Orçamento do Estado

Pequenas notas sem importância

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Somem-se as parcelas da magnânima generosidade que António Costa assinou de cruz para antever mais ano, menos ano, um novo ciclo de desgraça na desafortunada história das nossas contas públicas.

1. Ao contrário de muito boa gente não espero gestos grandiloquentes do Presidente da República nem vi no seu célebre discurso senão a resposta que se impunha aos trágicos fogos, à trágica irresponsabilidade do Executivo, à trágica desproteção dos portugueses. Tardou o discurso, já aqui o escrevi. Tinham já passado quatro meses sobre a primeira tragédia não havia conclusões nem decisões, o verão continuava escaldante, sabia-se que as temperaturas subiriam ainda mais. Ou seja, não bastavam avisos presidenciais, a letargia do Governo reclamaria artilharia mais pesada. Por qualquer razão que só a idiossincrasia de Marcelo pode explicar, não houve artilharia, houve frases. Vãs, aliás. Veio a segunda tragédia, veio o discurso, mas não sei se mais vale tarde que nunca — o timming não foi inocente –, sei que logo se exorbitou sobre o seu conteúdo. E no entanto de Belém não virão sobressaltos. Tudo menos aventuras duvidosas, gestos de desfecho incerto, jogadas sem rede por debaixo do trapézio. Não, a vida continua.

Quer isto dizer que o Presidente está contente, descansado, confiando na navegação e no timoneiro? Não, de todo. Só quem, a propósito do primeiro-ministro, não ouviu aquela do “optimista irritante”, um disparo sibilino carregado de significado político e exigindo mais que uma trivial leitura política, pode achar que no céu das instituições está tudo como Deus com os anjos. Não está e já não estava. Sucede — e aqui entra a idiossincrasia presidencial — que mesmo quando discorda, Marcelo prefere o elogiozinho apesar de falso, o abraço mesmo que televisivo, a (suposta) “estabilidade” à confrontação. A discórdia não lhe está a jeito, exibir públicos desacordos também não. Discursou para tranquilizar o país de quem precisa, mais do que para ralhar a Costa de quem não precisa. E além disso, não é verdade?, falta a segunda parte desta história: falta uma alternativa política pura e dura á direita, que não se antecipa, nem se vê. A insegurança face a uma brusca ruptura política e o medo de ter de lidar com ela, recomendam ao Presidente o que ele já está a fazer: aumentar o tom de voz com o Governo – mas só o tom de voz — e aguardar que passem dois anos. Entretanto vai dando abraços, coisa que faz como ninguém, vai distraindo os (seus) votantes e muito o entretém a ele.

2. A palavra despesa devia dar choque aos socialistas mas não dá. Que desse ao menos um estremeção aos autores do Orçamento do Estado, mas não. A ideia de despesa não os aflige e nunca os envergonhou. Lidam com ela com uma desenvoltura que não é de hoje, está inscrita no ADN socialista e escrita na história das governações que eles cometeram no país – digo bem, cometeram — deixando um rasto de divida e deficit e os portugueses afogados nesse descontrolo.

Embora o governo nos queira atordoar com boas noticias na frente económica — e assim pretensamente nos aliviando de receios infundados –, a factura socialista é visível a olho nu: a conta não pode deixar de aterrar aí com estrondo. A natureza da despesa, porém, na sua irresponsabilidade é mais penosa que o costume: saldar o apoio cada vez mais voraz , cada vez mais caro, cada vez menos racional, das esquerdas a contas com os seus maus resultados eleitorais. Somando-se as parcelas da magnânima generosidade que António Costa se viu obrigado a assinar de cruz é fácil de antever, mais ano, menos ano, um novo ciclo de desgraça na desafortunada história das nossas contas públicas. Basta haver o sopro internacional de uma crise, um aluvião europeu, uma má surpresa para Portugal voltar a cair num buraco. Nada entre nós é sólido, nem pode, o país está falido. Mas que importância que o Estado engorde até rebentar e os privados rebentem também, asfixiados entre a carga fiscal e o serem os enteados desta história? Que importância gastar dinheiro se o ano de 2017 afogou o governo&parceiros&amigos num irremediável optimismo que lhes vetou o senso e o critério: não recomendaria este irrepetível intervalo de boas condições económicas e financeiras um melhor avisamento na escolha de prioridades e de destino para os gastos? Muito mais atenção ao mau funcionamento do sector da Saúde, muito maior cuidado no abuso das cativações?

Por exemplo.

3. Sempre que o Sporting joga em casa, como ontem, há um ruidoso e populoso alarido aqui à volta. Garrafas de cerveja a perder de vista, roulottes com couratos e outras doçuras, a festa começa muito antes e estende-se muito depois. Deixando-nos habitualmente com o credo na boca com o medo de não entrar casa com o acesso bloqueado por indevido estacionamento. Mas há dias houve um brinde: que faria ali, bem em frente ao portão, um carro da policia? Pois bem, tal como outros, a policia arrumara o carro e abalara, apesar do visível dístico. Esperei e nada. Deixei um bilhete. Nada. Intrigada, deixei-me estar. Apareceram dois moçoilos fardados sossobrando grandes sacos plásticos com comida “Estavam com fome”, pararam o carro, foram abastecer-se.

Os papéis trocaram-se, o diálogo foi surrealista, ”mas os srs. guardas não viram que estão a impedir a entrada e saída de veículos desta casa e que isso é punível por lei por violar o código da estrada? “Tinham ido comprar comida e então?”. Pedi identificação, dados. Era “o Macedo, número tal….”, o outro emudecera. Mas “o Macedo”, mastigando o conteúdo do saco de plástico fugiu da trapalhada, carro fora, enquanto ingloriamente eu ia buscar o meu. A pé e longe: nestas noites, por aqui, há mais lagartos que um centímetro livre de espaço.

Quanto é que me teria custado esta história se ela tivesse ocorrido ao contrário? O reboque, a multa, a chatice, a espera?

4. Catalunha: farsa, opereta ou também tragédia?

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