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Fogo de Pedrógão Grande

As armadilhas do fogo e do combate ao fogo

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Natureza zangada. Condições atmosféricas atípicas. Inconsciência das vítimas. Eis as causas apresentadas por algumas autoridades para a tragédia de Pedrógão.

As condições atmosféricas ‘atípicas’ foram determinantes para a propagação rápida do incêndio em Pedrógão Grande. ‘Inconsciência’ e ‘curiosidade’ podem explicar algumas das mortes. Jaime Marta Soares, presidente da Liga dos Bombeiros, (…) falou na ‘curiosidade’ e nalguma ‘inconsciência’ como um dos fatores a explicar as mortes. ‘O fogo progrediu a uma velocidade diabólica, nunca vista, inimaginável’, afirmou, elogiando a ‘grande capacidade das forças no terreno, que rapidamente chegaram ao local e se organizaram, sentiram-se no limite das suas capacidades. Tudo fizeram, numa luta desigual contra a natureza zangada’.

Natureza zangada. Condições atmosféricas atípicas. Curiosidade. Inconsciência. Eis as primeiras causas apresentadas por algumas autoridades para a tragédia de Pedrógão Grande. Portanto, a Natureza zangada, as condições atmosféricas atípicas, a curiosidade e a inconsciência juntaram-se à longa lista de culpados pelos fogos florestais em Portugal. Uma lista da qual já fizeram parte os pastores, fumadores, madeireiros, agricultores, reaccionários, fogueteiros, celuloses e promotores imobiliários. A falta de meios também integra esta lista, muito particularmente nos períodos em que o governo em funções não está em estado de graça jornalística. Mas como não é esse o caso repete-se o que prontamente o Presidente da República declarou em mais um dos seus momentos de emoção: “O que se fez foi o máximo que se podia fazer”. Perante tudo isto, resta-nos então esperar que a Natureza não se zangue muito. Ou que pelo menos vá refreando e espaçando essas zangas. Um totem talvez desse jeito!

Os protagonistas do país-fantasia estão a viver o seu choque com a realidade e reagem com aquela espécie de alarve leviandade que nos vendedores de ilusões se chama auto-condescendência. No país-fantasia Portugal tem vivido em festa, as questões que interessam são aquelas que permitem fazer “avançar as mentalidades”, dar beijinhos tornou-se uma revolução política e só as pessoas amargas questionam a bem-aventurança presente. Os problemas consideram-se resolvidos desde que se lhes deite dinheiro para cima e se envolva tudo numa prosa com expressões como “ano de viragem”, “sinergias”, “construção de comunidades mais seguras e resilientes”, “proximidade ao cidadão”, “obrigação partilhada entre todos”… Tudo isto e muito mais se pode ler em milhares de textos oficiais. Um desses textos – e foi de lá que estas expressões foram retiradas – é precisamente o Plano de Atividades 2017 da Autoridade Nacional de Proteção Civil.

Os acontecimentos destes dias estraçalharam estas e na verdade quase todas as linhas desse dito plano. Mas também é verdade que ninguém questionou o falso sentimento de segurança emanado dessas páginas que nos davam conta de como se gastam as crescentes verbas da Proteção Civil: 137.687.616 euros no ano de 2017. Lendo as alíneas desse relatório, nomeadamente as que revelam quanto pesam as despesas do Dispositivo de Meios Aéreos de Combate a Incêndios Florestais (85,45% do total orçamentado na rubrica Aquisição de Bens e Serviços), constatamos como são verdadeiras as palavras do investigador José Cardoso Pereira, professor catedrático do Departamento de Engenharia Florestal do Instituto Superior de Agronomia, que no ano passado, ao ser interrogado pelo Observador a propósito da vaga de incêndios, denunciou o que designava como “atração política de responder com reforço de meios de combate”, ao invés de um plano consistente de prevenção.Vemos todos os dias os noticiários das oito a serem abertos com helicópteros Kamov.”

Um ano depois, estas declarações ganharam particular dramatismo. O mesmo acontece com as palavras de Paulo Fernandes, especialista em incêndios e investigador no Departamento de Ciências Florestais da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, que, também ouvido em 2016 pelo Observador, declarou: “O sistema de combate a incêndios está divorciado do sistema de prevenção”, “por muito tentador que seja, não é possível justificar esta anormal vaga de incêndios exclusivamente com a ‘anomalia meteorológica’”.

É como se as palavras dos técnicos não passassem de avisos de novas Cassandras. Avisos que ninguém quer ouvir face ao brilhantismo e eficácia mediática do discurso do anúncio dos “meios de combate”. Mas infelizmente, como declarou a propósito dos acontecimentos de Pedrógão Henrique Pereira dos Santos, autor da obra Portugal: Paisagem Rural: “Podem mandar vir os Kamov que quiserem, mais os Canadairs. O que quiserem. Não é possível combater diretamente um fogo com a carga de combustível que está no terreno” Para este arquitecto paisagista, o que chamamos de segurança na floresta não passa de uma ilusão. Perigosa: “É como se nós tivéssemos em casa a ideia de deixar os bicos do gás acesos e dizer ‘meninos, agora ninguém risca um fósforo ou ninguém faz uma faísca’. Ninguém faz isso em casa. Toda a gente sabe que, de uma maneira ou de outra, há de haver uma faísca. O que nós temos no nosso território são as torneiras do gás acesas”…

Declarações de especialistas não faltam. Nem sequer o retrato feito por jornalistas, como é o caso de José Manuel Fernandes: “Hoje consegue-se chegar mais depressa a um incêndio e, assim, também se consegue evitar mais incêndios catastróficos. Isto acontece porque se gasta hoje muito mais dinheiro com a Proteção Civil – e gasta-se em boa parte porque em 2005/2006, quando António Costa era ministro da Administração Interna, ele conseguiu fazer valer o seu peso político para concentrar os recursos disponíveis no que dependia do seu ministério, isto é, nos bombeiros, nos sapadores da GNR, nos aviões e nos famosos Kamov

Contas feitas, já há alguns anos dizem que por cada quatro euros gastos no combate aos incêndios se investe apenas um euro na sua prevenção. Por isso, e por muito que o país-fantasia agora “país em estado de choque emocional” queira acreditar e fazer acreditar, o que está a acontecer não é o resultado de uma Natureza zangada ou da inconsciência das vítimas, mas sim o resultado de a política de combate aos incêndios se ter transformado cada vez mais num item do Ministério da Administração Interna.

É ineficaz e grotesco querer combater incêndios como se os hábitos dos portugueses e a distribuição da população pelo território não tivessem mudado desde os anos 50 do século passado, quando a maior parte da população vivia no campo e calcorreava as serras em busca de alimento para o gado – logo, limpava as matas – e os produtos florestais tinham outra rentabilidade. (Já agora, sabem quanto dão por um pinheiro de grande porte após vários anos de crescimento? 13,5 euros. Muito daquilo a que hoje se chama floresta é um misto de mato e árvores sem rentabilidade, retalhado ao infinito em propriedades abandonadas ou que estão reduzidas ao estatuto de património sentimental.)

Não existem soluções mágicas para os fogos florestais, mas, para que Pedrógão não se repita, temos de parar e ouvir também propostas fora do mundo do combate aos incêndios. Propostas questionáveis como as de Henrique Pereira dos Santos – A opção não é a de ter fogos ou não ter fogos. A opção é entre ter fogos como queremos ou como não queremos. O que significa queimar no inverno, pagar aos pastores para andarem com gado, utilizar essas faixas de redução de combustíveis e, depois, ter uma estrutura profissional de combate, que está lá o ano inteiro, que esteve envolvida nessa redução de combustíveis e que sabe quais são as linhas onde é possível parar o fogo” Mas propostas que temos urgentemente de discutir para que nos libertemos das armadilhas do fogo e também das do combate ao fogo.

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