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Forever young

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Não há dia sem que o discurso dos eternos jovens nos perturbe. Os 30 são os novos 20, os 40 os novos 30, os 50 os novos 40. Só a minha avó não tem o privilégio de os 100 serem os novos 90.

Embora façam parte do ofício, desconfio dos adjectivos. Demasiadas vezes fogem à essência das coisas. São excesso em relação ao que é puro. Em especial quando os desbaratamos, cravados nas palavras ao acaso. Têm o efeito de parecerem belos, pouco mais. Crescem na maneira comum de falar, de expor as coisas, e a certa altura deixamos de nos entender.

Os que mais me incomodam são aqueles que vêm às costas da idade. Jovem. Tomemos como exemplo 25 anos. Os 25 anos que hoje faço. Caminho para fora de jovem, e é normal e bom que isso aconteça. Aliás, é inevitável. Mas em 25 anos nasce e morre um burro; fazem-se filhos e livros, mais livros do que filhos; ao ritmo de passeio daríamos pelo menos uma volta ao mundo, isto se não parássemos num sítio bonito; e a oliveira de Santa Iria da Azóia, indiferente ao caminho dos anos, deixa cair um ramo. A lista continua, e poderia não acabar. Mas em 25 anos, desgraçadamente, não conseguimos sair da Terra do Nunca.

Sim, pouca vida, talvez não chegue para a saber de cor, mas já é demasiada para caber num único adjectivo. (Nem imagino o que sentirão os que chegaram ao outro lado da idade, quando lhes atiram «idoso» para cima.)

Mais do que jovens, agora somos adolescentes até muito tarde. Explico-me mal. Agora somos vistos como adolescentes até muito tarde. Tarde de mais. Será mau uso do adjectivo ou mau uso da realidade? Não estou certo de que o problema esteja na linguagem, apesar de esta abranger tudo. Talvez seja reflexo de uma sociedade envelhecida e infantilizada. Os dois não jogam bem. Ou até de uma sociedade esquecida.

Vemos a juventude como bálsamo, oásis. Paraíso perdido. Esquecemo-nos de que a vida tem durezas em qualquer idade e que a sabedoria nem sempre vem com os anos. Ao mesmo tempo, desconfiamos da juventude. Achamo-la saída da Casa dos Segredos. Confundimos jovens com imbecis. Com incapazes. A imaturidade torna-se excesso de zelo. É este o mal de falhar os adjectivos, de forçá-los a um estereótipo.

E depois dá nisto: Peter Pans de 35, 40, 45. A dada altura deixa de fazer sentido usar adjectivos. Nós próprios, do lado de cá, caímos no ridículo de nos acharmos de facto adolescentes, embora tenhamos 20, 25, 30 anos. Retardamos a maioridade, pensamo-nos pequenos, delegamos, entregamos esse bem na mão dos outros. Deixamo-nos levar. Acreditamos mesmo que continuamos teenagers. Não há dia sem que o discurso dos eternos jovens nos perturbe. Os 30 são os novos 20, os 40 os novos 30, os 50 os novos 40. Só a minha avó não tem o privilégio de os 100 serem os novos 90.

A vida é tão diversa que não permite reduções. Com certeza teremos menos experiência, mas o ser humano, na sua estrutura, a determinado momento (quando ao certo não sei, certamente mais cedo do que se supõe) ultrapassa as limitações, e também os privilégios, do adjectivo jovem. Acontece que esse limiar é mais e mais uma bola, e nós crianças atrás dela. Chegamos perto, damos-lhe um pontapé e a ela foge-nos. Menorizamo-nos quando nos deixamos fechar num adjectivo. Prefiro a liberdade.

Depois há ser-se jovem de outra forma. Essa esconde-se do adjectivo. É a única que vale a pena. Claro que quero ser jovem para sempre. Felizmente isso não depende da idade.

Escritor, Prémio Leya 2014

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