País

A sorte dos Lerchenau

Autor
  • Ricardo Ramos

Nós temos mesmo, ou o azar dos Távoras, ou a sorte dos mexilhões. Com os mesmos Dê-Erres, mas sem a ironia do outro tempo: “Sebentas em estado novo, doutorzinho.”

No segundo acto de O cavaleiro da Rosa, o Barão von Lerchenau, esse grande exemplar de decadência imperial, inconsciente da trama que o envolve, atira, divertido, a famosa frase: “Realmente! Eu tenho mesmo a sorte dos Lerchenau”.

O mesmo terá pensado, com razão, a lusa cavalaria da rosa, este sábado, 13 de maio: Fátima, Futebol e Festival – a sorte deu à costa.

Quem havia de dizer que, meio século depois de criticar a trindade salazarista dos três Fs – Fátima, Futebol e Fado –, a trindade dos partidos marxistas, leninistas e trotskistas que geraram e gerem o actual governo se congratula com a pesada herança cultural, limitando-se a trocar o paroquial e artesanal Fado pelo cosmopolita e bem fabricado Festival da Eurovisão. É a dialética, estúpido!

O fado movimentava poucos tostões; o festival, pelo contrário, é uma oportunidade multimilionária para o progresso da pátria. A eurovisão é uma espécie de euro sem visão e sem Tratado, é só vantagens: tudo som e imagem, paz e amor. Realmente! A superioridade da democracia sobre a ditadura mede-se pelo ranking atingido no Festival da Eurovisão.

Lá na dimensão onde se encontra agora, Marcuse olha para este espectáculo – e para o endividamento das famílias – e regozija: nunca capitalismo e comunismo convergiram tão eficazmente na consolidação simultânea de consumismo e controlo social, como acontece, hoje em dia, em Portugal. Seria este, afinal, o tão bem guardado terceiro segredo de Fátima?

Na ópera, a Marechala põe tudo na ordem: manda o Barão sair de cena e acasala o cavaleiro da rosa como entende melhor, para as partes e para o equilíbrio geral do grupo e da sociedade. Com aristocrática inteligência, desfaz equívocos e ilusões, ajuda a construir novas realidades e um futuro sólido. Engana o marido, mas não se engana a ela mesma, nem nos engana a nós. No rectângulo, pelo contrário, é o Marechal, na linha do Marquês, que alimenta equívocos e cria ilusões, engana-se e engana. Realmente! Nós temos mesmo, ou o azar dos Távoras, ou a sorte dos mexilhões. Com os mesmos Dê-Erres, mas sem a ironia do outro tempo: “Sebentas em estado novo, doutorzinho.”

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