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Crónica

O pátio

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No PREC, o pátio foi naturalmente poiso de revolucionários e de contra-revolucionários. Em igual grau, peso e estatuto. Uns iam para uma casa, outros, para outra.

 

1. Agora há um piloto no pátio. Não é todos os dias que se acorda — ou adormece — com um jovem garbosamente fardado, saindo portão fora e o imaginamos, duas horas depois, voando qual pássaro prateado, pelos céus. Juntou-se ao extraordinário coro de personagens que por aqui habitam e se eu disser que continentes, credos religiosos, opções políticas e gerações estão aqui exuberantemente representadas, não andarei longe da verdade.

Não é porém só o Tiago a sair para os ares, o vaivém é madrugador. Miúdos para a escola, graúdos para o trabalho, jovens para a vida, o Eduardo de cadeirinha para o Jardim do Campo Grande, ver os cisnes no lago, acompanhado pela sua opulenta ama.

O bom tempo leva ao súbito improviso de esplanadas no pátio onde se unem e reúnem as diversas famílias daqui. Há discussões acaloradas, tertúlias, futeboladas valentes que desgostam o labor do sr. Oliveira que jardina, vem às sextas e é hipocondríaco (estamos sempre a alvitrar que se aviste com Marcelo para jovialmente trocarem novidades farmacêuticas e com sorte, uma selfie). Aterram passantes variados, o “correio” que em vez de ser um marco é um ser de carne e osso, fornecedores versáteis, “consertadores” disto e daquilo, passageiras diárias como a silenciosa Da Luz, a farta Camila, a jovialíssima Amina. Pelas cinco há a chegada diária dos primos que estudam numa escola perto e “lancham cá”antes de rumarem às casas respectivas, deixando um sem fim de vestígios sempre misteriosamente inarrumáveis em sítio algum. Com apreciável frequência aparecem as jovens mães destas tribos. Tomam cafés (no plural), fumam e falam da vida naquele registo de que a condição feminina tem o segredo e o exclusivo e que num mesmo passe pode aliar o riso e a melancolia, o brilho e a sombra, a futilidade à questão mais decisiva. Às vezes, na mesma meia hora.

Dirigindo superiormente todo este universo de casas e gentes, há a Svetlana que se naturalizou portuguesa mas é tão inteligente que tenho pena que não dirija também o mundo.

E depois, claro, há os passageiros com lugar cativo. Vêm matar saudades, trocar estados de alma, refazer o mundo. Chamam-se amigos e vêm muitas vezes.

A verdade é que se eu tivesse de eleger qual o lugar que desde sempre mais intimamente esteve ligado a mim, ao que fui e sou, a quem aqui nasceu e morreu, a quem por aqui passou, a quem aqui criou, escreveu, conspirou, pintou, cantou, tocou, era este pátio. Onde nasci, cresci e vivo desde que me conheço (com um irrelevante e breve entre-parêntesis no Estoril). De tal modo que tenho a sensação de com a minha família — a que me gerou e a que eu formei – ter também contribuído para a pintura da imensa tela que é esta casa (debruçada sobre o pátio). E da sua longa história, escrita e inscrita nestas paredes.

2. Construída na primeira metade de século XVIII, era uma ampla casa de campo, rodeada de uma imensa quinta que foi sendo vendida por antigos proprietários. Quando nascemos, as minhas irmãs e eu, a casa – já pertença da família — ainda era “fora”.

A minha mãe dizia-nos “hoje vamos a Lisboa”, quando de mão dada connosco apanhávamos o eléctrico para os Restauradores e subíamos ao Chiado. Durante muito tempo – as infâncias são eternas – vivemos numa espécie de arrabalde, um mundo que tudo concentrava dentro dele, onde muita gente vinha e onde tudo ocorria. A primeira história que ouvi, ainda criança, foi a de Paiva Couceiro aqui escondido, por mão do meu avô materno, monárquico convicto que se aliara ao movimento das Incursões Monárquicas e andou pela Galiza. Henrique de Paiva Couceiro que regressara a Portugal vindo do norte de Espanha devido à amnistia decretada por Pimenta de Castro, logo porém voltara à condição de perseguido mercê da tibieza do Governo do mesmo Pimenta de Castro face à fúria republicana. Era preciso abrigar Couceiro, o meu avô ofereceu-lhe guarida em casa igualmente rebelde à República. Ficou uns tempos, deixando nos vindouros uma aura onde se confundiam frustrações, lendas e vagas heroicidades que perduram até hoje.

Depois houve aquele facto curioso (do qual me apercebi muito mais tarde) de o Sporting ter sido fundado neste pátio, nos idos de 1906, fruto da forte amizade de meu avô e de seu irmão com o grupo dos fundadores. Logo no início do século, o entusiasmo de dois irmãos activos e desportivos, os Gavazzos, levara-os a fundar o Sport Clube de Belas — que mal floresceu e pouco durou. Como a vontade não esmorecesse, surge então o Campo Grande Football Clube (porque a maior parte do grupo vivia por estas bandas). Após um início auspicioso, muitas iniciativas e algum sucesso, instalou-se a polémica, depois a divisão, seguiu-se a dissidência. Estava-se em Portugal. Graças porém a José Alvalade, rapaz de desenvoltura e iniciativa, neto de Visconde abastado, os “dissidentes” partem para outra. E que outra: em Abril de 1906, o Sporting Clube de Portugal nasce euforicamente numa sala do primeiro andar da nossa casa. O que não deixa de ser irónico para uma não adepta.

3. Durante o Estado Novo vinham salazaristas. O meu pai conhecia bem Salazar, tendo aliás muito jovem sido seu secretário em S.Bento. A casa e o regime confraternizavam bem e tanto fazia que viessem ministros, deputados ou simplesmente amigos “salazaristas”. Vinham naturalmente. Lembro-me que alguns eram ouvidos com interesse, pela sua inteligência, ou pela informação de que dispunham: Luís Supico Pinto, visitante habitual do Campo Grande; Alexandre Ribeiro da Cunha, colaborador próximo de Salazar e amigo de sempre do meu pai; Francisco Leite Pinto, Luís Camara Pina, José Paulo Rodrigues; Pedro Moura e Sá, ouvido sempre com devoção pela sua rara qualidade intelectual. E Jorge Jardim. Quer antes, quer depois do início da guerra de África. Trazia com ele os ventos africanos, aventuras que mais pareciam ficções (e talvez fossem), sagas sem aparente verosimilhança mas com vertigem.

Mas igualmente me lembro – e bem – de ver, desde pequena, o meu pai, no seu escritório cá de casa — chamava-se mesmo assim, “o escritório” — a ler o Diário de Lisboa. Comprava-o todos os dias e também muito naturalmente o lia, o ar aqui nunca foi rarefeito. Havia convicções fortes (fortíssimas), temas sagrados — África — mas nenhum interdito. Nada nos foi deturpado, nenhuma escolha nos foi imposta, nenhum amigo nos foi vetado, vinha gente de todo lado e quadrantes. Talvez por isso, com 17 anos, comecei a colaborar na RTP, no “Programa Juvenil”, a convite da Professora Ivette Centeno, que o fazia e dirigia.

Dada esta circulação de ar e de ideias, mal disparou o PREC o pátio viu-se muito naturalmente poiso de revolucionários e de contra revolucionários. Em igual grau, com igual peso, estatura e estatuto. Conselheiros da Revolução, ministros, militares influentes do “25 de Abril de 1974” de um lado; militares de alta patente, civis, personagens de peso, que hostilizavam a revolução, do outro. Às vezes na mesma noite, muitas vezes à mesma hora, uns entravam para uma casa, outros para a outra, e outros ainda para uma terceira (há muitas moradas na casa de meus pais…). Com ardor e calor cada morada queria seriamente levar a melhor sobre as outras, num crescendo que se ia tornando alucinante.

Estas movimentações assim contadas mais se assemelham a uma gincana mas não o foram de todo, nem estas, nem as que as precederam. Foram antes perigosas e sérias. Sucede porém que só se tornaram afinal possíveis dado o livre entendimento com que desde sempre, cada um neste pátio se geriu a si mesmo. Gerindo a sua consciência numa livre relação com as suas convicções, o país, os valores, a vida.

Nada foi fácil, nada foi de borla, para alguns foi duro. Digo sempre que se as paredes ou as árvores do pátio pudessem falar, escrevia-se um farto (e suculento) episódio da histṍria recente.

Tudo isto deixou — e continua a deixar — uma marca. Uma quase herança, algo de parecido com uma “responsabilidade”. De algum modo prosseguir o legado da casa. Sem o trair, nem atraiçoar a independência com que nunca deixou de ser levantado.

Que tarefa.

4. Lembrei-me hoje do pátio porque houve festa. E alguma comoção derramada sobre o casamento de um benjamim e, feito inédito por aqui, em boda bilingue, que o benjamim escolheu uma Katharina vienense (hoje as coisas estão assim, filhos pelo mundo, mais sangue estrangeiro na família, netos poliglotas, muitas cidades europeias ao mesmo tempo, novos costumes).

Mas tal como ocorre há muitos anos, o pátio mais uma vez esteve à altura, os seus personagens também. Na noite a escorrer nas janelas abertas sobre o jardim, reeditaram-se gestos e costumes, havia rosas, ouviu-se Schubert tão maravilhosamente cantado, bebeu-se, festejou-se só com amigos do peito. E coisa (quase) de assombro, assistiu-se à dança de uma valsa (Strauss, who else?) miraculosamente dançada sobre a tábua larga do soalho, um longo vestido seda de Viena acompanhando o movimento de um cavalheiro enlevado, numa quase irreal sintonia de gestos e acordes. Foi breve, fugaz, fugídio, como são os momentos de graça. E talvez de felicidade.

5. Num momento em que o mundo não oferece — nem exibe — nenhuma confortável certeza, ser do pátio é certamente uma delas.

PS: Caríssimo leitor, vou de férias (que é como quem diz). Outros valores mais altos se levantam por agora. Até um regresso!

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