Crónica

A extracção

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Para eu poder conhecer um segredo de alguém tenho de ser capaz de formular as premissas de um raciocínio de que não conheço a conclusão; ou os termos de um problema para que não conheço a solução.

Como tirar nabos da púcara? A extracção apresenta dificuldades. Quando é imperceptível os resultados são desultórios; quando é ostensiva são nulos. Tentou-se historicamente uma série de métodos. A tortura e as confissões forçadas têm um alcance muito limitado, e tendem a matar a galinha dos ovos de oiro; e aliás a galinha. A obtenção ilegal de dados é ilegal. As perguntas directas são francas e não causam vítimas: mas há uma relação muito antiga entre perguntas francas e respostas falsas. Todos estes insucessos tornam mais necessário um método alternativo.

A teoria do físico é para muitos o candidato mais plausível a método alternativo. Num filme antigo, um físico tenta extrair um segredo de outro físico. O seu único trunfo é saber falar como um físico. Sabe assim como interessar um físico por aquilo que está a dizer. Vai ter com o outro físico e começa a falar como um físico. O outro físico entusiasma-se e corrige o primeiro; ao fazê-lo revela o segredo. Nesse momento, o primeiro físico faz durante um segundo uma cara espantada, exactamente igual às que nós fazemos quando ficamos espantados. O segundo físico percebe: “Você não me estava a dizer nada.” Mas era tarde demais: o segredo tinha já sido extraído.

A teoria do físico descreve-se do seguinte modo: se conseguirmos fazer alguém acreditar que estamos a descrever aquilo em que está a pensar, essa pessoa tenderá também a imaginar que quem o consegue fazer tão perfeitamente não pode ser uma outra pessoa; não haverá assim qualquer razão para ter segredos para essa pessoa. Terá o primeiro físico então convencido o segundo físico de que não era outra pessoa? A teoria é estapafúrdia. A extracção de nabos de púcaras é sempre um processo em que alguém é enganado. Requer pois uma outra pessoa: é impossivel enganarmo-nos a nós próprios.

No entanto aquilo que se passa no filme não é apenas, ou exactamente, um exemplo de um físico a enganar outro físico: e por uma razão que passou despercebida a ambos os físicos, e que a teoria do físico não contempla. A razão é a seguinte: para eu poder conhecer um segredo de alguém tenho de ser capaz de formular as premissas de um raciocínio de que não conheço a conclusão; ou os termos de um problema para que não conheço a solução. O meu sucesso deve-se assim não ao facto de eu conseguir enganar outra pessoa mas a haver uma relação entre premissas e conclusão ou entre termos e solução que não depende de mim. É essa relação que permite a extracção. É por isso que, como observou alguém, se conseguimos fazer uma pergunta também normalmente lhe conseguimos responder. Ambos os físicos do filme se enganaram: o primeiro físico enganou-se porque achou que não sabia uma coisa que afinal sabia; e o segundo físico enganou-se a respeito do primeiro físico.

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