Crónica

Direito de desaparecer

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Não há quem desapareça sem se sentir também mais ou menos culpado. Seja como for, torno-me impiedosa: encolerizo-me com menos de nada se algum obstáculo me impede de estar metida na minha vida.

Muitas vezes, preciso de desaparecer. Atendo o mínimo de chamadas: digo que ando a mostrar a cidade a amigos que chegaram de fora. Talvez quem me ouça ao longe, do outro lado da linha, pense que fui gozar o dia à beira-rio, que levo uma vida interessante. Mas estou apenas sozinha comigo, de olhos numa página, sofrendo ou gozando uma alegria que julgo difícil de explicar, nunca o tendo tentado fazer. Torno-me má mulher, má amiga.

À minha volta, acumula-se tralha. A casa, esquecida e castigada. Não cozinho, não meto louça na máquina, não deito o lixo fora, não passo a ferro, não arranjo as unhas, não passeio o cão. Torno-me uma mulher de férias e, ainda que não saia de casa, ganho (advertem-me) “o temperamento de uma sufragista”. Ouço a mesma música horas a fio, como se quisesse enlouquecer quem vive comigo. Vou aldrabando quem se me dirija, afirmando-me bem, muito obrigada, e ocupadíssima. Posso assim gozar o que imagino ser o direito de uma mulher à solidão. Não apenas como mal, durmo pouco, e sou displicente comigo e com terceiros, como me acho no direito de (com os meneios de grande senhora do teatro vestida de pijama) reclamar o direito à contumácia: o de me recusar teimosamente a tudo e mais alguma coisa. Nunca sou tão independente, nem tão feminina, nem tão adulta como nas alturas em que, de olheiras cinzentas e cabelo seco, não compareço. Exerço então o direito não concedido de desaparecer.

Também a amiga em mim se perde em algum lado quando desapareço. Não respondo a e-mails, não vou a jantares, nem dou cavaco a convites. Não quero saber se um se formou, se outra se aventurou num desafio há muito aguardado; se este emigrou, se aquele anda cabisbaixo. Pouco me importa saber alguém em apuros, se alguém precisa de uma palavra, de um prato de canja, ou de um abraço.

Não há quem desapareça sem se sentir também mais ou menos culpado. Seja como for, torno-me impiedosa: encolerizo-me com menos de nada se algum obstáculo me impede de estar metida na minha vida. Se, para distrair um pouco a vista, o ecrã da televisão calha estar ligado, vitupero sujeitos engravatados em canais noticiosos, e ponho-os a perorar sem som à volta de mesas onde tudo brilha muito e se bebe água de copos de vidro colorido.

Passam os jardineiros da Câmara regando um jardim público, à minha janela, a meio da tarde. Ao crepúsculo, em volta de um choupo, rondam morceguinhos. Lá fora, pela meia-noite, ouço o carro do lixo passar. Se é Verão, tenho a companhia de grilos noite dentro. No resto do ano, há lutas de gatos e cães a uivar em coro enquanto todos dormem. Amanhecendo, a cidade prossegue, o país acontece, mas ambos dispensam bem aquela actriz de pantufas barricada num apartamento, olhando com desânimo exagerado o espectáculo de tudo continuar maravilhosamente igual caso nunca mais voltasse a sair à rua.

As pequenas mentiras são tão caras ao desaparecimento como a limpeza da casa ao trabalho terminado. Chegando ao fim, atando o cabelo num lenço e vestindo um avental, abrem-se as janelas, espanejam-se os móveis, esfregam-se as carpetes, muda-se a disposição dos móveis da sala, regam-se plantas, faz-se um assado, areja-se a casa numa euforia positiva e bailadora de quem não o pode adiar nem por um dia. Vai-se ao cabeleireiro, compra-se um vestido, sai-se à rua como para a primeira volta ao jardim de uma nubente. Liga-se às amigas, que entretanto se afastaram, ou adoeceram, ou mudaram de casa, ou de vida. Liga-se às avós que, já de cabeça turva, nos confundem com uma tia falecida há muito. Admiram-se as primas que se fizeram umas mulheres enquanto estive de férias, e agora me estranham.

O que quem não comparece perde de vista é que na sua ausência não perdeu apenas a vida dos outros, mas também os seus desaparecimentos. As pessoas de quem nos esquecemos enquanto estivemos entretidos estiveram, também elas, ciclicamente desaparecidas, ainda que partamos do princípio de que estiveram lá todo o tempo à nossa espera, e nunca as saudemos quando as reencontramos sem sabê-las, como nós, acabadas de regressar à vida. E nada que se faça sozinho pode alguma vez trazer de volta o que teria sido desaparecermos juntos na saúde, na doença, na alegria, na tristeza, na velhice, no crescimento.

Djaimilia Pereira de Almeida é autora de Esse Cabelo (Teorema, 2015).

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