Crónica

Meus pais e seus aparelhos eletrônicos

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Parece que todos os aparelhos eletrônicos que os meus pais compram foram vítimas de algum tipo de maldição que tornou seu funcionamento algo absolutamente anormal.

Conheço alguns relacionamentos complicados. Outros que são mesmo turbulentos. Também conheço alguns relacionamentos confusos. Minha amiga que namora um físico bipolar é um bom exemplo. Meu vizinho que casou-se com uma russa surda também. Assim como meu amigo que apaixonou-se pela segunda sogra do seu próprio pai. Enfim, relações verdadeiramente complexas. Mas nenhuma delas pode ser comparada com o relacionamento dos meus pais com seus aparelhos eletrônicos.

Eu não sei bem o que acontece. Parece que todos os aparelhos eletrônicos que eles compram foram vítimas de algum tipo de maldição que tornou seu funcionamento algo absolutamente anormal. Existe também a remota possibilidade de serem meus pais que não sabem manusear os equipamentos, mas, eu, como boa filha, sempre culparei a Apple, a Samsung, a Toshiba, a LG e a Sony, nunca eles.

Frequentemente, logo pela manhã, recebo uma ligação de um deles com queixas bastante peculiares como “Ru, meu computador comeu todos meus e-mails”. Eu visto, então, minha máscara de profissional de tecnologia da informação, apesar da minha alma de advogada, e inicio o processo de análise “Onde você está tentando ver os e-mails? No computador? Tem certeza de que você está na caixa de entrada? Não? Você está na caixa de mensagens enviadas, mãezinha. É só voltar para a caixa de entrada, os e-mails estarão lá, o computador não comeu nada, juro”.

Outra coisa que costuma gerar problema são os carregadores, cabos e pen drives. Ouço, com alguma frequência a pergunta “Onde é que se ‘espeta’ isso?”. As entradas USB nunca me pareceram algo tão complexo, mas acho que elas de fato fogem dos meus pais ou se camuflam nas laterais do notebook, apenas para prejudicá-los. Essas entradas USB são mesmo umas canalhas.

No que tange às senhas, nada pode ser pior. A pergunta “Ru, qual o meu ID Apple?” já me foi feita pelo meu pai cerca de três vezes mais do que a pergunta “A que horas você volta?”. A senha do e-mail e do Facebook também costuma ser alvo de questionamento. E apesar do nome da rede de wi-fi da casa dos meus pais ser a mesma há uns dez anos e a senha ser o primeiro nome da minha mãe, os problemas seguem surgindo semanalmente.

Fenômenos estranhos também ocorrem no Whatsapp. Eles desaparecem dos grupos, os grupos desaparecem do telefone deles. Mensagens estranhas são enviadas no grupo errado (“Diz pra Claudia que os exames de urina já chegaram”) e coisas como “Oi, você tá chegando?” aparecem num grupo no qual estamos eu, meus pais, meus irmãos, meu marido e meus cunhados. “Você quem, mãe?”, perguntamos calmamente.

Os dramas com as impressoras nem merecem ser narrados porque, como eu mesma já escrevi, as impressoras não funcionam com ninguém. Essa foi uma maldição global, não apenas contra meus pais. Nem com ajuda dos técnicos elas costumam se comportar de forma satisfatória.

Mas, sabe? Entre cumprir os prazos do escritório, desenvolver a tese de doutorado, escrever os textos dos jornais e revisar meu livro que vai ser lançado em breve, eu honestamente adoro fazer essas horas extras de auxiliar de informática para eles. Porque, na verdade, nada pode ser mais gratificante do que ajudá-los a aprender a lidar com o computador, com o tablet e com o scanner, porque não é difícil lembrar que eles gastaram anos e anos, com a maior paciência do mundo, a me ensinar a utilizar objetos complexos e desafiantes como uma colher, um rolo de papel higiênico e uma escova de dentes.

“Liguem sempre que quiserem”, eu resmungo, mas adoro.

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