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Assalto em Tancos

O iogurte de António Costa estava fora de prazo

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Costa voltou de férias para "controlar a crise". Na verdade, para nos tomar a todos por parvos. E para humilhar ainda mais as Forças Armadas. Ou alguém acha que o furto de Tancos afinal não foi grave?

Confesso que só encontro uma explicação. Ou uma hipótese de explicação. Alguns dos iogurtes que António Costa tomou nas suas férias em Maiorca estava fora de prazo. E o calor da estância espanhola fê-lo azedar, perturbando o raciocínio do nosso primeiro-ministro.

É que não encontro outra explicação para as inauditas declarações desta terça-feira, depois da reunião com os chefes militares. Mesmo alguém habituado a enganar tolos com papas e bolos teria mais cuidado.

De facto, depois de ministros e chefes militares nos terem andado a dizer, durante duas semanas, que o assalto aos paióis de Tancos era “muito grave”, eis que o “incurável optimista” nos vem garantir que, “com grande probabilidade, este acontecimento não terá qualquer impacto no risco da segurança interna”. Isto não é optimismo – é tolice.

Mais: depois de as autoridades portuguesas terem avisado as suas congéneres europeias (foi por Espanha que conhecemos a lista do material roubado), depois de o Ministério Público ter aberto um inquérito onde refere explicitamente “suspeitas da prática dos crimes de associação criminosa, tráfico de armas internacional e terrorismo internacional”, eis que o bonacheirão que nos governa vem anunciar que não há “associação a qualquer tipo de atividade terrorista nacional ou internacional”. Isto não é a calma própria da sabedoria, é o desnorte próprio de quem nada sabe.

Mas o disparate não ficou por aqui. O senhor general Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas – ou seja, o homem que está no topo da hierarquia militar – veio informar-nos que “os lança-granadas foguetes que foram roubados provavelmente não terão possibilidade de funcionar com eficácia, porque estavam selecionados para serem abatidos”. Confesso que não sei se hei-de rir. Se hei-de chorar. Nestas duas semanas, o chefe do Exército esteve no Parlamento a dar explicações aos deputados e deu uma entrevista na televisão; o ministro da Defesa também esteve no Parlamento, também deu uma entrevista e desmultiplicou-se em declarações públicas; o ministro dos Negócios Estrangeiros falou inúmeras vezes em nome do primeiro-ministo; o Presidente da República promoveu uma deslocação a Tancos e uma reunião com as chefias militares em Belém; e tudo isto sucedeu sem que ninguém se tivesse lembrado de conferir o prazo de validade dos lança-granadas. Não sei se estes vêm com rótulo, como os putativos iogurtes fora de prazo de Maiorca, mas se traziam etiqueta as letras deviam ser muito pequeninas pois ninguém deu por elas.

Estas declarações do CEMGFA são tão desconcertantes que só temos pena que não tenha acrescentado um agradecimento aos ladrões, por nos pouparem o dinheiro e o trabalho de enviar para abate aquele material. Ou será que o senhor CEMGFA dá o pagamento desse serviço de higiene militar por quite uma vez que os ladrões levaram 45 quilos de explosivos altamente potentes e esses, julgo, ainda não foram declarados fora de prazo?

Mas a coisa não ficou por aqui. Em poucos dias a “humilhação” que o senhor CEME disse ter vivido ao tomar conhecimento do furto de Tancos passou, nas palavras do senhor CEMGFA, a um mero “soco no estômago”, tão inócuo que “os chefes militares levantaram logo a cabeça”. Imagino que seja por isso que vários deles se demitiram e pediram a passagem à reserva. Ou será antes que foram esses militares que quiseram manter a cabeça levantada em vez de dobrar a cerviz, e por isso bateram com a porta?

Depois de ouvir o CEMGFA percebem-se melhor as palavras de um dos generais demissionários, Antunes Calçada, que era o Comandante de Pessoal do Exército, quando este se referiu aos que são “sabujo para cima e cão para baixo”. Assim como se percebe o facto de os demissionários terem invocado “uma quebra do vínculo sagrado entre comandantes e subordinados”.

Não duvido que exista esta percepção no seio das Forças Armadas. O que o senhor CEME fez no Parlamento foi dizer o necessário para proteger o ministro da Defesa. E o que agora o senhor CEMGFA veio fazer foi tratar de proteger o primeiro-ministro. Não é isto que se espera das Forças Armadas: não têm de proteger titulares de cargos políticos, não têm de fazer contorcionismos para protegerem governos. Não é isso que os portugueses esperam dos chefes militares, não é esse papel que a Constituição lhes reserva.

Mas quando temos à frente da Defesa alguém que tive o desprazer de conhecer bem quando presidiu à Entidade Reguladora da Comunicação Social, posto em que se especializou em todos os imagináveis contorcionismos para proteger as ingerências de José Sócrates nos jornais e nas televisões, assim como a forma como este limitou a liberdade de imprensa, não me surpreende que as artes próprias dos moluscos se tenham tornado moeda comum no todo da nossa instituição militar. Até porque é bom recordar que o actual CEME está onde está porque o anterior titular do cargo foi corrido por causa de um caso menor relativo ao Colégio Militar. E que lá continua mesmo depois da morte dos comandos e do roubo de Tancos. Se alguém o protege, alguém ele tem de proteger.

Infelizmente, toda esta miséria moral vem juntar-se à miséria moral que rodeia a demissão dos três secretários de Estado que aceitaram convites da GALP para irem a Paris ver a selecção. Miséria moral por serem poucos os que apoiam a determinação do Ministério Público em cumprir a lei – uma determinação que eu próprio já saudei –, serem imensos os que defendem “usos e costumes” que passam por aceitar aquele tipo de mordomias e favores, sem achar que há nisso qualquer ónus moral ou alguma criação de dependências, mesmo que informais (são mesmo raras a excepções a contrariar esta desfaçatez, pelo que se saúda a frontalidade de Miguel Poiares Maduro quando este se diz “ofendido”, como ex-ministro, por se achar normal a aceitação deste tipo de presentes).

E miséria moral por se perceber como em Portugal é possível estar sistematicamente embrulhado em casos duvidosos e ainda se reivindicar estatuto de intocabilidade. É que é isso que se passa com o mais notório dos secretários de Estado demissionários, Rocha Andrade, alguém que continua a achar lícito tudo o que fez – apesar de isso o inibir de seguir o contencioso do Estado com a GALP na frente fiscal, e que já vai em 240 milhões de euros. Ora, Rocha Andrade é o mesmo que, enquanto secretário de Estado de António Costa nos tempos em que este foi MAI, promoveu a compra de seis helicópteros de combate a incêndio Kamov, helicópteros esses que nunca desempenharam bem a sua missão, operação essa em que Rocha Andrade, de acordo com a apreciação do Tribunal de Contas, não acautelou “o interesse público”. Assim como é o mesmo que optou por renegociar o SIRESP com o consórcio liderado pela SLN apesar de existir uma proposta alternativa, uma renegociação em que não se tocou no essencial daquela PPP – a escandalosa margem de rentabilidade de 15% –, antes se tratou de cortar serviços e funcionalidades, algumas das quais poderiam ter evitado o colapso do sistema no fogo de Pedrógão Grande.

Em 2007, quando António Costa saiu do MAI para a câmara de Lisboa, Rocha Andrade ainda sonhou ser secretário de Estado da Defesa, mas na altura as altas patentes das Forças Armadas conseguiram travar a sua nomeação. Voltou com o governo da geringonça, como homem de confiança e amigo do primeiro-ministro. E ser amigo de Costa tem imenso valor, como já vimos com Lacerda Machado, agora na administração da TAP, como vimos com a ida do filho desse mesmo Lacerda Machado para técnico especialista da Secretaria de Estado da Internacionalização, aquela onde ainda está outro dos secretários de Estado do Galpgate, o mais discreto Jorge Costa Oliveira.

Diz o povo que uma mão lava a outra, e diz com propriedade, mas são casos como estes, figuras como estas, comportamentos como estes que corroem um regime. Por dentro.

A ironia, e a desgraça, de tudo isto é que, na verdade, mesmo fora de prazo os iogurtes (porventura como os lança-granadas) não ficam logo azedos. Pelo que é pouco provável que a minha explicação inicial seja verdadeira. O despautério da passada terça-feira não se deve a nenhum desarranjo intestinal do primeiro-ministro. É mesmo algo que está na sua natureza. E na natureza do país que atura isto tudo com um mero encolher de ombros.

Malditos usos e costumes.

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