Amizade

Destrói os teus amigos?

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Slogans a fingir que tudo é brincadeira parecem inofensivos, mas que diríamos de slogans do tipo “ateia fogo na tua casa”, “destrói os teus pais”, “dá cabo dos teus avós”, “bate nos teus professores”?

Num tempo em que meio mundo anda apostado em identificar assediadores e bullyers para apoiar as vítimas e eliminar os perigos de outros poderem vir a ser assediados ou sofrerem de bullying, eis que o slogan de uma triste campanha publicitária é “destrói os teus amigos”. Percebe-se que é brincadeira, mas há coisas que não se dizem nem a brincar.

Dá trabalho alterar padrões de comportamento e é preciso tempo e endurance para lutar contra estigmas e preconceitos. Não se conseguem mudar mentalidades da noite para o dia, mas é incrivelmente fácil e imediato caucionar atitudes estúpidas com slogans publicitários. Destruir os amigos é um propósito estúpido, mesmo que estejamos a falar de grupos de amigos que lutam virtualmente entre si, coisa que faz deles adversários ou inimigos, mas nunca amigos.

Amigos são, por definição, os que estão do mesmo lado da barricada. Os que estão connosco e por nós. Os que mais depressa arriscariam a vida para resgatar a nossa vida do que atravessavam linhas de fronteira para ficarem emboscados no campo contrário, à espera das nossas falhas ou distracções para nos matarem. Na realidade real ou virtual, há códigos de conduta universais que permanecem inalterados. Amigos são amigos, inimigos são inimigos. Uns protegem-se, outros são para evitar ou combater. Sempre assim foi, aliás.

Por mais sangrentas que sejam as lutas nos video jogos, por mais encarniçadas que sejam as competições, por mais distorcidas que sejam as visões dos que matam e dos que morrem, os jogos não estão construídos para matar amigos. Há justiceiros implacáveis, monstros de ecran, ameaças e perseguições terríveis, serial killers e gente a esventrar e a massacrar a todo o instante e ao menor movimento, mas até as crianças sabem que nestes jogos há sempre ‘maus’ e ‘bons’. Não são todos maus e o critério nunca foi matar os amigos. Daí, talvez, esta marca ter sentido a necessidade de acrescentar “não tenho amigos, só tenho tropas”. Pior a emenda. Primeiro convoca a destruir os amigos e depois assume que afinal não existem amigos, só tropas para abater.

Abro um parêntesis para dizer que detesto este tipo de passatempo e acho uma pena que haja tantos miúdos agarrados aos smartphones e tantos adultos viciados nestes jogos, mas não me cabe a mim decidir sobre quem faz o quê nas horas livres e, muito menos, julgar pais ou filhos que gostam deste tipo de distracção. Horroriza-me a devastação pela devastação, o abuso pelo abuso, a matança pelo prazer de matar (mesmo que seja um faz de conta doméstico com ecran particular, povoado de seres virtuais e humanóides que agem com frieza e calculismo), mas aceito que é tudo um jogo e que até pode não traumatizar as criancinhas. Em todo o caso há coisas muito melhores para fazer na vida real, mas enfim, quem sou eu para ficar para aqui a perorar sobre a poderosa indústria dos video jogos, que tem adeptos fervorosos no mundo inteiro? E fecho o meu parêntesis.

Aquilo que me interpela e tem realmente mais a ver com o meu core business é a comunicação. A maneira como se comunica o prazer de jogar estes jogos e a motivação de fundo para os adquirir e esperar pelas versões actualizadas, cada vez mais sofisticadas. Estabelecer que o melhor slogan, o teaser mais eficaz é apostar em ‘destruir os amigos sem gastar net’ parece-me excessivo e, convém dizê-lo, politicamente muito incorrecto. Aliás muito grave, na medida em que contraria os sinais dos tempos e abre portas que estamos a tentar fechar a todo o custo.

Podem sempre argumentar que um simples slogan, de uma esforçada campanha de publicidade não faz grande diferença, mas isso é não saber o impacto consciente e subliminar que têm as imagens e mensagens publicitárias. Claro que faz diferença e claro que é abusivo usar todos os meios para atingir os fins. Não vale tudo para vender mais uns joguinhos. Fui ver do que se tratava, neste caso, e dei com um jogo de reis e exércitos, torres e espadas, braços de ferro entre anormais que dão urros, nada demais nem nada que nunca se tivesse visto no cinema ou na vida real. Então, se é apenas mais isto, porquê investir numa campanha contra natura? Para criar buzz, para haver ruído e comentários que possam levar a comprar mais e ter mais lucro, claro.

Transpondo esta mensagem sobre um jogo virtual para a realidade real, o que é que estamos a dizer aos miúdos e aos pais deles? Que vale tudo, a começar por destruir os amigos. E isto, dito e publicado em cartazes espalhados pela cidade, começa por ser apenas uma brincadeira aparentemente inócua, mas pode degenerar no pátios das escolas em jogos reais que destroem amigos reais. É muito fácil uma perseguição a brincar converter-se rapidamente num confronto sério, agressivo e repetido, tendo como alvo um elo mais fraco.  Sabemos todos muito bem quais os caminhos que levam ao assédio e ao bullying que meio mundo anda a tentar travar.

Estou claramente do lado deste meio mundo que faz tudo para aplacar o outro meio que ataca, agride e molesta. Estou do lado das vítimas e dos que sofrem por ‘brincadeirinhas’ parvas que deixam marcas para a vida. Sei de miúdos que confiavam em amigos que os destruíram ao ponto de os levar ao suicídio. Um destes miúdos foi motivo de notícia há um par de anos e conheci-o na escola onde era diariamente assediado e agredido.

Há mil slogans eficazes para vender video jogos e há fanáticos desta actividade pelo mundo inteiro. Diria que não era preciso exagerar. A própria marca do jogo assume que “é diferente, é genuíno, é partilhar e brincar com tudo. Menos com os teus direitos”. Se assim é, pergunto como é que se respeitam os direitos quando se apela a ‘destruir os amigos’?

Slogans destes, a fingir que tudo é apenas brincadeira, parecem inofensivos, mas que diríamos se esta ou outras marcas desatassem a criar slogans do tipo “ateia fogo na tua casa”, “destrói os teus pais”, “dá cabo dos teus avós”, “bate nos teus professores” e por aí adiante? Termino como comecei: há coisas que não se dizem nem a brincar.

P.S.: Sei que a marca vai ficar radiante por ver que alguém se deteve perante os cartazes espalhados pela cidade para escrever uma crónica num jornal muito lido, pois para estas e outras marcas, estas e outras agências de publicidade, não importa que se fale mal, importa é que se fale. Pena.

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