Logo Observador
Presidente da República

A vantagem de não ter votado em Marcelo

Autor
825

Os ataques da geringonça a Carlos Costa e a Teodora Cardoso mostram que as esquerdas neste momento querem o poder absoluto em Portugal. Ora o Presidente é o travão mais forte a esse poder absoluto.

1. Parece que o eleitorado de direita está desiludido com o Presidente da República. Não gosta da sua proximidade ao governo e sente-se traído. A grande vantagem das pessoas de direita que não votaram em Marcelo, como eu, é não sentirem essa desilusão. Nunca tive qualquer ilusão sobre uma suposta solidariedade de Marcelo com a direita partidária. Sempre me pareceu evidente que, eleito Presidente, iria colaborar com o governo socialista. Essa evidência tinha tanto a ver com a personalidade de Marcelo Rebelo de Sousa como com o lugar da presidência da república no sistema político português. O Presidente não é eleito para fazer oposição ao governo. E quando faz, não está a cumprir as suas funções. Além disso, seria politicamente suicida, Marcelo tornar-se um Presidente de direita. Cavaco nunca foi um Presidente de direita. Por que haveria Marcelo de o ser?

Além disso, se a direita precisar do Presidente para regressar ao poder, será um sintoma de fraqueza política, que em nada abonaria a favor de um futuro governo. Em política, o poder conquista-se, não se recebe dos outros. Aliás, estou convencido que nem Passos Coelho alguma vez desejaria ser visto como o candidato de Marcelo, nem o Presidente quer ser visto como o líder de facto do PSD. No entanto, Rebelo de Sousa não só terá um segundo ano de mandato mais difícil do que o primeiro, como será forçado a afastar-se do governo.

No seu primeiro ano de mandato, Marcelo teve uma grande virtude. Fez tudo para que o governo cumprisse os compromissos europeus. Já o disse mais do que uma vez, apoiado por dois partidos de extrema-esquerda anti-europeus, o governo poderia ser tentado a desrespeitar as regras da zona Euro. E, no início, houve tentações. Mas o Presidente foi sempre firme na questão europeia. O convite a Mario Draghi para estar presente no primeiro Conselho de Estado da era de Marcelo foi um sinal evidente. O primeiro-ministro entendeu o aviso. Sem ser fervosamente pró-europeu, o que só lhe fica bem, Marcelo entende muito bem a importância da integração europeia para Portugal.

Os ataques da geringonça a Carlos Costa e a Teodora Cardoso mostram que as esquerdas neste momento querem o poder absoluto em Portugal. O Presidente é o travão mais forte ao poder absoluto da esquerda em Portugal. Por isso, estará condenado a afastar-se do governo. Marcelo terá que ser o principal defensor do estado de direito e da independência das instituições. Mais uma vez, até pela sua formação académica, e apesar do modo ligeiro como muitas vezes se comporta, Marcelo tem uma sensibilidade institucional apurada. Como se viu, de resto, durante os últimos dias com o apoio discreto, mas firme, a Carlos Costa e a Teodora Cardoso.

Com o passar do tempo, Marcelo até poderá precisar do apoio da direita. A aliança do governo e das esquerdas com o Presidente é táctica e de conveniência mútua. Não vai durar para sempre. As esquerdas querem uma maioria, um governo, e um Presidente. E não vão desistir. Neste momento, não lhes interessa atacar o Presidente, mas chegará o dia em que o confronto com Belém deixará de ser adiado. Quando esse dia chegar, a direita, apesar da desilusão, terá que apoiar Marcelo. Não terá alternativa, nem mesmo aqueles que não votaram nele. Eu lido com o Presidente da seguinte maneira: limito-me a ver e a ler as entrevistas, por dever de ofício, ignoro as visitas que faz pelo país fora, e sempre que aparece ao lado de António Costa, mudo de canal. Em relação ao Presidente só me interessam duas coisas. A atitude em relação aos compromissos com a zona Euro e a defesa da independência das instituições do Estado. O resto trato como campanha política; não me interessa.

2. A Caixa Geral de Depósitos revelou quase dois mil milhões de perdas. Em grande medida, o prejuízo resulta de empréstimos irrecuperáveis, feitos durante os consulados de Sócrates como primeiro-ministro. As notícias dizem que o PS desvaloriza as perdas. O contribuinte que as pague. O banco do Estado tem sido o banco da oligarquia política.

Como é evidente, nada disto passou despercebido em Bruxelas e em Frankfurt. Assim, a Comissão Europeia obrigou a participação de privados na recapitalização da CGD. Mais, o tipo de obrigações que o banco vai colocar no mercado poderão transformar-se em capital acionista se a Caixa no futuro precisar de se recapitalizar. Ou seja, o governo socialista pode ter começado a privatização da Caixa, nas costas dos portugueses, de acordo com a tradição socialista. Eis a consequência dos anos de Armando Vara na Caixa a obedecer às ordens de Sócrates.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
25 de Abril

Os restos do salazarismo que vivem entre nós

João Marques de Almeida
557

Quando nos aproximamos de mais um 25 de Abril há heranças preocupantes do Estado Novo que vivem entre nós. Mas ao contrário do discurso do regime, são as esquerdas que mais beneficiam dessas heranças.

Presidenciais em França

A revolução francesa em curso

João Marques de Almeida

Se Le Pen passar à segunda volta e Fillon for derrotado, ainda o cenário mais provável, tal como a derrota dos socialistas, a chamada “maioria republicana” contra os extremos não vai sobreviver.

Governo

Erupção cutânea

Maria João Avillez
416

Quem não ganha uma erupção cutânea nas estranhas circunstâncias políticas de hoje? Este meu último surto foi provocado pela oficialização do “não é bem assim”.

Função Pública

Anomalia salarial

José Miguel Pinto dos Santos
217

Tendo os trabalhadores do Estado maior estabilidade no vínculo laboral deviam ter salários mais baixos para responsabilidades equivalentes. Não é o que sucede em Portugal. Nem na Venezuela ou em Cuba.