Logo Observador
Museus

Descobridores

Autor

Dentro da Fundação Vuitton, uma harmonia luminosa, cá fora uma sombria cavalgada politica a caminho de um previsível desastre. A poucos metros dali, uma França contaminada e corroída pelo mal dos dias

1. Navegou pela arte como dantes os grandes descobridores pelos mares desconhecidos. E o que descobriu e o que de “lá” trouxe fez com que, pela parte que me toca, eu tenha ficado certamente a dever qualquer coisa a Serguei Chtchoukine. E percebi-o muito bem apóś ter visto agora em Paris, na fundação Vuitton, o que era a sua então privada (!) colecção de pintura.

Vetadas ideologicamente pela revolução de 1917 e escondidas durante quase cinquenta anos do ocidente e do mundo, eis que as centenas de obras primas adquiridas por Serguei, entre os anos de 1898 e 1914, acordaram enfim do seu longo sono.

Nunca terei palavras para descrever ou sequer “comunicar” a mistura de espanto visceral e quase embriagamento que senti ao entrar numa grande sala onde só havia obras de Matissse. As telas, um imenso e jubiloso friso de muitas irmãs, pareciam suspensas da sua própria cor, jorrando , ora intensa ora mais veladamente, reflexos de luz para onde quer que olhássemos e não me lembro de jamais ter visto, numa única exposição e numa mesma sala, tantas obras reunidas de Matisse (ou Gauguin,ou Picasso, ou Monet, para só citar estes), fora dos museus que lhes são exclusivamente dedicados.

Serguei Chtchoukine, nasceu na Rússia em Junho de 1854, a familia usava de temperamento artistico,ele gostava de arte, possuía o apetite, o impulso e a desvelada curiosidade que ela sempre exige e, sorte maior, possuía também o fôlego financeiro capaz de servir a sua devoção. A pouco e pouco, o magnífico Palácio Troubetskoi em Moscovo para onde se muda com sua mulher Lydia e os seus três filhos em 1890, vai acolhendo, a um ritmo que hoje diríamos empolgantemente avassalador, dezenas de telas vindas de França e não por acaso: numa viagem que entretanto fizera a Paris, Chtchoukine conhecera um marchand bem relacionado, Paul Durand-Ruel que viria a ampliar-lhe horizontes, apurando-lhe o gosto e a percepção artisticas, ao apresentar-lhe diversos pintores que ninguém conhecia mas que ele, Durand-Ruel, conhecia. E apreciava e recomendava. Degas, Monet, Cezanne são esses primeiros artistas que o russo compra ao francês. Segue-se Matisse que conhece pessoalmente, de quem fica proximo( adquire-lhe 38 quadros!) e que lhe apresenta Picasso. Seguem-se outras viagens, mais descobertas, novas aquisições. Feitas ao seu amigo- marchand ou directamente aos pintores, com um saber e um prazer que se renovam a cada visita aos respectivos ateliers.

Eram os anos antes antes da revolução — e como Talleyrand avisadamente ensinou,e nós aprendemos, “qui na pas vécu avant la révolution n’a pas connu la douceur de vivre” — o que significa que a aquisição de arte a um ritmo permanente ou a sua encomenda, estava naturalmente inscrita na “doçura” do ar desse tempo. E no dinheiro que ágil e farto, tirava do anonimato e da fome muitos artistas e os predispunha, também muito naturalmente, a executar pintura por encomenda e à medida. Como ocorreu com Matisse no Palácio Troubetskoi , cuja “galeria” por vontade do seu proprietário,coleccionador e mecenas, seria aberta ao publico de Moscovo, em 1908. Podemos aliás aperceber-mo-nos do fausto artistico e decorativo do Palácio e da sua Galeria, através de diversas fotos que recobrem algumas paredes da Fundação Vuitton, em Paris, o melhor cofre arquitectónico para as rarissimas jóias de Chtchoukine (hoje distribuídas por dois museus de Moscovo e pelo Hermitage, de São Petersburgo).

Trinta anos depois da sua primeira aquisição, o mecenas russo conseguira um feito: fora um dos “descobridores” da arte moderna e a intensidade e o esplendor da “novidade” da sua coleçcão foram um dos ex-libris dessa espécie de “ dia novo” da história universal da pintura. É isso que, privilégio, somos deslumbrantemente e deslumbradamente convidados a testemunhar, através de um percurso pelos quatro andares da novissima Fundação Vuitton, desenhada por Frank Ghery, no Bois de Boulogne. (ate 5 de Março).

É de resto quase milagroso — mas só porventura o fulgor da criação artística conseguiria o milagre — que de sala para sala, subindo e descendo, se consiga deixar entre-parêntesis o que de menos simpático vai ocorrendo na vida política e pública francesa, fora daquelas paredes. Dentro da Fundação Vuitton, uma harmonia luminosa, cá fora uma sombria cavalgada a caminho de um previsível desastre. Diante dos Matisses, a beleza em estado quimicamente puro, a trezentos metros dali, um país contaminado e corroído pelo mal dos dias.

2. E agora a outra metade da aventura Chtchoukine, que foi esta extraordinária possibilidade de a “dar a ver” ao mundo. Á luz do que significa mostrar arte no século XXI e dentro de uma moldura com o fôlego do edifício de Frank Ghery .De uma coisa estou porém absolutamente certa: não fora o espírito “avançado” de Bernard Arnaut, presidente da Fundação Vuitton, (criada a partir da sua presidência do LVMH, o maior grupo de luxo da Europa )e muito provavelmente nada teria sido como foi. Ou nem sequer teria sido.

No início dos anos noventa, Arnaut já era um dos maiores mecenas da França mas tal “qualidade” não lhe chegava, nem satisfazia. Atento aos sinais emitidos pelo mundo, aberto às mudanças, descobridor apaixonado da criação “sob todas as suas formas”, queria chegar a projectos humanitários, à juventude, à educação, a mais públicos. Uma vasta ambição, com a assinatura de um fazedor com meios, iniciativa e doses superlativas de energia: sabia, numa palavra, que podia fazer mais e visar mais alto. Precisava de um lugar, uma sede que simultaneamente acolhesse e desse vazão ao que projectava. Só podia ser uma Fundação, só poderia ser em Paris. A história deste sonho demorou vinte anos a transformar-se na obra primíssima de Gerhy, instalada no Jardin d’Acclimatation, do Bois de Boulogne e inaugurada em Outubro de 2014.

Um colaborador próximo e amigo do mecenas, adivinhando uma afinidade entre a visão de Arnaut para o projecto da Fundação e o sopro que varre a arquitectura Gehry, levou o seu amigo, em Novembro 2001, a ver o Museu de Bilbau. Bernard Arnaut ficou sem ar, “tratara-se de uma revelação”, encontrara alguém que arquitectonicamente descobrira mais. Um mês depois estava a caminho de Nova Iorque onde o Gerhy lhe promete vir a Paris rapidamente. Veio, falou-lhe de Proust, confessou “adorar” a França, conhecer a sua cultura: em Fevereiro de 2002 a “afinidade” adivinhada pelo seu colaborador, desaguou no “sim” de Frank Gerhy àquele tremendo desafio.

Podia começar a segunda etapa, um intrincado e infindável rol de burocracias, uma rede quase kafkiana de obstáculos e constrangimentos. Mas o projecto avançava, o fértil diálogo entre o mecenas e o arquitecto também: sabiam ouvir-se, o talento entusiasmado de cada um e a qualidade humana de ambos fez o resto. Em 2010 a maqueta da obra é pela primeira vez mostrada publicamente, a Fundação abrirá finalmente as suas portas quatro anos depois.

Deviam ter soado trombetas para esta grande história feita por “descobridores” e selada num edifício branco que jamais saberei descrever. Pássaros, peixes, barca com velas? numa sucessão de curvas de vidro e aço, onde suaram dezenas de equipas técnicas compostas por centenas de arquitectos,engenheiros, designers.

Chtchoukine deve estar feliz pelo modo como Arnaut e Gerhy descobriram como fazer brilhar o que ele próprio descobrira antes deles, mais de cem anos antes.

3. E sim, foi formidável estar vivo ali dentro.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Londres

Outros dias

Maria João Avillez

Metrópole criativa, oferta cultural imbatível, sede da melhor imprensa do mundo, permanente espectáculo – da rua a Buckingham Palace. Com ou sem Brexit. Diário de uma semana em Londres. 

Fátima

O Peregrino

Maria João Avillez
209

É escrito com a claridade das coisas simples, a poesia das coisas belas, a importância das coisas essenciais. Surgirão mil livros sobre Fátima, como este, talvez nenhum.

Governo

A mão

Maria João Avillez
2.718

Pessoas assim enjoam o primeiro-ministro. Exigem-lhe “nervos de aço. Deve dar um trabalhão fazer passar a direita como um grupo menor de maltrapilhos, de passado duvidoso e com má folha de serviços.