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António Costa

17 de Junho: o dia em que o Governo desapareceu

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Se o Observador tivesse uma secção de anúncios, certamente que um deles diria: desaparecido há mais de duas semanas, procura-se o Governo de Portugal.

Passaram duas semanas e o governo não consegue explicar o que correu mal em Pedrógão Grande. Aliás, o Expresso desta semana explica mais do que se passou do que o Governo desde 17 de Junho. Estamos todos cansados do tema, mas a sua importância obriga-nos a não o deixar cair. É impressionante como um incêndio expõe as fraquezas de um Governo, ao qual aparentemente tudo parecia correr bem. No Ministério da Administração Interna, reina a anarquia. Os serviços do Ministério passam as culpa uns para os outros. A ministra assiste a esta guerra civil entre os serviços que tutela sem nada fazer. A sua autoridade desapareceu.

A anarquia no MAI é muito grave e afecta a segurança dos portugueses. Estamos a começar o Verão, a época de incêndios em Portugal. Se houver um grande incêndio, como vão os serviços, que agora se acusam, colaborar nos combates aos fogos? Como vai a Proteção Civil trabalhar com a Secretaria Geral do MAI? Como vai o SIRESP trabalhar com os bombeiros e com a GNR? E como vão os portugueses confiar nestas instituições públicas para garantir a sua segurança?

Como é óbvio, depois de 17 de Junho, estes serviços e instituições deixaram de confiar uns nos outros. Esta falta de confiança generalizada não ajuda a impedir futuras tragédias. Os portugueses precisam de saber com urgência se estes serviços serão capazes de cooperar uns com os outros de um modo eficaz se houver incêndios. Se o governo colocasse a segurança do país à frente de considerações eleitorais, demitiria as lideranças destes serviços e nomeava novos dirigentes. Seria a única maneira de fazer regressar a confiança ao interior do MAI. Mas como pode uma ministra sem autoridade fazer essas mudanças?

Além disso, António Costa não pode impedir a ministra de tudo fazer para continuar no governo, demitindo-a, se o próprio PM tudo fez para chegar a São Bento. Mas, como vimos na semana que passou, a principal preocupação de Costa é a sua popularidade. O pedido de um estudo para testar a sua popularidade depois do que aconteceu em Pedrógão Grande é chocante. Já agora, quem pagou o estudo? Foram os contribuintes portugueses?

Com o país ainda em ressaca dos incêndios, soubemos que assaltaram os paióis das instalações militares de Tancos e roubaram armas e munições. O roubo aconteceu na madrugada de quarta-feira e hoje, domingo, quase nada se sabe sobre o que aconteceu. Aparentemente, os sistemas de segurança e de proteção das instalações militares estavam avariados. Repito. Os sistemas técnicos que protegem as armas do Exército português estavam avariados. Resultado: as armas foram roubadas. Como pode isto acontecer num país da NATO e da União Europeia? Espantoso. Fico incrédulo com estas notícias.

Qualquer pessoa sensata julgaria que a vaga de ataques terroristas em países europeus levaria as autoridades da Defesa a reforçarem os procedimentos e os sistemas de segurança. Parece que nada disso aconteceu. Os recentes ataques terroristas em Paris, Bruxelas, Manchester e Londres aconteceram noutro mundo, em países que nada partilham com Portugal.

Mas há outro ponto extraordinário. Ainda não vi ninguém preocupar-se com a urgência de descobrir quem foram os autores do roubo. Mais uma vez, sobram as questões: as autoridades nacionais estão a procurar quem roubou as armas? Se sim, como estão as investigações? Há suspeitos? Como foi possível acontecer este roubo? Será que as autoridades consideram que será muito difícil encontrar os assaltantes? A segurança nacional está em causa? Precisamos de respostas para estas perguntas. Mas elas tardam. Tal como no caso do incêndio em Pedrógão Grande, também em Tancos, o Governo está perdido.

O assalto de Tancos pode ainda ter implicações graves para a política externa portuguesa. Imaginem que foram grupos terroristas que roubaram as armas e que as usam para fazer ataques em países europeus. E se especulamos é porque o Governo não dá respostas às nossas dúvidas. De qualquer modo, os nossos aliados vão fazer as mesmas perguntas ao nosso Governo e, de acordo com as respostas, tirar conclusões. No momento em que a luta contra o terrorismo e o reforço da defesa europeia dominam a agenda política da UE, a confiança em Portugal vai ficar seguramente afectada.

Mas não foram apenas os governos europeus que registaram o que se passou em Tancos, os grupos terroristas também já notaram, e perceberam o óbvio. É fácil assaltar depósitos de armas em Portugal. O que vai fazer o governo e o ministro da Defesa para reforçar a defesa das instalações militares? Os portugueses precisam de saber.

Este Governo é bom a fazer propaganda, a dar boas notícias e a ganhar popularidade. Sabe distribuir privilégios com recursos escassos (um talento, reconheço), distribui abraços, beijos e sorrisos. Também sabe recorrer às lágrimas quando é necessário. Mas não faz mais do que isso. Quando é necessário enfrentar tragédias, dar respostas rápidas e tomar decisões difíceis, o Governo desaparece. Melhor, limita-se a estudar a sua popularidade. Como se tem visto desde o dia 17 de Junho.

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