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Quartos de Final na Holanda: por pouco mais que uma unha negra

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Wilders não iria formar governo. Os outros partidos já tinham declarado recusar coligar-se com o PPV. Mas deixa marcas indeléveis nestas eleições. São aquelas em que o populismo controlou a campanha.

Parece que agora é moda. As eleições importantes têm três tipos de atores. Os partidos do establishment (o mais importante é o que tem possibilidade de ganhar as eleições), um partido populista (neste caso, como em outros, radical) e um estado externo, que arranja uma forma de tentar influenciar (às vezes com sucesso) o curso das eleições.

Os atores são descritos de seguida, por ordem de chegada.

Ator número um: faltava menos de uma semana para as eleições quando o ministro dos Negócios Estrangeiros e a ministra dos Assuntos Familiares da Turquia se deslocam a Roterdão para fazer campanha eleitoral junto da população turca na cidade dos Países Baixos. Em causa está um referendo constitucional que se realiza a 16 de abril em Ancara. Se o “sim” ganhar, o já poderoso Recep Tayyip Erdogan poderá manter-se no poder até 2019 e o Estado será uma “república presidencialista”, em que o presidente terá poderes muito mais vastos. Mais uma machadada numa Turquia democrática e secular.

Por razões de segurança, tal como já acontecera em cidades da Alemanha, Áustria e Suíça, a entrada dos ministros foi travada. Este episódio serviu na perfeição a Erdogan: usando um dos mais básicos princípios do populismo, entrou em guerra com o inimigo exterior que, no entender do líder, pretende travar o progresso lógico da Turquia: a Holanda passou a ter direito a impropérios graves (politicamente) e ao corte imediato das relações diplomáticas ao mais alto nível. Estima-se que desde essa altura, cerca de 400 mil turcos tenham saído à rua a manifestar o seu desagrado.

Ator número dois: em empate técnico nas sondagens, Geert Wilders, líder (unipessoal) do PPV, de pendor populista e de direita radical – islamofóbico, anti-imigração, anti integração Europeia –, aproveitou o episódio para repreender em direto, no último debate televisivo, o primeiro-ministro em funções, Mark Rutte, o líder conservador liberal do VVD (o ator número 3, já lá vamos), pela “suavidade” com que tratou o assunto.

Wilders, desfiou o breviário da extrema-direita europeia: os regimes democráticos são demasiado brandos com imigrantes (a exploração do medo do outro), que não só ameaçam a lei e a ordem como desautorizam o governo e as forças policiais (narrativa da insegurança, que os partidos do establishment não conseguem resolver), mesmo que tenham sido estes mesmos imigrantes, com conivência do governo (em funções e candidato) que destruíram o estado social, em vez de proteger os holandeses (o povo nativo e real dos Países Baixos). Wilders ficou aquém das suas próprias expectativas no resultado eleitoral de ontem. Mas prometeu que não vai desistir.

Ator número 3: Mark Rutte, o homem sobre quem recaíram todos os desafios. Principalmente três: convencer o eleitorado dos méritos da moderação e da democracia; desmontar o discurso populista; e aproximar-se dos cidadãos, zangados com as elites, principalmente desde a crise de 2008.

Nos dois primeiros desafios não se saiu mal. Denunciando o discurso populista violento de Wilders, enquadrou as eleições nos Países Baixos como “os quartos de final” em que se tem de “bater o mau tipo de populismo” que aflige a Holanda e a Europa. Este jogo é essencial porque previne o “efeito dominó” que se poderá reproduzir na França já no mês que vem (“a meia-final”). Terá ganho uma pequena vantagem no frente a frente com Wilders, por manter uma pose tranquila, mas firme, perante a Turquia, em vez de prometer fechar mesquitas e expulsar imigrantes a torto e a direito.

O terceiro desafio, o de se aproximar da população estava perdido à partida. Por duas razões. Os holandeses estão muito mais preocupados com a saúde, a economia e a educação, entre outros temas do seu dia-a-dia, do que com o futuro da Europa ou mesmo com a imigração. Além disso, discurso de todos os candidatos foi mais crítico da União Europeia para não perderem terreno para o PPV, e o tema central da campanha foi o populismo, o extremismo e a xenofobia. Assim, as elites moderadas perderam mais uma oportunidade de se encontrar com as pessoas. Por isso, na sua essência o populismo ganhou, Wilders foi o maestro que segurou a batuta e imprimiu o ritmo eleitoral. Mesmo tendo falhado nas urnas.

Wilders não iria formar governo. A eleição é parlamentar, e as outras (várias) formações partidárias que terão acento parlamentar já declararam recusar coligar-se com o PPV. Mas deixa uma marca indelével nestas eleições. São aquelas em que o populismo (minoritário) sufocou a democracia (maioritária) no discurso dos principais candidatos. O populismo controlou a campanha e as análises políticas sobre as eleições.

E para isso nem teria sido precisa a ajuda de Erdogan, que até parece ter favorecido Rutte. O primeiro ator, que chegou à última da hora, não fez mais que lançar para as televisões de todo o mundo aquilo que já há semanas se passava na Holanda. Desta vez ganhou a democracia. É um bom sinal. Mas é uma vitória que está longe de dar espaço para euforias.

Investigadora do IPRI

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