Comportamento

Ao terceiro dia

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Nas alturas em que a vida parece indecifrável e as rotinas ficam abaladas, o mundo fica um lugar tão estranho que apetece apagar a luz e pedir para nos acordarem quando tudo tiver passado.

Temos que dar tempo ao tempo, diz o ditado e repetimos nós, sempre que alguma coisa nos choca, deixa de fazer sentido ou revela algumas das nossas incapacidades. Seja porque não compreendemos, seja porque ficamos atordoados ou perplexos e, de repente, não temos ferramentas internas para lidar com determinadas pessoas ou situações, a realidade exterior muitas vezes exige-nos esse tempo interior. E não só interior, pois dar tempo ao tempo é um imperativo literal que implica deixar passar horas e dias, ou semanas e meses. Por vezes até anos.

As mortes, as perdas, as rupturas, as separações, as mudanças repentinas, os lutos, os divórcios, o ficar desempregado, os acidentes e os diagnósticos brutais são acontecimentos cujo impacto só pode ser absorvido num tempo demorado. Somos capazes de nos manter funcionais e até hiper activos, super eficazes e colaborantes, mas sabemos que caminhamos sobre facas. Algum dia virá em que a dor dói mesmo. Nesse dia caímos na conta de que precisamos de nos dar tempo e realizamos que não podemos exigir demasiado de nós próprios. Nem dos outros. Cada um faz aquilo que pode e sabe, ainda que isso nos possa parecer pouco ou inconsistente.

Nas alturas em que a vida parece indecifrável e as rotinas ficam abaladas, o mundo fica um lugar tão estranho que apetece apagar a luz e pedir, como num célebre cartoon, para nos acordarem quando tudo tiver passado.

Em todo o caso a lendária máxima de ‘dar tempo ao tempo’ não se esgota nas situações dramáticas ou radicais. Muito pelo contrário, também se aplica no dia a dia, em coisas triviais. Dar tempo ao tempo ajuda a superar adversidades, mas também equivale a esperar pelo tempo certo. Nesta lógica, importa perceber, por exemplo, o valor do tempo na maneira como damos feedback aos outros.

Se queremos ter eficácia no feedback, temos que ter consciência que o tempo é um factor determinante. Idealmente todo o feedback deveria ser dado no right time, mas como somos máquinas de reagir e nem sempre adivinhamos qual o tempo certo, vamos aprendendo pela experiência (sobretudo com as más experiências) que há realmente um tempo adequado para sermos eficazes, e obtermos resultados, quando pretendemos que alguém ou alguma coisa mude à nossa volta.

Vivemos na ilusão de que ser franco e directo é dizer tudo o que temos a dizer aos outros, sem deixar nada de fora. Ou seja, dizer absolutamente tudo sem olhar a quem está presente e, pior, sem termos em consideração os sentimentos e as circunstâncias internas da pessoa a quem nos dirigimos. Ora essa pessoa pode não estar sozinha e, por isso, sente-se agredida ou humilhada. No mínimo sente-se exposta na sua falha e nas suas fraquezas, perante terceiros. Se por acaso estiver a atravessar uma fase má ou o seu contexto interno for de grande fragilidade e vulnerabilidade, então fica mesmo no tapete. Sem reacção. E sem capacidade de se levantar e voltar ao que era.

Feedbacks demolidores são extraordinariamente fáceis de dar. Fáceis e imediatos. Destruir alguém por palavras ou fulminar com um simples olhar pode ser instantâneo. Já recuperar dessa ferida pode levar meses. Ou anos.

Se assim é e se todos percebemos que o tempo importa, porque não aprender a viver ao terceiro dia? Porque não dar tempo ao tempo e esperar que o outro esteja capaz de ouvir e agir em conformidade? De preferência sozinho e sem se sentir exposto perante terceiros.

Viver ao terceiro dia não é apenas um conceito cristão. Também pode ser uma verdade ateia que serve a todos, crentes e não crentes. Viver ao terceiro dia é saber esperar pela altura certa, pelo tempo justo, pela ocasião propícia, pelo momento favorável para dizermos o que temos a dizer. Sem mão na anca, sem ser a coberto de uma suposta franqueza, sem agressividade e com precisão. Note-se que não temos que dar apenas feedbacks elogiosos ou bonzinhos, porque ninguém nos pede para sermos parvos. Podemos e devemos ser críticos e incisivos, mas nunca destrutivos. Demolir não custa, mas reconstruir e voltar a pôr de pé, sim. Muito.

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