Explicador

Caos nas urgências. O que se está a passar nos hospitais portugueses?

Janeiro 201811 Janeiro 20181.675
João Francisco Gomes

O que se está a passar nos hospitais?

Pergunta 1 de 9

As queixas não são novas e várias denúncias têm vindo a público nos últimos meses, mas esta polémica em torno de fotografias que mostram o caos nas urgências hospitalares em alguns hospitais de Portugal estalou no último fim de semana, quando um grupo de enfermeiros da urgência do Hospital de Faro denunciou publicamente a incapacidade de resposta daquele serviço. Segundo a denúncia pública, que veio acompanhada por fotografias das urgências sobrelotadas com dezenas de doentes deitados em macas acumuladas por vários espaços do hospital, a situação é de “caos” e pode levar a “consequências nocivas” para doentes e familiares.

Número de profissionais insuficiente, escassez de material e falta de espaço, denunciam os enfermeiros, estão a levar à “diminuição da qualidade assistencial” e à “progressiva degradação” da capacidade de resposta às adversidades, fazendo com que haja um número crescente de utentes internados em macas nas urgências e que os doentes esperem cada vez mais para serem atendidos naquele serviço.

Enfermeiros denunciam caos nas urgências de Faro. Veja as fotos polémicas

Na sequência da denúncia, a Ordem dos Enfermeiros veio publicamente aplaudir a “coragem” e “manifestar o seu apoio aos enfermeiros do Algarve que denunciaram publicamente, com a divulgação de fotografias, o caos na Urgência do Hospital de Faro”. Mais: a Ordem apelou aos enfermeiros de todo o país que seguissem “o exemplo dos colegas de Faro na denúncia das situações que põem em causa a dignidade humana”.

Na segunda-feira, o Observador noticiou mais uma denúncia, relativa ao Hospital de Guimarães. Fotografias tiradas por enfermeiros daquela unidade na altura do Ano Novo mostravam várias macas aglomeradas numa zona de receção e triagem. Os enfermeiros queixam-se da falta de capacidade — humana e material — para atender os doentes em pleno pico da gripe.

Macas até na receção do hospital de Guimarães, denunciam enfermeiros

A administração do hospital veio de imediato negar as acusações, justificando que as fotografias “estão com ângulos muito apertados e não é possível constatar, de forma fiável, o local em causa”. A denúncia levou mesmo o administrador daquele hospital, Delfim Rodrigues, a acusar a bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, de incentivar à violação do “direito à privacidade dos doentes” ao apelar às denúncias.

Depois de Faro e Guimarães, também enfermeiros de Leiria denunciaram a falta de condições naquele hospital. Numa fotografia tirada por profissionais daquela unidade, a que o Observador teve acesso, é possível ver uma zona do serviço de urgências que em condições normais é ocupada por cadeirões e que serve como zona de passagem, repleta de macas com doentes.

Depois de Faro e Guimarães, enfermeiros de Leiria denunciam falta de condições na urgência

Os enfermeiros de Leiria denunciam que há falta de profissionais — enfermeiros e auxiliares — para fazer face à grande afluência de doentes neste período, mas também falta de material de medicação, uma situação que já se repete há vários anos. Ao mesmo tempo, referem que há muitos doentes a serem escondidos quando há visitas de membros do Governo à unidade, acusação que a própria bastonária da Ordem dos Enfermeiros tem feito repetidamente.

O Conselho de Administração do Hospital de Leiria respondeu às denúncias, explicando que se trata de “uma situação de emergência” e que “como tal deve ser encarada”. Colocando o problema no excessivo recurso às urgências por parte dos utentes, o Conselho de Administração daquele hospital sublinha que “os edifícios e os quadros de pessoal não ‘esticam’ à medida dos picos de procura”.

Também no hospital de Abrantes, integrado no Centro Hospitalar do Médio Tejo, há denúncias de falta de capacidade para atender doentes nas urgências durante o pico da gripe. Uma reportagem da RTP no local mostra dezenas de doentes em macas amontoadas pelos corredores, e regista o descontentamento de enfermeiros e dos utentes, que chegam a esperar mais de dez horas pelo atendimento.

Fonte da administração do Centro Hospitalar do Médio Tejo disse ao Observador que “não existem doentes em macas fora do espaço da Urgência”, sendo que “os que se encontram em maca estão em observação clínica, a fazerem exames ou a aguardar resultados de exames”. A mesma fonte garantiu que o plano de contingência, que passou pelo reforço das equipas e pela implementação das chamadas consultas abertas (consultas não programadas) está a ser suficiente para gerir o aumento da afluência hospitalar.

No final de dezembro, ainda antes das primeiras denúncias fotográficas, já o bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, admitia a existência de situações caóticas em alguns hospitais. Na urgência do hospital de Vila Nova de Gaia, chegou a haver 24 pessoas internadas, o que é “caótico”, na opinião do bastonário.

Mas o maior problema será mesmo no Algarve. “Faro tem problemas gravíssimos, há muito. Inclusive tem escalas de médicos incompletas e muitas vezes só asseguradas por internos”, disse Miguel Guimarães à agência Lusa, em dezembro. “Está a acontecer mais uma vez o que já aconteceu em anos anteriores”, acrescentou, considerando que “falhou o plano de contingência definido pela Direção-geral da Saúde”.

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