Música

Salvem a música do DJ

Autor
  • Alexandre Borges
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Não é para salvar a música que o DJ faz; é para pôr a música a salvo do DJ. É como aquela adivinha do lobo, da galinha e do milho: não se pode deixar o DJ sozinho na margem com o gira-discos.

Não é que eu ache que os DJs não tenham os mesmos direitos do que os outros indivíduos. Acho que os DJs têm direito a reforma, assistência médica, educação, a um advogado no caso de serem detidos. Sou a favor do casamento DJ, da adopção por casais de DJs, da posse de DJs para uso recreativo. Bem conversado, até podia vir a deixar filha minha casar com um DJ, desde que ele jurasse não se aproximar da aparelhagem da sala. Nem da minha filha. Tenho inclusivamente – ó bendita caução –, amigos que são DJs. Mas os DJs, alguns DJs, muitos DJs, os DJs às vezes, os DJs ai o caraças.

Desconfie sempre que parecer que quem está em palco está a divertir-se mais do que você. A coisa começa aí. É regra de ouro para a música, para o teatro, para o que quiser. Não é suposto. O artista, o entertainer, o performer, o que quer que lhe queiram chamar, está lá para entreter o público, diverti-lo, empolgá-lo, emocioná-lo, tocá-lo, comunicar com ele, dar-lhe qualquer coisa. Ninguém pagou bilhete para ver um tipo entreter-se a ele mesmo. Rir-se das próprias piadas, deliciar-se com o som da própria voz, admirar o génio das próprias palavras – ou então saracotear-se como um guaxinim bêbedo no ritual de acasalamento anual a cada canção estafada que deita no gira-discos, enquanto mexe furiosamente numa mesa com mais botões do que a NASA, como se houvesse uma bomba na sala que fosse explodir nos próximos segundos, a menos que ele rodasse o botão certo a tempo.

É isso. Haverá certamente bons DJs. Tipos que sabem de música, escolhem boa música, editam bem a música, misturam bem a música, transformam boas canções numa experiência musical ainda melhor, inesperada, inventiva, melómana, colectiva, épica, terapêutica, até redentora. Haverá. Há. Mas depois há aquele outro tipo.

Alguém avise o DJ de que ele não é músico. Portanto, ele não vai “tocar” não sei onde; ele vai pôr discos.

Alguém avise o DJ de que não é legalmente obrigatório mudar de música de minuto a minuto.

Alguém avise o DJ de que se fazem transições mais suaves entre músicas usando os dedos em vez de alicates.

Alguém avise o DJ de que, se ele está a usar os dedos, que vá ver isso ao médico, porque soam mesmo como alicates.

Alguém avise o DJ de que há relatos de pessoas em sério risco de que há populações inteiras de pinguins que vão cometer hara-kiri com os próprios bicos se o “I Will Survive” voltar a ser tocado numa pista de dança naquela versão do “pá, pápá, pá-pá”.

Alguém avise o DJ de que os anos 80 acabaram nos anos 80.

Alguém avise o DJ de que, em todo o caso, os anos 80 não se resumiram à banda sonora do “Grease”, que, ainda por cima, é de 78.

Alguém avise o DJ de que, em princípio, os casamentos são momentos especiais entre pessoas diferentes; logo, deve pôr-se música especial e diferente. Não a mesma música em todo o santo casamento para que foram contratados a sugestão dum amigo do noivo que tinha um amigo que tinha um amigo que era “DJ”.

Alguém avise o DJ de que ele tem ao dispor toda a música do mundo. Toda. A melhor, mais extraordinária, rica, variada, brilhante e surpreendente música que a humanidade alguma vez escreveu. E que, portanto, ele não tem – repetimos: NÃO TEM – de pôr sempre a mesma cantiga.

Alguém avise o DJ de que vivemos numa sociedade incrivelmente livre, que lhe dá a honra de poder mexer na melhor música de sempre. Ele só precisa de fazer uma coisa: não a estragar.

Alguém avise o DJ de que sim, é verdade: uma significativa camada da população mundial não gosta de Gipsy Kings e considera mesmo a possibilidade de se declarar sexualmente abusada se voltar a ouvir aquela rapsódia do “Cuando sei Maria Dolores / baila baila baila baila / Nel blu dipinto di blu”.

Alguém avise o DJ de que o “Here Comes Your Man” é a pior música da história dos Pixies.

Alguém avise o DJ de que, em certas províncias da China, pessoas que interrompam grandes músicas na melhor parte para pôr os outros a cantarem são picadas em almôndegas e exportadas como ração para gnus.

Alguém avise o DJ de que há limites para a resistência humana à Kizomba. E ao reggae. E ao unts-unts-unts.

Alguém avise o DJ de que, se uma pen faz o trabalho dele, então, se calhar, ele escusa de vir.

Alguém avise o DJ de que o Spotify é capaz de fazer o trabalho dele.

O YouTube é capaz de fazer o trabalho dele.

Até a Paris Hilton é capaz de fazer o trabalho dele.

Isto, é claro, a menos que ele comece a trabalhar seriamente, como um ser humano e não uma cassete riscada, a tentar perceber que pessoas estão diante dele, a cada momento, a cada noite, e a pôr música, realmente, para elas.

Mas, caramba, talvez seja um projecto demasiado ambicioso.

Alexandre Borges é escritor e guionista. Assinou os documentários “A Arte no Tempo da Sida” e “O Capitão Desconhecido”. É autor do romance “Todas as Viúvas de Lisboa” (Quetzal).

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