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Reino Unido

Eleições, terrorismo e vice-versa

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Com o tempo; com a repetição dos atentados; com a exiguidade das explicações fornecidas, com a difusão do mantra «Je suis Charlie», a opinião pública não sabe o que pensar e muito menos o que fazer.

A generalidade dos comentadores da grande imprensa tem grande dificuldade em lidar com o fenómeno do terrorismo islâmico. As próprias palavras os incomodam pelo que, muitas vezes, não se percebe bem do que estão a falar. Se de gestos isolados da parte de pessoas traumatizadas ou de um movimento com objectivos identificáveis, habitualmente associado ao chamado «Estado Islâmico» (o «ISIS» em Inglês) ou, para quem tem pruridos, o Daesh. É este pretenso «Estado» que subscreve, geralmente a posteriori, a maior parte dos inúmeros ataques de múltiplas dimensões que têm vindo a ter lugar desde que ele surgiu para tomar, aparentemente, o lugar da Al Qaeda na sequência dos atentados do 11 de Setembro de 2001, dos quais se pode datar o início desta espécie de guerra larvar contra o Ocidente opressor do mundo árabe.

É uma história conhecida, resta saber se compreendida por todos; pessoalmente, duvido. Bem cedo, uma parte importante da Europa ocidental tornou-se alvo desse tipo de ataques terroristas, alguns deles devastadores, como o da estação de Atocha em Madrid, a 500 km de Lisboa e no qual morreram perto de 200 pessoas e mais de 2.000 ficaram feridas! Embora isso tenha sido sistematicamente abafado, a verdade é que as opiniões públicas ocidentais se foram habituando a viver entre os sobressaltos, o esquecimento e a ausência de uma mudança real da situação, a qual pode explodir de novo em qualquer momento e lugar sem aviso. Com o tempo; com a repetição dos atentados; com a exiguidade das explicações fornecidas, quer pelos atacantes, quer pelos governos visados; com a difusão do mantra «Je suis Charlie» (a propósito do ataque assassino em 2015), a opinião pública não sabe o que pensar e muito menos o que fazer.

Foi perante isto que a primeira-ministra britânica Theresa May exclamou «enough is enough» no fim-de-semana passado, quando a Inglaterra foi atingida pelo segundo ataque em plena campanha eleitoral (o terceiro com o da Ponte de Westminster em Março, ou seja, 35 mortos ao todo sem falar dos feridos). Todos sabemos que são mortos e feridos de mais, mas será que efectivamente o terrorismo islâmico chegou ao fim? «Chega» – disse ela? Não chegou de certeza, infelizmente. E apesar das críticas violentas de que Theresa May foi logo objecto por ter reduzido o número de polícias em Londres, não será a polícia, apesar da competência que tem mostrado perante os ataques cometidos, que dará conta do recado, nem tão pouco um sistema de espionagem como deve ser.

Não é uma questão de polícia nem sequer de políticos. É, sim, uma questão macro-política que atravessa as sociedades ocidentais e que, embora muitos não o queiram reconhecer, é a coisa mais parecida que há com um choque de civilizações! E não é impossível que as eleições britânicas sejam mais do que um mero pretexto para estes atentados sucessivos, do mesmo modo que a Rússia de Putin não hesita em interferir nas eleições ocidentais. O desmantelamento da União Europeia, bem como a ruptura da NATO, são dois objectivos que servem a muita gente, desde logo aos partidos e comentadores nacionais que defendem mais ou menos abertamente o colapso da ordem internacional saída da 2.ª Grande Guerra. Ou esquecemo-nos disso? Se não são colusões deliberadas, o que seria difícil de provar, são pelo menos convergências objectivas, como os marxistas gostam de classificar tais modelos mentais …

Tanto assim é que, por motivos entre os quais não é possível separar o nacional e o internacional, entre perdedores e ganhadores da globalização, indígenas e imigrantes de cada país, como é o caso do desunido reino britânico, a primeira-ministra está na iminência de falhar o golpe eleitoral que desencadeara. Theresa May não é confiável, como hoje se diz. Começou por ser contra o «brexit» e acabou por herdar o governo graças a esse mesmo «brexit» das mãos inábeis de David Cameron, a fim de negociar uma «saída airosa».

Agora, porém, já só fala para agradar aos nacionalistas que votaram contra a permanência na UE, dizendo-lhes que «é melhor não haver acordo do que um mau acordo». Significa isto que iremos todos perder, a começar pela união macro-política da Europa. Com a turbulência errática de alguém que nunca devia ter sido eleito presidente dos Estados Unidos e que se arrisca a ser destituído um dia destes, Trump já está a ameaçar a continuidade da própria NATO ao exigir que os seus membros paguem aquilo que se comprometeram, ameaça que desagrada a muitos mas que agrada aos isolacionistas norte-americanos e, sobretudo, aos numerosos inimigos confessos e inconfessos da Aliança.

Se Theresa May não ficar sozinha por causa de todas as rupturas e interferências que tenho vindo a citar, isso ainda se vai ficar a dever ao «genuíno socialismo» de Corbyn, líder de um Partido Trabalhista que arriscava desaparecer da cena parlamentar há pouco mais de uma semana, caso se verifique uma espécie de empate eleitoral para o qual os terroristas deram o seu prestimoso contributo de incerteza e preocupação quanto ao futuro. A desordem internacional soma e segue. E o «Exército Islâmico» não é o último a soprar as brasas do incêndio.

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