Natal

Em defesa do consumismo

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Recomendo que ameacem os moralistas de algibeira de ficarem sem presentes de Natal se continuarem a maçar. Pelo menos enquanto não criarem as ovelhas cuja lã processarão para tricotar toda a sua roupa

Nesta altura do ano leem-se nas redes sociais descrições de estratégias de sobrevivência à época de Natal por cidadãos precavidos – aos presentes, à alegria dos que viveram carrancudos os últimos onze meses, às decorações de Natal, ao Last Christmas dos Wham, às festas de Natal da criançada, às reuniões familiares, às memórias difíceis, à solidão, ao que for. Já eu desenhei uma estratégia (que se resume a verter fel neste texto, pelo que desde já agradeço a vossa colaboração nas minhas rápidas melhoras) para sobreviver aos moralistas anti consumo.

Tivemos há pouco tempo essa criação demoníaca (dizem) que foi a black friday, e estamos em plena época de compra frenética de presentes de Natal (a substituição do Menino Jesus pelo Pai Natal, blablablá). É tão inevitável como as bebedeiras dos colegas nos jantares natalícios das empresas que apareçam os arautos da moralidade a pregar a necessidade de nos abstermos de consumir. Uns por razões religiosas (temos de reconhecer que há cristãos maçadores). Os outros também por razões religiosas (mas menos respeitáveis): são anti capitalistas.

Não retiro valor às críticas vinda da parte religiosa respeitável (os cristãos, onde me incluo) ao excessivo consumismo, à compensação através dos bens materiais por lacunas de outra espécie na nossa vida, à primazia do ter face ao ser, ao afogamento de uma festa religiosa numa orgia de compras. Mas nestas muito pertinentes questões, como em tudo na vida, há graus de bom senso. E algumas vezes vozes mais ascéticas cristãs são excessivamente hostis a fenómenos económicos que francamente fizeram mais bem que mal ao mundo.

Com os anticapitalistas sou menos caridosa. Desde a bendita black friday que tenho apanhado alguns vídeos assaz perspicazes sobre o consumismo do mundo desenvolvido. O meu preferido alterna imagens de multidões a entrar em lojas, passagens de modelos e gente com roupa e sapatos (provavelmente uma ofensa em si mesma; quem não se veste como Gandhi é um globalista explorador) com imagens de bairros de lata, campos a levarem pesticidas, camiões de caixa aberta apinhados de gente, uma mulher com a pele do rosto descolorada.

A mensagem implícita? É o consumismo do mundo rico que provoca todas estas atrocidades.

Como se sabe, se não fosse o consumismo desenfreado dos ricos explorando os países pobres, estes teriam sistemas de transportes públicos irrepreensíveis, limpos, com lugar sentado para todos os utentes, muito mais pontuais do que o metro de Lisboa. Os ataques com ácido às mulheres não ocorreriam. Todas as famílias viveriam, pelo menos, num T3 com ar condicionado. Os malvados desenvolvidos, que desataram a consumir sem parar, é que estragaram este paraíso que eram os países mais pobres antes da última vaga de globalização.

Agora um bocadinho de realidade. A China, desde as reformas económicas de Deng Xiaoping em 1978, que tornaram a China na tal ‘fábrica do mundo’, já tirou entre setecentos e oitocentos milhões de chineses da pobreza. A taxa de pobreza extrema (atualmente menos de 1,90USD/dia) caiu de 84% em 1981 para 15,9% em 2005; anda agora na casa dos 10%. Entre 1994 e 2012, cento e trinta e três milhões de indianos saíram da extrema pobreza. Nas duas décadas entre 1990 e 2010, mil milhões de pessoas saíram da pobreza. Repito: mil milhões de pessoas pelo mundo. Nove zeros: 1.000.000.000 de pessoas.

Não vejo bem como este resultado maravilhoso pudesse ter sido obtido sem a vontade e a disponibilidade dos países mais ricos para comprarem roupa, gadgets eletrónicos, candeeiros e milhares de outros bens produzidos nos países mais pobres. Entre a perdição moral materialista do abonado europeu (ou americano) e o rendimento suficiente para uma família vietnamita alimentar os seus filhos, preocupo-me mais com a última.

Mas deixemos as estatísticas, que os números estão muito longe de ilustrar a totalidade da realidade. Na China, durante o Grande Salto em Frente era comum vender os filhos por incapacidade de os alimentar. Esperava-os uma vida de servidão, maus tratos e, no caso das meninas, violações. Ainda hoje, nas zonas felizes e afortunadas que escaparam à industrialização, é comum os homens venderem o seu sangue para ganharem mais uns tostões. Há por cá uma tradução desse romancista de mão cheia que é Yu Hua com título Crónica de Um Vendedor De Sangue; podem ler e ter ideia da atividade; ou vejam vídeos gráficos no youtube. Como nestas felizes partes não industrializadas não se gastam recursos na higiene médica (nem entendo a razão), a maioria desta gente pobre que vende sangue termina infetada com sida (e sem acesso a tratamento). Muito melhor que trabalhar intensamente para vestir as dondocas anglo-saxónicas, não é?

No filme Platform, de Jia Zhangke, há uma cena de uma dureza tremenda. Uma personagem vai tornar-se mineiro na China dos anos 80 (numa empresa pública, claro). Ao ser-lhe lido o contrato (ele é analfabeto) o funcionário estatal diz-lhe que ninguém será responsabilizado por qualquer acidente laboral, nem por problemas de saúde decorrentes de acidentes ou da atividade mineira, zero indemnizações e, se morrer, a empresa nada terá a ver com o assunto. Estas condições de trabalho não são ficção, não são causadas pelo consumismo do mundo desenvolvido e o crescimento económico até as atenua. E sim, simpatizo com escrutínio das condições de trabalho, denúncias de trabalho infantil e outras que tais.

Em todo o caso, recomendo que ameacem estes moralistas de algibeira de ficarem sem presentes de Natal se continuarem a maçar. Pelo menos enquanto não criarem as ovelhas cuja lã processarão para tricotar toda a sua roupa (com agulhas de madeira artesanais). Ou comunicarem de outra forma que não sinais de fogo ou usando pombos-correio. (Seria um descanso.)

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