Em situação de tragédia e perante cenários de catástrofe é inútil falar ao país pedindo às pessoas que agora não façam perguntas. O Presidente sublinhou este pedido e percebo a sua intenção, mas parece-me impossível respeitá-lo. Todos nos interrogamos sobre tudo, e todos permanecemos alerta, inquietos, destroçados, a viver um luto profundo que ameaça prolongar-se pois o Verão começa já amanhã, vai ser longo e quente, e tudo pode acontecer.

Entre todas as perguntas que podemos e devemos fazer, há uma que nos atravessa e atinge mais que as outras: Como agir? Como fazer em situações de calamidade? Como proceder para salvar a própria vida e, se possível, as vidas dos que ficam em risco?

O ‘como?’ será sempre uma grande questão existencial, porventura a maior de todas as interrogações humanas. Como fazer? Como prevenir? Como remediar? Como decidir? Como investigar? Como avaliar? Como recomeçar? Como conseguir? E por aí adiante.

No terrível rescaldo do grande fogo do Pedrógão, todas estas perguntas ficam acesas, a arder nos nossos corações. Como evitar que se repita o holocausto? E como agir, no caso de haver réplicas nesta ou noutras dimensões?

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Um incêndio é sempre assustador, seja mais ou menos extenso, mas a esmagadora maioria das pessoas não sabe exactamente o que fazer em caso de fogo. E devia saber. Aliás, devíamos aprender na escola, desde crianças. Todos devíamos aprender a lidar com situações de calamidade, sabendo como prestar primeiros socorros em caso de necessidade, mas também hierarquizando e observando regras de segurança.

Mais tarde ou mais cedo, alguém com capacidade de decisão vai ter que se sentar à mesa do Ministério da Educação com tempo para melhorar os curricula e acrescentar matérias essenciais. É imperativo que isto aconteça, para não perpetuarmos a tremenda desvantagem competitiva em que vivemos por não aprendermos algumas matérias vitais desde pequenos.

Em todos os países ditos civilizados as crianças aprendem a lidar com situações de risco e treinam comportamentos para casos de emergência. Em Portugal essas competências são uma escolha consciente de poucos, que optam por tirar cursos e fazer formações complementares, mas não são obrigatórias na escola.

As autoridades queixam-se de que algumas pessoas não respeitam as suas ordens, não abandonam as casas e não seguem indicações de segurança na estrada, e é verdade. Em caso de acidente sabemos que os mirones podem provocar novos acidentes, mas em caso de fogos de proporções brutais, em que todas as referências desaparecem e a visibilidade é nula, é obrigatório seguir instruções e respeitar quem comanda.

Constança Urbano, a ministra da Administração Interna, pede insistentemente às populações em risco que respeitem as ordens das autoridades no terreno, mas em breve Tiago Brandão Rodrigues também vai ter que reunir com os seus secretários de Estado para estudarem mais e melhores maneiras de ensinar o respeito por este tipo de preceitos. Mais importante que ensinar a cumprir directivas de emergência é despertar a consciência para questões de cidadania, especialmente quando se trata de salvar vidas.

O sistema de ensino tem que ser mais flexível e adaptar-se aos tempos e circunstâncias actuais. Se as alterações climáticas anunciam estações mais quentes e propícias a fogos, então todos devemos estar mais preparados para lidar com incidentes decorrentes destes mesmos fogos. Mais, todos devíamos ter cadeiras, aulas, workshops ou formações que reforçassem competências em matéria de voluntariado cívico, nomeadamente na limpeza de matas e florestas. Parece uma miragem? Talvez, mas graças à multiplicação de braços teríamos certamente menos lixo e menos ervas secas no chão a favorecer a combustão.

Nestes dias devastadores de combate às chamas e luto nacional, em que nos pesam os mortos e os desamparados, em que vemos e lemos relatos de destruição, em que passamos a ‘conhecer’ famílias inteiras que perderam a vida dentro do seu próprio carro ou nas suas casas, nestes dias em que falta saber tanta coisa, continua a fazer eco a pergunta: como?

Como chegamos aqui e como podemos sair daqui? Como superar a desgraça e como evitar novos sofrimentos pelas mesmas causas? Pode não haver respostas imediatas e, muito menos, infalíveis, mas o ‘como?’ tem que ser perguntado, gritado e repetido de forma obsessiva, senhor Presidente.