Web Summit

Nils Bohlin vs Bill Gates

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568

Os políticos portugueses têm que transformar 3 dias de exuberância em 300 dias de inteligência e passarem a amar as empresas de todos os tamanhos tal como se apaixonam pelas que ainda estão a nascer.

Começo por alertar os mais novos que as pessoas da minha geração achavam plausível que uma explosão nuclear numa base lunar em 1999 afastaria a lua da sua órbita e faria a população da base ir lutar com extraterrestres, que pareciam pratos de Polvo à Lagareiro, com as suas armas de laser e naves espaciais. Chegados que estamos à beira de 2020, meus jovens leitores, há alguma desilusão e ceticismo face àqueles que nos tentam mostrar o que será o futuro, por plausível que possa parecer.

Daí as pessoas da minha geração olharem com algum desdém para o Web Summit. Ao contrário daqueles que acham o evento uma “Ovibeja com internet” (descrição corrida nas redes sociais), e mesmo ignorando o enorme valor económico associado, tenho a opinião que fazer uma festa com, e para, gente interessante é uma excelente envolvente para mostrar ideias e inovação. Pronto, levar o antigo campeão olímpico do decatlo, Bruce Jenner, transformado em mulher, discursar no evento é uma estranha forma de inovação, mas mostra a característica mais importante de uma sociedade economicamente evoluída: a diversidade. E, marked-to-market, os números do evento falam por si. Por isso vou fazer a mesma coisa, aproveitando que o evento está ainda na memória, para falar de inovação.

Inovação tem muito pouco a ver com “startuping” ou empreendedorismo dos mais novos. Por vezes, poucas, as coisas estão ligadas. Há grandes ideias e produtos maravilhosos saídos de garagens ou de um par de cabeças brilhantes. Todos olhamos para a Microsoft, a Apple, a Google, a Amazon, a Alibaba, o Facebook como as mais bem-sucedidas empresas a nível global dos últimos 30 anos. Todas ideias nascidas nos bancos das universidades, ou numa garagem, por miúdos entusiastas de tecnologia. Mas façamos o exercício inverso. Nestes 30 anos, quantas empresas nascidas do desenvolvimento de um sistema operativo tiveram o sucesso da Microsoft? Apenas William Gates teve a ideia e nunca mais ninguém se lembrou de fazer o mesmo? Obviamente que não. Centenas ou milhares tiveram ideias semelhantes sem qualquer sucesso e que caíram no enorme e sobrelotado cemitério das boas ideias que iam ser o futuro.

Só muito raramente a inovação é um processo daqueles que as festas de “startuping” tentam ampliar. Na esmagadora maioria das vezes, a inovação é produto da cabeça de uma equipa de pessoas que trabalha em empresas tão grandes, que a sua evolução parece ser navegada como um petroleiro. É muito difícil de virar, quase impossível de travar, mas um pequeno toque no leme significa a diferença entre o sucesso e a tragédia. Daí ter-me lembrado de Nils Bohlin. Nils não criou um computador que serve de telefone e que cabe num bolso de um casaco, nem desenvolveu um sistema de leitura de dados de um disco magnético. Ele foi o engenheiro sueco que resolveu prender uma correia em três pontos da carroçaria de um automóvel para que o condutor ficasse preso ao assento em caso de acidente. Em 1959, o fabricante de automóveis sueco, Volvo, meteu na rua o primeiro modelo de automóvel de série equipado com cintos de segurança. O número de pessoas que sobreviveu a um acidente, por causa desta invenção, estará na ordem das centenas de milhar por ano em todo o mundo. Mas, curiosamente, a página da wikipedia dedicada a Bohlin deve ser a que tem menos palavras por vida salva em toda a plataforma enciclopédica.

Para além da imagem de segurança que a Volvo criou com a invenção de Bohlin, hoje em dia ninguém escolhe o carro que compra por causa dos cintos. Na verdade, o carro anda perfeitamente sem eles. E sem sensores de estacionamento, sem GPS, sem rádio, etc. E a história de Bohlin traz-me a um conhecido de uma fábrica alemã de automóveis, um engenheiro que se dedica a um componente particularmente importante: a cobertura da mala. Sim, aquela espécie de tecido que puxamos para esconder o que guardamos na mala dos automóveis de 5 portas. Há uns anos, soube que estavam a fazer um jantar entre a equipa porque tinham conseguido reduzir a tolerância de uma das peças numas décimas de milímetro e isso ia contribuir para a redução geral do ruído do automóvel. Werner, de seu nome, não irá constar da lista dos maiores inovadores da atualidade por causa do feito da sua equipa. Mas o sucesso dos automóveis da sua empresa e o facto da industria alemã dominar mais de 80% do mercado de automóveis naquela franja, é devido aos Werners todos que foram inovando para melhorar o produto final, tirando décimas de milímetro de folga.

E se os exemplos modestos podem tornar a ideia menos sexy, voltemos à Microsoft, que trouxe ao Web Summit o seu presidente e chief legal office, Brad Smith. Quem olha para esta empresa hoje, não vai reconhecer aquela que nas últimas décadas colocava em risco a economia mundial devido ao seu domínio quase absoluto do mercado. Não porque seja menos importante, mas porque se reinventou completamente de uma empresa que vendia software para uma empresa que vende serviço. Quando o mundo percebeu que já não precisava de software, precisava do serviço, a empresa estava lá. Dificilmente encontraríamos um “petroleiro” maior que este, mas a verdade é que centenas de inovadores cujos nomes não iremos conhecer, foram melhorando aos poucos os produtos da empresa. A apresentação de Smith sobre segurança de informação e ciberdefesa, que não gerou grande excitação entre os media, talvez por não fazer parte dos empreendedores de ideias mirabolantes, era em si mesma um enorme monumento aos verdadeiros inovadores deste mundo. Perante os desafios das ameaças à segurança de todos, com a democratização e estatização do terrorismo cibernético, os engenheiros da Microsoft, da Amazon, da Google, responderam com o seu espírito inovador. Não com uma ideia mirabolante tirada de um livro de ficção cientifica, mas usando as ferramentas do presente, melhorando aquilo que existe e, quase sem o cidadão comum perceber, levantaram as defesas do mundo livre num campo de batalha muito mais vasto que aquele que os nossos pais conheceram.

Os Nils e os Werners, que não montam um circo mediático em torno de uma ideia falsamente disruptiva como “teste de gravidez em bambu”, são quem, de facto, geram emprego, salvam vidas e fazem o mundo avançar. Os casos em que a inovação nasce numa garagem para ser uma realidade verdadeiramente relevante são tão raros, tão raros, que isso faz com que os velhos mais experimentados como eu vejam estes eventos com aquele misto de gozo e admiração. E somos tão céticos relativamente aos gurus do “o futuro vai ser assim”, que gosto de usar o lema “se eu conheço e não é presente, então futuro não será de certeza”.

É uma injustiça dar-se valor a um sujeito que faz uma app para divórcios e, ao mesmo tempo, se ignora o sujeito que fez o cinto de segurança. Mas é uma questão de mercado e de oportunidade. A verdade é que o cinto de segurança pode ter parecido uma ideia tão estúpida em 1958 como uma app para divórcios parece em 2017. Os mercados são assim, feitos de injustiças. Mas quando falamos dos nossos impostos e do comportamento dos nossos governantes, a coisa muda de figura. Ver os políticos portugueses num frenesim em torno dos jovens empreendedores é o que realmente custa. Nenhum dos países ricos do mundo é rico porque apoiou carinhosamente uns miúdos com umas ideias giras. São ricos porque deram condições à empresa do Nils e à empresa do Werner para poderem experimentar coisas quase insignificantes que trouxeram aos seus produtos uma qualidade superior. A Microsoft não é um potentado multinacional porque um miúdo feio de óculos conseguiu escrever dados num disco. É-o porque milhares de engenheiros conseguiram ir daí até aos serviços em nuvem que hoje oferecem, mudando pequenas coisas, em pequenos dias. As condições em que os miúdos geniais têm sucesso não são geradas porque há um excelente ambiente para startups, são geradas porque há um excelente ambiente para as empresas de todos os tamanhos.

No fundo, os políticos portugueses estão lá, mas ainda têm uma questão de escala a resolver. Têm que transformar os 3 dias de exuberância em 300 dias de inteligência e passarem a amar as empresas de todos os tamanhos da forma como se apaixonam por aquelas que ainda estão a nascer.

PhD em Física, Co-Fundador e Partner da Closer

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