. Mas acho lindo, acho que as crianças são a saída para o mundo ficar melhor.

Texto de Tânia Pereirinha, fotografia de André Carrilho.
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