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Democracia

Entre Santana e Sócrates: duas culturas políticas

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O contraste entre o modo como Jorge Sampaio tratou Santana Lopes e Cavaco Silva tratou José Sócrates dá-nos a diferença entre uma cultura de confronto e uma cultura de compromisso.

Depois das “quintas-feiras” de Cavaco Silva, a “biografia autorizada” de Jorge Sampaio manteve-nos a falar do passado recente da política portuguesa. Já muita gente notou a sem-cerimónia com que Sampaio tratou Santana Lopes em 2004. Mas para apreciar o seu significado, há que lembrar o cuidado com que Cavaco Silva precisou de lidar com José Sócrates entre 2006 e 2011. Este contraste pode talvez ensinar-nos alguma coisa sobre o regime.

Jorge Sampaio aceitou Santana Lopes apenas provisoriamente, e sob vigilância. A certa altura, “fartou-se” dele, e dissolveu a Assembleia da República. Mas o presidente Cavaco Silva, a quem Sócrates deu todos os motivos para desconfiar da sua lealdade e das suas políticas, teve de ser muito mais paciente. Só questão de feitio?

Talvez uma pista para compreender a diferença esteja na atitude dos primeiros ministros. Santana Lopes também gosta de teorias da conspiração. Mas em Novembro de 2004, tomou esta decisão: não hostilizar o presidente da república, mesmo depois de o presidente, segundo ele, o ter enganado. Ainda hoje trata Jorge Sampaio com deferência. José Sócrates, pelo contrário, iniciou muito cedo uma guerrilha sem tréguas contra Cavaco Silva, tentando por todos os meios atingi-lo na sua honorabilidade. Hoje, insulta-o sem escrúpulos. Não é difícil imaginar como teria reagido, se Cavaco Silva lhe tivesse feito o que Sampaio fez a Santana, com uma maioria absoluta na Assembleia da República. Teria sido o fim do mundo.

Santana, como diz no seu livro Percepções e Realidades, tentou interessar Sampaio na governação, reconheceu-lhe um papel. Mesmo quando despedido, preocupou-se em não causar uma ruptura, decidido a respeitar, apesar de não ser respeitado. José Sócrates, pelo contrário, encarou Cavaco Silva como um inimigo. Desde cedo se preparou para o confronto, determinado a limitar a influência do presidente.

Podem dizer-me: a situação não era a mesma, Sócrates tinha ganho umas eleições, Santana não. Mas em 2015, António Costa não precisou de vencer eleições. Sem dúvida que as circunstâncias e os personagens são diferentes num momento e no outro (Santana é hoje o pacífico provedor da Misericórdia de Lisboa, Sócrates o principal arguido do mais inquietante processo do regime). Mas as culturas políticas de um lado e do outro também não são iguais.

A direita democrática parece muito mais disponível do que a esquerda para aceitar as regras do jogo. É “institucional” e integradora. Os dirigentes do PS, pelo contrário, dão ideia de disputar o poder com muito mais à-vontade, crueza e exclusivismo. A uma cultura de compromisso à direita, opõe-se uma cultura de confronto à esquerda.

Em 2015, quando Cavaco Silva nomeou António Costa primeiro-ministro por ter uma maioria no parlamento, o líder do PSD aceitou e calou os que, à direita, contestavam a “legitimidade” de um governo de derrotados nas eleições; em 2004, quando Sampaio, um presidente de esquerda, nomeou Santana Lopes, que tinha uma maioria na Assembleia da República, o líder do PS demitiu-se em protesto. Percebe-se talvez melhor Sampaio se o revirmos sob a pressão implacável dos seus correligionários.

À direita, vive-me muito em cuidados com o PS. Em 2013, o presidente Cavaco Silva procurou associar o PS à governação, em troca de eleições antecipadas. Hoje, a preocupação de alguma direita é dar a António Costa condições para se desligar do PCP e do BE — se necessário, sacrificando o líder do PSD. É verdade que podem ser citadas razões circunstanciais. Mas na direcção do PS, nunca há reciprocidade para tanta solicitude.

É costume falar do sentido de privilégio adquirido pelas esquerdas durante a formação do regime. Mas há outra coisa. O PS não é um partido como o PCP e o BE, para quem a “rua” vale mais do que o voto. Mas muitos dos seus dirigentes nunca renegaram a velha cultura revolucionária jacobina, pouco presa a “formalidades”, nem se isolaram da esquerda radical. Nunca se coíbem de ameaçar com rupturas. Qualquer solução que não lhes agrade implica, assim, custos elevados para a estabilidade política.

É uma posição com alguns riscos, mas tem também com algumas vantagens: um Santana de esquerda nunca teria sido “dissolvido” por um Sampaio de direita, por mais “farto” que o presidente estivesse, porque ninguém saberia até onde é que um Santana de esquerda poderia ir.

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