Diplomacia

G20: Caricatura de uma cimeira

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A qualidade dos dirigentes mundiais apenas faz aumentar o pessimismo quanto ao futuro. Trump é um perigo para a segurança mundial, mas também não se espere que Putin venha salvar a Europa e o mundo.

Alguns dos mais influentes líderes mundiais parecem querer transformar reuniões supostamente importantes em meras caricaturas e, se a moda pega, até se farão substituir por familiares, como nos tempos em que a monarquia era um regime universal.

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vem fazendo esforços cada vez maiores para ridicularizar a política externa. Desta vez, quando se deixou substituir pela filha Ivanka numa das sessões da cimeira dos G 20.

Sabemos que Ivanka, ao contrário do pai, está mais inclinada para questões ambientais e não duvido que esteja mais preparada do que ele para abordar essas questões, mas que cargo ocupa ela na administração norte-americana para substituir Donald Trump numa reunião tão importante?

Angela Merkel, chanceler alemã e organizadora da cimeira, não viu nada de especial nisso, pois Ivanka fazia parte da delegação americana, mas esta explicação convenceu muito poucos. O politicamente correcto parece não ter cura, o principal é que tudo pareça decorrer bem.

Aliás, a família Trump andou muito preocupada e seguiu de perto as pisadas do Presidente também nos bastidores da Cimeira de Hamburgo. Segundo Rex Tillerson, secretário de Estado norte-americano, revelou que Melania Trump, preocupada com a cavaqueira demasiadamente longa entre o marido e Vladimir Putin, Presidente da Rússia, decidiu levantar a cortina para e aconselhar o marido a pôr fim ao encontro, mas ele estava tão envolvido no encontro “formidável” (adjectivo utilizado por Donald Trump) que não deu ouvidos à esposa.

Isto até poderiam parecer pormenores de pouca importância, mas, infelizmente, são sinais de que o dirigente do país mais poderoso do mundo despreza as mais elementares regras do protocolo e da diplomacia. Pelos vistos, parece não as conhecer.

Se a moda pega, não nos devemos espantar que, em próximas cimeiras, os chefes de Estado de outros países possam levar consigo a família como assessores ou para os substituir na discussão de importantes problemas importantes de que não gostem. Trump não lhe agrada ver-se “incompreendido” pelos restantes 19 parceiros quanto ao Acordo de Paris e faz-se substituir pela filha. Um passo importante para transformar a diplomacia internacional num teatro do absurdo.

A julgar pelo que se sabe dos parcos resultados do encontro entre Putin e Trump, este não justifica a substituição do presidente norte-americano pela filha na sessão sobre os problemas do clima, mas dá razão à preocupação de Melania. Tanto mais se tivermos em conta que já começaram as conversas, com declarações e desmentidos de ambas as partes, sobre o que disseram ou não disseram os dirigentes da Rússia e dos Estados Unidos sobre a ingerência russa na política americana ou sobre outros temas como a presença de tropas russas nos territórios ocupados da Ucrânia.

A promessa de novos encontros é importante e a obtenção de um cessar de fogo numa pequena parcela de território sírio também, mas estes esses resultados são muito poucos se se tiver em conta a gravidade da situação em várias regiões do mundo.

Além disso, a qualidade dos dirigentes mundiais apenas faz aumentar o pessimismo quanto ao futuro. Trump é um perigo para a segurança mundial, mas também não se espere que Putin venha salvar a Europa e o mundo.

P.S. A actuação da polícia alemã deixou muito a desejar, permitindo que extremistas, a pretexto dos protestos contra a globalização, transformassem as ruas dessa cidade num autêntico campo de batalha, onde muitos dos manifestantes tiveram a possibilidade de queimar e pilhar lojas. Um claro sinal de fraqueza das autoridades com consequências imprevisíveis.

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