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Global Shapers

A relação professor-aluno é uma escola para a vida

Autor
  • Afonso Mendonça Reis
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Os professores são a esperança num mundo livre de ignorância e cheio de valores. Esta questão é tão mais relevante quanto mais tempo passamos em ambientes sem moderação, como a internet.

A campanha ‘Inspira o teu Professor’ existe para reforçar a missão social dos professores. Hoje, quatro meses passados a trabalhar nas escolas, o que aprendemos?

A educação é uma prioridade para os Global Shapers Lisbon Hub. E, no sistema de ensino, são os professores quem tem maior impacto no desempenho escolar dos alunos. Hoje os professores estão desmotivados e os Global Shapers associaram-se ao Inspira o teu Professor por uma educação que promova todo o potencial dos jovens e de Portugal.

A campanha ‘Inspira o teu Professor’ desafia os alunos a pensar no impacto que os professores têm na sua vida e a produzir conteúdos como vídeos, cartazes e cartas para os inspirarem. Estes conteúdos permitem reconhecer não só a missão social dos professores, mas as características que os alunos valorizam nos professores e no ensino. A reflexão que se segue resulta da minha análise dos conteúdos produzidos durante a 2ª edição do ‘Inspira o teu Professor’ e do nosso trabalho nas escolas.

Os alunos, quando levados a reflectir, reconhecem a importância dos professores na sua vida. É com o que aprendem na escola e com os professores que vão poder realizar os seus sonhos: “ser professor é ser condutor de almas e de sonhos”; “levar para o resto da vida o que os professores nos ensinaram”. Hoje ser professor tem um âmbito mais alargado, dado as famílias terem menos tempo para os filhos. Vários alunos contam com os seus professores para superar as suas dificuldades, “iremos lembrar as caras dos nossos professores para o resto das nossas vidas, pois foram eles quem mais nos ajudaram quando mais precisámos”. Uma aluna lembrava que uma professora não ensina apenas uma, mas várias gerações.

Professores têm um papel muito importante na transmissão de valores. Apesar de incutir valores ser um papel do foro da família, os alunos reconhecem nos professores uma fonte de inspiração e alguém que lhes incute valores. Os professores são inspiradores, porque me ensinaram “a fazer o que é correcto, perante uma situação difícil seja ela qual for”. Os professores são a “esperança num mundo livre de ignorância e cheio de valores”. Esta questão é tão mais relevante quanto mais tempo passamos em ambientes sem moderação, como a internet. Os jovens podem falar com qualquer pessoa sem que a sua família se aperceba ou os “acompanhe”. Conhecemos o caso do jogo da Baleia Azul, que tanto nos chocou. São valores sólidos que os ajudam a proteger-se.

A relação professor-aluno precisa de mais empatia. Os alunos contam-nos que é fácil culpar os professores “por tudo” e que se esquecem que os professores “também são pessoas”. Eles próprios, os alunos, dizem que são por vezes “chatos, casmurros, mal-educados, etc.”, mas que, “no fundo, são boas pessoas”. Os mesmos alunos gostariam que os professores os conhecessem melhor, que soubessem quem são e o que os torna únicos. Alguns professores destacam que a carga lectiva e burocrática limita o tempo para poder investir mais na relação com os alunos.

Os alunos são muito claros, valorizam o professor interessado nos seus alunos, que não desiste deles e que goste de ensinar. Num tom mais provocador, mas não menos curioso, um grupo de alunos definiu a escola e a sua experiência no sistema de ensino, como uma prisão. Mas é esta boa relação com os seus professores que lhes permite transcender a prisão.

Desenvolver autonomia é uma grande oportunidade para fomentar uma relação frutífera entre alunos e professores. O facto dos alunos se desresponsabilizarem culpando os professores, é uma oportunidade. Esta atitude passiva pode advir de os alunos sentirem que não têm influência sobre a sua escola. Muitos professores mostraram interesse em ouvir a opinião dos alunos através dos conteúdos. Envolver os alunos no funcionamento da escola, permitiria desenvolver autonomia e valorizar o esforço colectivo, e investimento da sociedade, para que a escola funcione. Existem exemplos de escolas no Japão onde os alunos limpam a escola. Os alunos fazem-no com normalidade porque terão de fazê-lo como adultos. Dar espaço aos alunos para preparar e dar aulas é uma óptima forma de ver que abordagens pedagógicas eles privilegiam, fazê-los estudar mais e partilhar a responsabilidade. Assim os alunos não seriam “vítimas da prisão”, mas trabalhariam em equipa com os professores para tornar a sua própria aprendizagem mais dinâmica e estimulante.

As boas relações têm um grande impacto na nossa educação, aprendizagem e felicidade. Um artigo do New York Times cita um estudo feito pela Microsoft no Canadá que mostra que hoje a nossa concentração média é de oito segundos, abaixo dos 12 segundos de um peixe. A tecnologia expandiu o acesso a serviços e conhecimento, mas deve ser utilizada com equilíbrio. A hiper-conectividade e os smartphones estão a privar-nos da nossa atenção e concentração. Sem elas, vamos ter mais dificuldade em aprender, discernir sobre o mundo e criar relações, no nosso caso, entre professores e alunos. Mas as relações não são só importantes na educação. Um estudo longitudinal desenvolvido ao longo de 75 anos em Harvard mostra que relações de qualidade são a base de uma vida feliz. Os professores têm um grande impacto nos alunos pelo que ensinam, os valores que transmitem e pela relação que criam. O fomentar desta relação é tão importante quanto uma oportunidade para os alunos desenvolverem empatia e autonomia, que potencia a sua aprendizagem agora e o seu desenvolvimento futuro.

Afonso Mendonça Reis é fundador das Mentes Empreendedoras, Inspira o teu Professor e Professor Universitário na Nova SBE, foi nomeado um Global Shaper em 2012 pelo Fórum Económico Mundial.

O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, partilharão com os leitores a visão para o futuro do país, com base nas respetivas áreas de especialidade, como aconteceu com este artigo sobre a inovação social. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor e não vincula os Global Shapers de Lisboa.

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