Futuro

“Que mortes, que perigos, que tormentas”

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As doenças que nos afetam, em média, surgem porque vivemos demais para aquilo que a biologia nos desenhou. A seleção natural preparou-nos para viver 35-40 anos e não o dobro. Mas isso é bom, não mau.

De tudo aquilo que lemos e sabemos, o mundo é um local perigoso e cheio de defeitos. Também, de tudo o que nos foi ensinado, o ser humano é a fonte de todos os pecados e a origem de todos os males. Mas, a menos que esteja a ver a coisa completamente desfocada, se largar o peso da minha educação cristã, eu diria que esta espécie de macacos com economia, que passou a dominar um planeta inteiro, fez um caminho admirável. Se tomarmos como ponto de partida as sociedades de primatas, que não o Homo sapiens, que anda em torno das árvores a comer o que lhe aparece, a morrer de tudo e mais alguma coisa, incluindo violência sobre os seus semelhantes; temos que dizer que o progresso feito pela espécie é O verdadeiro milagre.

Usando uma cosmovisão eurocêntrica (adoro esta expressão “boaventurista”), ninguém morre pelos motivos que morrem os nossos primos primatas, tirando pela violência. As doenças que nos afetam, em média, surgem porque vivemos demais para aquilo que a biologia nos desenhou. A seleção natural preparou-nos para viver 35-40 anos e não o dobro. Estatisticamente, a probabilidade de mutações celulares nocivas aumenta consideravelmente à medida que as células se vão multiplicando e substituindo umas às outras e, com isso, aumenta a probabilidade de termos cancro, por exemplo. Nesta perspetiva, os elevados níveis de cancro são um produto das sociedades modernas. Nada disto aconteceria se tivéssemos sido comidos por um urso aos 22 anos, ou se uma bactéria qualquer tivesse infetado o arranhão que fizemos aos 14. Isto para dizer que o Homo sapiens, em particular o “Lusitanus”, adora falar mal de barriga cheia. Tudo representa uma ameaça, o mundo do amanhã será sob um cenário dantesco de morte e infelicidade, mesmo sabendo que já passámos cerca de 15 milhões de amanhãs até ao dia de hoje.

Comecemos pela anunciada morte da segurança social. Vai ser o inferno. Como nascemos poucos, não haverá reformas quando as pessoas que estão a trabalhar se reformarem. Bom era que continuássemos a procriar como coelhos, assim a nossa reforma estaria segura. Mas se nascemos poucos, é porque não precisamos de nascer muitos. Quando as pessoas tinham 12 filhos, dos quais 4 morriam pelo caminho de sarampo e escarlatina, para que pudessem ajudar no campo, esses filhos nem iam à escola e quando iam nunca passavam da 4ª classe. Os pais viviam na mais pura das misérias, dormiam com mais 4 filhos na mesma cama enquanto os outros 8 dormiam na outra cama, aquecida pela respiração do porco. Hoje as crianças vão à escola durante 12 ou 17 anos, dormem cada uma na sua cama e morrem de doenças terríveis aos 80 anos, depois de viverem as agruras de uma vida onde só puderam conviver com o iPad durante 20 anos.

A sério, a segurança social é um problema porque somos ricos e saudáveis? Claro que vamos ter que reformar um sistema que servia quando éramos pobres e doentes, mas as pessoas vivem num conforto inimaginável há 20 anos, durante 75 ou 80 anos de vida, e aquilo que nos conseguimos lembrar é que não vão poder reformar-se aos 60 anos para se dedicarem a 100% à praia. Não me levem a mal os estudiosos dos sistemas de pensões, mas o vosso problema é ridículo se comparado com o problema de levar uma espécie a viver mais dez anos, quando já vive o dobro daquilo para que os seus primos primatas foram “desenhados” pela seleção natural. São problemas de escalas diferentes. E há tantas soluções para um problema de reformas, quer do ponto de vista financeiro, quer do ponto de vista demográfico, que comparar os dois problemas é quase ofensivo. O curioso nisto é que a nossa vida não é feita de festejar a sobrevivência, mas de carpir as preocupações com dinheiro.

Vejamos agora a coisa em termos planetários. Quando andava na escola, no Pliocénico superior, a ameaça à espécie era o seu próprio sucesso. O crescimento económico implicava a multiplicação dos seres humanos e, com esta, a multiplicação dos recursos naturais necessários (e consequente multiplicação da sua escassez física e económica). Mas, felizmente, a economia fez o seu caminho ao transformar as necessidades biológicas. O mundo económico perdeu fronteiras em todos os sentidos. As trocas passaram a fazer-se a nível global (quem não se lembra da tragédia que a globalização traria?), os produtos passaram a não ter materialização física, a energia necessária para um produto deixou de se retirar de uma tonelada de carvão porque quase toda a economia vai funcionar a 5 volts e meio miliampere. Isto não significa que salvámos o planeta, mas mostra que revertemos o caminho. As guerras que matavam milhões em países inteiros sem darmos importância nenhuma, estão a transformar-se em tragédias mediáticas que matam às dezenas em discotecas.

Ou seja, a nossa perceção, e preocupação, não faz distinção da escala. Embora a escala dos problemas resolvidos é muito, mas muito, maior que a escala dos problemas criados com essa resolução, o facto é que nós vemos tudo no mesmo patamar, de forma linear. Não que os problemas criados não tenham importância em si mesmos, mas não estão sequer na escala dos problemas resolvidos.

O que me traz ao problema em que, porque tenho uma vida profissional, me envolve mais. A chamada robotização. Há dez anos, a indústria de “contact centers” era vista como a vergonha de qualquer economia. Não só era significado de baixa especialização dos trabalhadores como, consequentemente, de baixos salários. A confiar na palavra dos sindicalistas, cada centro era uma espécie de navio negreiro onde hordas de infelizes eram obrigados a viver num telefone a falar com pessoas. Ora, esta indústria é uma daquelas que se vai transformar por via da robotização porque o contacto entre as pessoas e as empresas já está num nível tecnológico diferente. Já muito está fora do telefone, as reclamações fazem-se por e-mail, as dúvidas por chat e a digitalização passou muitas das tarefas para a mão do cliente que, com isso, beneficia da associada redução dos custos. Claro que nada vai terminar, simplesmente o profissional indiferenciado do contacto telefónico vai transformar-se num especialista, alguém que resolve os problemas que não dependem da estatística.

Isto vai reduzir postos de trabalho? Ali, no tratamento indiferenciado de chamadas telefónicas, sim. Mas o que abre de novos postos de trabalho, bem pagos por consequência da especialização, vai ser fantástico. Como a canalização da água reduziu no número de aguadeiros que acartavam barris de água nas costas pelas ruas das cidades, mas abriu um sem número de novas atividades mais valiosas. O curioso é que aquilo que ontem víamos como um problema, hoje conseguimos fazer com que a sua resolução seja um problema muito maior e isso não é verdade. É simplesmente a nossa perceção a não conseguir distinguir a escala dos problemas. Acreditem, porque eu tenho 15 milhões de novos amanhãs desde que o Homo sapiens existe para provar o que digo. Se não quiserem acreditar em mim, lembrem-se da personagem que falava em “que mortes, que perigos, que tormentas” na aventura dos descobrimentos, que via como fruto da busca da “glória de mandar” e da “vã cobiça”. E que esse velho não deveria ter mais de 50 anos e o Restelo era um conjunto miserável de barracas nojentas com esgoto a céu aberto.

PhD em Física, Co-Fundador e Partner da Closer

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