Governo

As causas da seca

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Desde tempos imemoriáveis que os chineses gostam de classificar os governantes em duas categorias: a dos bons e a dos maus. Só Mao, que não foi bom nem mau, mas péssimo, escapou a esta categorizarão.

Desde tempos imemoriáveis que os chineses gostam de classificar os seus governantes em duas categorias: a dos bons e a dos maus. Só Mao, que não foi bom nem mau, mas péssimo, escapou a esta categorização binária.

De entre os governantes bons tem lugar de destaque, na memória da nação, el-rei Cheng Tang 成湯 (reinou c. 1675—1646 a.C.), o primeiro da dinastia Shang 商朝. Na conceção chinesa do mundo, a virtude dos governantes traduz-se no harmonioso e regular fluir dos fenómenos telúricos e celestes, e os seus vícios são postos a descoberto por calamidades naturais. Cheng Tang é especialmente conhecido pelo seguinte episódio, aqui recontado por Fukansai 不干斎, um polemista japonês do primeiro quartel do século 17, que demonstra a sua virtude:

“Aquando da grande seca do sétimo ano do reinado del-rei Tang de Shang o povo sofria atrozmente. Quando o ministro superintendente do ritual comunicou a el-rei que o resultado da divinação era que um sacrifício humano deveria ser oferecido, este pensou: ‘Esta calamidade é devida aos meus crimes’. E pensou ainda: ‘O povo não é culpado’. Assim, determinando el-rei sacrificar-se a si mesmo, envergou uma túnica de caniços e, subindo para uma caroça puxada por um cavalo branco, dirigiu-se para um bosque de amoreiras. Aí, orando em voz alta, culpou-se dos seis vícios dizendo: ‘O governo não tem rumo? O povo não trabalha? Os ministros são insensíveis? A influência das concubinas sobre el-rei é excessiva? São praticados subornos? A maledicência é comum?’ Mal tinha terminado quando uma chuva abundante começou a cair sobre toda a terra.”

Porque chamou el-rei a si todos os vícios mencionados quando muitos deles não podem ter sido praticados por ele? Porque, como chefe da nação, estabelece o padrão. Quando descura algo que é próprio da realeza dá mau exemplo, e assim também os seus súbditos deixam de exercer conscienciosamente as suas funções e a desordem instala-se. Os crimes dos oficiais e do povo são, portanto, da responsabilidade del-rei, e o mesmo se se passa com a desordem nos elementos. Deste modo, se o soberano esquece a responsabilidade do seu cargo e vai de férias durante uma calamidade, o governo perde o rumo, o povo começa a seguir a CGTP, os ministros tornam-se insensíveis a incêndios e roubos de armamento, as amigalhaças pedem nomeações e outras poucas-vergonhas, os secretários de Estado começam a receber subornos, e o parlamento torna-se num ninho de maledicência.

A chuva abundante foi o sinal que o exame de consciência feito pelo soberano no bosque terá sido o sacrifício humano necessário para retificar o que estava mal. Depois disto el-rei Tang ainda reinou virtuosamente muitos anos, o seu reino foi justo e prospero, e os elementos regressaram à sua ordem natural.

Será que, neste período alongado de seca que vivemos, se pode dizer que algum dos seis vícios mencionados por Tang de Shang não é praticado cá? E não será por isso que não chove? De São Bento às Amoreiras é apenas um saltinho…

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