Banco Alimentar Contra a Fome

Caridadezinha

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Saiam à rua e perguntem ao primeiro sem-abrigo que aparecer o que lhe foi mais útil ao longo dos últimos anos: se a ajuda do Banco Alimentar, se os planos que Paulo Pedroso e congéneres engendraram.

“Isabel Jonet põe em causa aumento do salário mínimo nacional”, noticia um recém-criado jornal português. E logo as vozes do costume, atropelando o argumento de ordem económica apresentado, se apressam em vir a público apedrejá-la. Isabel Jonet quer perpetuar a pobreza para poder continuar a praticar a sua “caridadezinha”, dizem-nos.

Voltamos à velha discussão. Para uma certa esquerda, a caridade continua a ser vista como uma forma de os cidadãos aliviarem a própria consciência sem encararem o problema estrutural da pobreza. Podemos caricaturar esta visão através da imagem da tia de Cascais que, ao passar por um sem-abrigo, lhe atira uma moeda de 50 cêntimos para sentir (e poder dizer) que ajudou os pobrezinhos. Ao darem umas moedas a uns miseráveis ou ao estenderem uns sacos de compras à porta dos supermercados, estas pessoas limitam-se a dar uma parte insignificante do seu rendimento ou do seu tempo para viverem melhor consigo mesmas. Estas práticas, longe de resolverem o problema, perpetuam-no, porque enquanto viverem da “caridadezinha”, os mais pobres resignar-se-ão à sua triste condição, e o Estado encostar-se-á a estes apoios pontuais para se eximir das suas responsabilidades.

É evidente que podemos tentar escrutinar as motivações de cada um na esperança de separar os altruístas dos fariseus ou até assumir aprioristicamente, na esteira de Tocqueville, que uma pessoa só dá esmola porque gostava que os seus conterrâneos fizessem o mesmo por si, caso se visse naquela triste condição. Podemos questionar-nos se Marcelo Rebelo de Sousa, quando dá um abraço a um concidadão que sofre, o faz por se compadecer com aquele sofrimento, por gostar que fizessem o mesmo por si, por saber que tem câmaras nas suas costas ou por um misto de tudo isto. Este é, contudo, um exercício condenado ao fracasso, visto que nunca vamos conseguir compreender, em plenitude, o que motiva cada pessoa (provavelmente nem as próprias o saberão), muito menos todas as pessoas. O mais provável é acabarmos por cair em generalizações e rotularmos todos, injustamente, de santos ou hipócritas.

Por outro lado, os que apelidam a caridade da “caridadezinha”, depositam uma esperança ingénua e preocupante no Estado. Colocam todo o seu empenho na busca de um sistema abstrato e idílico que a todos chegue e socorra, desdenhando da ajuda presente e pontual, concretizada através de pequenos gestos. Não há nada de errado em ambicionarmos um mundo melhor. O erro está em tornarmo-nos reféns desse sonho e deixarmos de realizar os pequenos gestos que, se realizados, teriam um impacto real e visível (ainda que pequeno) na vida dos mais pobres. Os advogados da “caridadezinha” reconduzem-se àquilo a que Roger Scruton apelida de “otimistas inescrupulosos”: pessoas que «acreditam que as dificuldades e as desordens da espécie humana podem ser vencidas por um ajustamento em grande escala (…). Quando se trata de ajudar outros, portanto, todos os seus esforços são postos no esquema abstrato de melhoramento humano e absolutamente nenhum na virtude pessoal que lhes podia permitir o desempenho do pequeno papel que aos humanos é atribuído na melhoria da sorte dos seus semelhantes».

Paulo Pedroso, ex-ministro socialista, escrevia, em 2012, também a propósito da ação do Banco Alimentar, que “por mim, prefiro dedicar a minha energia a perguntar-me o que posso fazer para que diminua este tipo de procura de bens alimentares enquanto a senhora Jonet escoa a oferta”. 5 anos depois, deixo um desafio a todos. Saiam à rua e perguntem ao primeiro sem-abrigo que vos aparecer o que lhe foi mais útil ao longo dos últimos anos de existência: se a ajuda do Banco Alimentar, se os planos que Paulo Pedroso e congéneres engendraram.

Num tempo em que tanto se fala em pós-verdade, é preciso assumir, sem quaisquer rodeios, que a ajuda ao próximo (a “caridadezinha”) é um ato intrinsecamente bom e que todos estamos chamados a fazê-lo, sobretudo em períodos de crise. Quem não quiser, que não o faça. Mas, por favor, tenha a decência de não criticar quem o faz e de não pôr em causa o que os move. A ajuda de um vaidoso sempre é mais útil que a inércia de um desleixado.

Advogado

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