Crónica

Quem viaja muito a trabalho tem sorte?

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Viajar toda hora só é uma sorte quando tais viagens são por turismo voluntário ou por outra razão mais nobre. Viajar por necessidade ou por imposição não tem lá muita graça.

E cá estou eu, em mais um voo de 10 horas de duração, fazendo contagem regressiva. Ontem, ao encontrar alguns familiares, eu disse que estava cansada. “Cansada de trabalhar?”, perguntaram eles. E eu respondi “de trabalhar nem tanto, estou cansada mesmo é de viajar”. Todos caíram na gargalhada, jogaram as cabeças para trás e disseram “Quem me dera! Quem me dera estar cansado de viajar!”.

De fato, a maioria das pessoas associa viagem a lazer, às férias e aos passeios. Realmente a maior parte das pessoas nunca vivenciou a dinâmica das viagens impostas, nas quais nós não temos muito poder de escolha nem muita chance de dizer não. E, através dessa ótica, trabalhar viajando pode mesmo parecer uma sorte das grandes.

Mas a verdade é outra, bem diferente. Experimente a sensação de ter saudades quase constantes da própria casa. Experimente a sensação de ter uma criança que te diz “De novo? Você precisa mesmo ir? Por que você não fica dessa vez?”. Experimente a sensação de nunca poder guardar as malas no alto de um armário, por saber que ela logo será refeita.

Experimente a sensação de procurar seu marido ou sua mulher na cama durante a madrugada e lembrar-se de que você não está em casa e ele não está lá. Experimente a sensação de flagrar-se com atos mecânicos, quase como um robô programado para passar no raio-x do aeroporto, tirando o computador, o celular, o relógio e o cinto sem nem pensar mais no que está fazendo.

Não se trata de um drama ou de um pedido de piedade. Temos consciência da nossa sorte de ter um bom trabalho, que nos proporciona experiências interessantes. Mas só queremos ter o direito de estar cansados dessa rotina sem que ninguém nos condene por isso. Viajar toda hora só é uma sorte quando tais viagens são por turismo voluntário ou por outra razão mais nobre. Viajar por necessidade ou por imposição não tem lá muita graça.

Nos tornamos os ausentes corriqueiros. Os que faltam nos aniversários, chegam mais tarde nos jantares e, apesar de tentarem fazer seu melhor, seguem com a sensação de que estão sendo pouco. Somos aqueles que frequentemente conhecem a geografia do aeroporto melhor do que a do próprio bairro, embora não achem graça nenhuma nisso.

Somos os que estão sempre em dívida, seja consigo mesmo ou com os outros. Os que olham para o calendário como um encadeado de dias fracionados, divididos entre “aqui” e “lá”. Os que são sempre um pouco punidos pela própria família por conta da sua ausência, embora todos saibam que nós gostaríamos muito de ficar. Somos os que estão realmente muito cansados, embora tenham a constante sensação de não ter o direito de estar.

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