Igreja Católica

O padre que “saiu do armário” e a pressão sobre o Sínodo

Autor
  • P. Miguel Almeida, sj
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Lá porque a comunicação social e pessoas como o padre Krzysztof Charamsa deste mundo pressionam numa direção, os bispos não podem simplesmente decidir na direção oposta só para afirmarem a sua isenção

Através de uma conferência de imprensa, ficámos a saber quem é o padre Krzysztof Charamsa. É polaco, tem 43 anos e é secretário da Comissão Teológica Internacional, membro da Congregação para a Doutrina da Fé e professor de teologia nas Universidades Pontifícias Gregoriana e Regina Apostolorum, em Roma. E tem um namorado com quem (con)vive há anos.

Até dar a conhecer ao mundo a sua situação de vida, o padre Krzysztof Charamsa tinha três opções. A primeira era continuar a viver a vida dupla que tem vivido. É uma opção dura, não só pelas responsabilidades públicas que tinha na Igreja, mas por ter que mentir a todos e ser infiel às promessas de ser celibatário que fez a Deus, nas mãos do bispo e diante de toda a Igreja, quando foi ordenado sacerdote – o que, acredito realmente, lhe causava grande sofrimento. A segunda opção era, ponderando todos os prós e contras, alterar a sua vida e voltar a viver em fidelidade à sua promessa de celibato, com o sofrimento e a alegria que tal opção inclui. A terceira foi a decisão adotada: abandonar o ministério sacerdotal e continuar a viver a sua relação afectiva como tem vivido nos últimos anos, mas agora de forma assumida e transparente.

Para o Vaticano, “apesar do respeito que merecem os factos e circunstâncias pessoais e a reflexão sobre eles”, a decisão do padre polaco foi uma escolha de grave irresponsabilidade, já que com este gesto pretende fazer uma “pressão inaceitável” sobre o Sínodo. Além do timing, a questão de fundo é que ele vive em contradição aberta com o que prometeu e com o que a Igreja ensina e pede sobre o celibato dos padres. E que ele já sabia quando foi ordenado padre. É por isso que “certamente não poderá continuar a desempenhar as suas funções da Congregação para a Doutrina da Fé e nas universidades pontifícias”, refere o comunicado do Porta-Voz do Vaticano.

Em lado nenhum, a não ser nos títulos que vendem gato por lebre, se diz que Charamsa é condenado por ser homossexual. Não se fala da orientação sexual de ninguém. Apenas se afirma que, vivendo assim, como ele próprio sabe, não pode continuar a exercer as suas funções. É ele que sai, muito antes do Vaticano se pronunciar sobre a sua saída.

Se o Pe. Krzysztof Charamsa “saísse do armário do celibato” e surgisse na conferência de imprensa com a sua “companheira”, a posição da Igreja seria exatamente a mesma. Sem desvalorizar o facto de ter abandonado a duplicidade de vida, e provavelmente até de agir com sentido de coerência e de dar a cara pelo que acredita, o que ele fez foi como um marido e pai de família que chega a casa com a amante afirmando que finalmente assume a sua relação extraconjugal. Naturalmente, a consequência é fazer as malas e sair de casa.

Isto dito, passemos do episódio insólito ao mais interessante. É óbvio que há a intenção de pressionar os Padres Sinodais a alterarem a atitude da Igreja para com as pessoas homossexuais.

É verdade que, apesar do esforço em mudar o discurso, ainda se vive uma homofobia grande, não só na Igreja, mas na sociedade em geral. A par de lobbies de todos os tipos, claro! Teologicamente, há questões difíceis de dirimir, como por exemplo a afirmação da castidade celibatária como vocação (com o que implica de dom e opção) e a proposta de que os homossexuais devam viver castamente. Mas, entre a homofobia e os lobbies, haverá realmente possibilidade de mudar algo na atitude pastoral da Igreja nesta matéria? O que querem os Padres Sinodais dizer quando afirmam desejarem que se dedique “uma atenção específica ao acompanhamento das famílias em que vivam pessoas com tendência homossexual bem como a essas mesmas pessoas” (Instrumentum Laboris, 131)?

Muitos bispos têm afirmado serem alvo de constantes pressões vindas de fora da aula sinodal. E reafirmam que, apesar destas “inaceitáveis pressões”, não cederão. E é bom que assim seja. Mas há outro tipo de pressão na qual os bispos também não podem cair. A pressão por reação. Lá porque a comunicação social e pessoas como o padre Krzysztof Charamsa deste mundo pressionam numa direção, os bispos não podem simplesmente decidir na direção oposta só para afirmarem a sua isenção. Nesta ou noutras matérias. Como eles bem sabem, a vida é bem mais complexa do que o preto-e-branco. E o que afirmam na aula sinodal tem consequências para a Igreja do mundo inteiro.

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