Base das Lajes

Base das Lajes: Portugal a ver passar aviões

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O pragmatismo dos EUA leva-os a agir como se a base das Lajes não fosse portuguesa. O porta-aviões de pedra está ao serviço dos interesses estadunidenses. Sair em definitivo está fora de questão.

A recente entrevista que Devin Nunes, descendente de açorianos e Presidente do Comité de Informações da Câmara dos Representantes do Congresso dos Estados Unidos, concedeu ao Observador voltou a trazer para a ribalta a questão do valor geoestratégico da Base das Lajes. Assunto que conheceu imediato desenvolvimento devido à proposta que o ministro da Defesa, Azeredo Lopes, fez ao secretário da Defesa norte-americano, James Mattis, para a criação de um Centro de Segurança Atlântica na Base das Lajes.

Uma proposta saudada pelo Presidente do Governo Regional, Vasco Cordeiro, uma vez que a considera “lógica e perfeitamente concretizável”. Porém, o exemplo de outras ideias postas a circular mas que, até ao momento, não tiveram qualquer concretização, aconselha a refrear a onda de entusiasmo. Afinal, a Ilha Terceira já tem a sua conta de desencantos. Histórias que a História se encarregará de escrever.

Na realidade, a Base das Lajes representa um ativo que Portugal não tem sabido rentabilizar. Há alguns anos, na sequência de vários anos de pesquisa na Torre do Tombo, publiquei o livro Lisboa, os Açores e a América: Jogos de Poder ou Rapina de Soberania?.

Na altura afirmei que apenas Salazar tinha conseguido usar a base para obter contrapartidas significativas, embora questionáveis, por parte dos Estados Unidos da América. Aceitou o ultimato norte-americano, enquadrando-o no âmbito da Aliança Luso-Britânica, concedeu aos EUA facilidades na utilização da estrutura, não quis receber renda, mas exigiu-lhes o apoio à política colonial portuguesa. Por isso o império teve um encerramento tão serôdio.

A obra também historia o segundo ultimato, já no tempo de Marcelo Caetano, e as contrapartidas negociadas por Portugal depois do 25 de Abril de 1974. Contrapartidas que considerei insignificantes face à importância geoestratégica da base e ao impacto ambiental decorrente da utilização de uma estrutura bélica.

Portugal colocou a tónica num paradoxo – ser amigo de uma superpotência é sinónimo de ser importante e ter direito a tratamento especial – e no número de empregos que a base possibilitava à população local, bem como nos dólares que os militares norte-americanos gastavam na ilha.

Quanto à pulverização semanal com DDT de um paúl, da base e da vila da Praia da Vitória durante décadas ou à contaminação dos aquíferos com hidrocarbonetos e metais pesados não eram motivo de conversa. A exemplo do secretismo sobre tudo o que dissesse respeito ao material nuclear que por ali circulava.

Assuntos que só começaram a conhecer a luz do dia – apesar das cortinas que ainda persistem e que a imprensa regional, designadamente o Diário Insular, tem vindo a afastar – quando, finda a guerra fria, os EUA desinvestiram na base que passou de uma little America a uma gas and go. O efetivo militar estacionado nas Lajes foi drasticamente reduzido, tal como o número de portugueses que lá trabalhavam.

O impacto económico afetou, direta ou indiretamente, o tecido social da ilha. Foi necessário elaborar um Plano de Revitalização Económica da Ilha Terceira (PREIT). É no âmbito desse plano que deve ser enquadrada a proposta de Azeredo Lopes.

Um plano que tem a originalidade de ser o hospedeiro – Portugal – a propor ao usufrutuário – EUA – as medidas destinadas a “reforçar e concretizar a importância estratégia que os Açores, e em concreto a ilha Terceira, têm no Atlântico”. Uma originalidade que tem custos regionais muito elevados. Basta ver a forma como os EUA estão a lidar com o problema da descontaminação.

Colocar na mão dos norte-americanos a decisão, sabendo que têm uma visão integrada da base e do porto de Praia da Vitória, situação que condiciona o cabal aproveitamento das potencialidades da Ilha Terceira, não é seguramente a estratégia que melhor serve os interesses nacionais, regionais e locais. O pragmatismo dos EUA leva a Administração a agir como se a base não fosse portuguesa. O porta-aviões de pedra está ao serviço dos interesses estadunidenses. A forma como evolucionar a conjuntura mundial ditará a atitude face às Lajes. Sair em definitivo é que está fora de questão.

A política, ao contrário da matéria, tem horror ao vazio. A expansão russa e a grande marcha chinesa para Ocidente estão à espera de uma oportunidade. Algo que, no que concerne ao elemento bélico, não falará português com sotaque açoriano.

Quanto a Portugal, vai continuando entretido a congeminar ideias e a desatar as mãos. Um nó de cada vez. Nada de pressas. A tarefa é árdua. A compatibilização difícil. Extensão da Plataforma Continental. Base para o lançamento de satélites. Restruturação das instalações navais…

Só falta aparecer alguém a querer acabar com a base militar. Uma impossibilidade do ponto de vista oficial. Portugal não quer virar as costas a um aliado deste quilate. Aliás, mesmo se quisesse, não podia. E não é apenas por causa do Acordo ou da NATO.

Como é facilmente percetível, o Tio Sam, ao contrário de Portugal, não anda a ver passar aviões.

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