Crónica

O culto do inexprimível

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Quem acha que uma coisa é inexprimível sente-se também normalmente inclinado a exprimi-lo. Por isso, poucos de nós se contentam em dizer que não há nada a dizer sobre o cheiro do pão.

“O horror daquele momento,” observou o Rei, “nunca, nunca o irei esquecer.” A Rainha respondeu: “Vais, vais – se não tomares nota.” Já todos fomos rainha para reis, e rei para rainhas. Gostamos de lembrar aos outros que aquilo que é memorável não pode ser esquecido; e que por isso não precisa de ser dito. Mas também gostamos de sublinhar que tudo pode ser dito; que é sempre possível tomar notas, descrever acontecimentos, e gravar memorandos.

Só aparentemente estas duas posições são simétricas. Quem sublinha que é possível dizer tudo, descrever tudo e, com ajudas ou sem elas, lembrar-se de tudo, ao ser confrontado com deficiências nas suas descrições, ou das suas lembranças, vai alegar problemas técnicos. Dirá que não se lembrou das palavras apropriadas, ou que não tinha um lápis à mão. Queixar-se-á de motivos alheios à sua vontade, e sugerirá que se essas deficiências técnicas não tivessem sobrevindo lhe teria sido possível dizer tudo.

Poderia parecer que a pessoa que pelo contrário nos recorda de que existem coisas que não podem ser expressas está numa situação mais simples. Nunca precisa de alegar razões técnicas ou motivos alheios à sua vontade. Acha que certos acontecimentos, certas memórias, certas relações são por natureza inexprimíveis: nem um super-lápis os conseguiria retratar adequadamente; e nem uma sub-memória se conseguiria esquecer deles. Exemplos frequentes de situações inexprimíveis são: o cheiro salutar e honesto a pão no forno, a origem do universo, e o facto de a soma do quadrado dos catetos ser igual ao quadrado da hipotenusa – mesmo quando o triângulo rectângulo é enorme.

No entanto, quem acha que uma coisa é inexprimível sente-se também normalmente inclinado a exprimi-lo. Poucos de nós se contentam em dizer que não há nada a dizer sobre o cheiro do pão; dizer que não há nada a dizer é uma atitude pouco promissora; não encoraja mais conversas. Verifica-se talvez por isso a inclinação para falar daquilo que achamos que não pode ser dito; gostamos de acrescentar às nossas opiniões sobre a semelhança entre o que se passa num triângulo grande e nos seus primos mais pequenos uma cláusula sobre coincidências inexprimíveis.

Esses acrescentos são normalmente feitos num tom diferente, como se concluíssemos um jogo de futebol marcando um golo com a mão; ou uma demonstração de geometria a cantar uma cantiga. Para falar do inexprimível mudamos de modalidade. Imagina-se às vezes que certos gestos, frases obscuras, e a música, ou seja, a arte, servem para fazer coisas que não é possível fazer por meios normais. No entanto, como observou outro filósofo, “se não podemos dizer uma coisa, não a podemos dizer; e se não a podemos dizer também não a conseguimos assobiar.” A poesia e a música não são um resultado de termos desistido da fisiologia ou da geometria; o andebol não é o resultado de termos desistido do futebol.

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