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Peço desculpa!?

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Pedir desculpa não é um ato simplório e revelador de falta de força ou confiança. Apenas quem está de bem com a vida e quem é forte e resiliente consegue descer ao nível do outro e pedir-lhe desculpa.

Há por aí um movimento na net (só tenho uma rede social, o Linkedin, mas basta-me para perceber que a coisa ganha alguma forma, substância e dimensão) que refere o pedido de desculpa de alguém para com uma terceira pessoa (ou pessoas) como um ato revelador de fraqueza (sobretudo em contexto profissional). Não concordo e explico porquê.

Na maioria das vezes os argumentos que aparecem a justificar um não pedido de desculpa (e vou usar pedido de desculpa ou pedido de perdão de forma indiferenciada) estão associados a demonstração de fraqueza. Mas também a “pedir desculpa porquê ou para quê, sendo certo que não se teve responsabilidade pelo que aconteceu”? Acho este movimento de “não desculpa” não apenas perigoso nos argumentos como muito pouco entendedor do que é um pedido de desculpa. E muito pouco entendedor da natureza humana e da obrigação que temos quanto a fomentar o lado bom que há em nós. Vamos por partes. E vamos aos meus contra-argumentos.

1 – Pedir desculpa não tem mal algum. Antes pelo contrário. Pedir desculpa é uma forma humana de prática da humildade, do despojo da arrogância e da negação do “eu como centro do mundo”. Aliás, relendo Gandhi, por exemplo, depressa se percebe que a essência da mensagem de perdão é precisamente esta: “um fraco não pede perdão; uma das características de um ser humano forte e estruturado é precisamente ser capaz de pedir perdão”.

2 – Normalmente as pessoas pedem desculpa/pedem perdão e sentem uma remuneração psicológica associada a esse pedido. Saíram de si, deram-se ao outro, nem sempre são compreendidos mas, no final do dia, contribuíram para apaziguar alguma questão menos bem explicada/trabalhada e que estivesse a pulular nas suas cabeças/corações. Não é apenas pedir desculpa quando se trata de um erro grosseiro, nosso, ou quando fazemos algo grave. É mesmo pedir desculpa quando nem consideramos que o erro tenha sido nosso muito embora outros possam avaliá-lo como tal – aparentemente, e nestas circunstâncias, nem motivo há para tal pedido. Só que, pedir perdão é mesmo libertarmo-nos, também, de uma prisão, contribuindo para a vida, e a construção na vida, e para acalmar ânimos e fortalecer relações.

Nunca dois seres humanos interpretam a mesma realidade de igual forma. Nunca o nosso mapa mental é igual ao mapa mental de outrem. Por isso há o mapa mental e há o território. E o território é o real. E, o mapa mental, a realidade que cada qual cria. O termos ou não responsabilidade e o acharmos ou não que somos detentores de culpa é talvez a parte que menos importa num pedido de desculpa. Porquê? Porque importa sempre olhar para o outro como tendo um mapa mental diferente e porventura também a precisar de um estímulo, nosso, para acalmar e pacificar. Daí ao nosso pedido de desculpa/perdão vai um passo muito curto.

3 – Há um argumento falacioso de que o pedido de desculpa/o pedir perdão é uma forma de dizer, mesmo não tendo razão, que afinal fomos nós que errámos, admitindo logo que o outro estava correto e desonerando a contraparte do erro. Se pedirmos desculpa não “educamos” o outro e esse outro não nos pedirá desculpa nem desta vez nem provavelmente em mais ocasião alguma.

Como é óbvio não compro este argumento e tenho até dificuldade em entender os seus pressupostos. Educar quem? Nós – e estou a falar de adultos – é que nos temos de educar a nós próprios e de nos gerir. Somos nós os primeiros responsáveis por nós próprios e cada um dos outros pela sua conduta e forma de ação. Pedirmos desculpa a alguém não é uma batalha pela razão. É antes uma batalha pela paz. E há uma grande diferença entre uma vertente e a outra.

4 – Vão dizer-me, claro está, que o pedido de desculpa nas empresas é diferente do pedido de desculpa em termos de relações pessoais. Claro, nas empresas tudo é sempre diferente! E então se for “a minha empresa pior um pouco pois só tem idiossincrasias”. Tenho alguns argumentos contra isto mas apenas penso em dois neste momento: a) Ser mais humano (mulher ou homem) e sensível ao outro é válido na empresa como fora dela; se se trabalha com pessoas então não pode deixar-se o lado humano em casa como não se pode deixar o sentido apaziguador e de conciliação fora das empresas; b) Ser grande e forte e resiliente compadece-se sim, e muito, com um pedido de desculpa já que o mesmo majora a capacidade para fazer, para realizar, para trabalhar em equipa e, até, para liderar. Destes dois pegaria apenas no último: na liderança pedir desculpa a alguém que trabalha para nós/connosco e/ou a alguém de quem gostamos menos é até um excelente princípio para revigorar/criar uma relação. Não é menorização nem tão pouco humilhação. É, sim, humildade (diferente de humilhação) para reconhecer que a relação melhorará, que podemos ter capacidade para ser pequenos, dando o exemplo – e ser pequeno (de verdade) é talvez a forma mais segura para se ser grande.

E não, um pedido de desculpa não é a famosa retroalimentação ou alimentação de retorno, leia-se feedback. Como também não é, propriamente, um reforço positivo. Ou talvez até seja. Mas pouco importa porque se por feedback positivo entendermos pacificação e contributo para um bom ambiente de trabalho então fará parte de uma série de outras formas de feedback também positivo.

5 – E com os alunos? Um professor não pede desculpa pelas suas omissões ou erros? Acaso somos nós, professores, donos da verdade absoluta e da total incapacidade de errar? Os alunos, como tantos outros, põem olhos em exemplos. Podem ou não entendê-los hoje. Mais tarde certamente que poderão dar-lhes valor. Nos meus tempos de faculdade, por exemplo, deparei-me com docentes que faltavam a aulas e não se passava nada. Ou que tinham um problema errado num exame e não se passava nada. Ou que se enganavam no quadro e nada se passava. Ou que estavam sem qualquer paciência para dar uma aula e nada acontecia. Bom é, porque o experimentei várias vezes, pedir desculpa por não ter estado como devia, corrigindo o possível, procurando melhorar, alterando a forma e desenvolvendo a paciência e a capacidade para ouvir muito.

Pouco me importo se os alunos valorizam esta “proximidade” – dir-me-ão, cinicamente, hipotética humildade – mas mais tarde, um dia, irão lembrar-se certamente do quão diferente se pode ser quando se é pessoa, quando se erra e pede desculpa, quando se procura – em frente a todos – admitir que estivemos menos bem. Um aluno é uma pessoa. E é assim que deve ser tratado. E não me venham com a velha máxima de que um aluno…é um aluno. Porque antes de o ser é sempre um ser humano. E todos os mais velhos já foram alunos, como eu já fui aluno.

Não, pedir desculpa/pedir perdão não é um ato simplório e revelador de falta de força e de confiança. Peço desculpa, mas não é. É precisamente o contrário. Apenas quem está de bem com a vida e quem é forte e resiliente para com o contexto consegue descer ao nível do outro, calçar-lhe os sapatos e pedir-lhe desculpa. Despir-se de vaidades e triunfalismos e aceitar que é humano. Perceber que um pedido de desculpa é, antes de tudo, um ato de humildade e de humanidade. E é, igualmente, um ato de regeneração de relações.

E contra este movimento que por aí anda, prefiro mil vezes quem pede desculpa, mesmo não tendo necessariamente de o fazer, a quem não o faz, porque não se acha em erro ou até está acima dele. É assim, infelizmente, que se vive na política, é assim nos negócios, nas empresas, nas universidades: vive-se sem pedir desculpa/sem pedir perdão. É assim que sinto que o movimento cresce, vazio, desumano, por todo o lado.

Cito mais ou menos de memória e sem grande preocupação senão relativa às ideias subjacentes: “Todos nós somos amados não porque somos bons; somos bons porque somos amados”. E também, “a bondade do homem pode ser escondida, não extinta”. Pensamentos e frases emblemáticas de um homem que ficou na história da humanidade: Nelson Mandela. Continuem, pois, a ter a coragem, a ousadia e sobretudo a humildade – e também o altruísmo – de pedirem desculpa/pedirem perdão. E esqueçam essa coisa dos fracos que pedem desculpa. Tudo estereótipos que se criam para comportamentos plásticos que não têm na base a essência do ser humano e, muito menos, uma das melhores características que se lhe pode pedir: a bondade.

Disclaimer: este texto não pretende fomentar o pedido de desculpa por tudo e por nada. Sem compromissos, sem esforço, sem coração. Não. O pedido de desculpa/perdão (mesmo sem responsabilidade) deve ser usado com critério. E como saber como usá-lo? Não será maquiavélico pensar em “uso apropriado”? Não, se estivermos a falar do (e com o) coração. E é com o coração que se pede desculpa/se pede perdão. E, já se sabe, não se tente racionalizar com a cabeça o que só o coração consegue explicar.

Professor Catedrático, NOVA SBE – Nova School of Business and Economics; crespo.carvalho@novasbe.pt

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