Família

Três irmãs e um irmão, quatro personalidades distintas

Autor
  • Margarida Corrêa de Aguiar

A companhia dos irmãos pode exercer um papel relevante no nosso futuro – dela retiramos lições que são referências. É uma sorte quando acontece de forma construtiva. Estou contente por ter sido assim.

Só há dias me contaram que o Dia dos Irmãos acontece a 31 de Maio. Estamos próximos. É uma boa ideia, que celebra uma relação única.

Somos quatro irmãos: três raparigas e um rapaz. Falar dos irmãos é falar um pouco de nós. Não é fácil fazê-lo, mas tudo fica mais facilitado quando os nossos irmãos têm boas qualidades humanas e somos amigos uns dos outros.

Bendita a hora em que os meus pais se decidiram por uma família que, aos olhos de hoje, é considerada numerosa. Naquele tempo, as possibilidades de ter uma família com quatro filhos e a disponibilidade para assegurar a sua educação eram diferentes de hoje. Muita coisa mudou. Mas mais que as possibilidades, o importante é que os meus pais decidiram que era uma boa ideia, uma ideia com futuro.

E nós agradecemos. Não me é possível imaginar como teria sido a minha vida sem os meus três irmãos, pela simples razão de que são parte de mim.

Cresci com eles, a vida foi-se-me moldando com a sua influência. Com eles partilhei, desde criança, afectos, brincadeiras e coisas sérias, aprendizagens e decisões, compromissos e cumplicidades que foram assumindo várias cores e intensidades em função das nossas idades, das preferências, dos desejos e interesses que cada um de nós foi construindo ao longo da vida. Nada se perdeu, tudo ficou registado no que somos hoje e na relação que temos.

Tivemos a sorte de crescer juntos: esta partilha foi essencial à nossa formação e, a bem dizer, influenciou também algumas das escolhas que fomos fazendo. Foi uma partilha feliz.

Sendo todos muito diferentes – seguimos percursos pessoais e profissionais distintos – somos todos muito iguais. Recebemos a mesma educação, os mesmos afectos, os nossos pais transmitiram-nos os mesmos princípios e valores. Foram-nos dadas as mesmas oportunidades. Esta “rede” foi responsável por nos manter unidos, nos respeitarmos uns aos outros, sermos amigos e solidários. A diversidade de quem somos assenta numa base comum de não discordância do essencial sobre o sentido da vida e de como devemos vivê-la e também com os outros.

Mas este passado é também presente. Deu frutos dos quais hoje desfrutamos. É natural que assim seja, dirão alguns; mas, digo eu que, assim sendo, não é por mero acaso.

Sou a mais velha dos quatro irmãos. Ainda rapariguita, tomei este “posto” como importante e, desde muito cedo, assumi que deveria ajudar a cuidar dos meus irmãos. Achava que era uma responsabilidade. São muitas as histórias engraçadas desta faceta que ainda hoje nos fazem rir e olhar com graça para aqueles tempos.

Boa aluna, especialmente dotada para as ciências e, no caso concreto, para a matemática, guiava os meus irmãos no desempenho escolar. A matemática era realmente um “quebra-cabeças” lá em casa. O sofrimento era grande, mas eu lá estava com toda a dedicação para os preparar e resolver casos bicudos, quando era necessário. Era a explicadora de “serviço”. O sentimento era de entreajuda, a paciência era mútua. Fico-lhes grata, porque, através desta experiência, aprendi muito e desenvolvi várias aptidões que me foram muito úteis – e são. Foi também um processo que nos fez conhecer melhor e contribuiu para construir a proximidade que temos. Sinto assim, porque não sei como seria diferente.

Os meus irmãos queixavam-se da irmã matemática que lhes exigia trabalhos de casa e estudo conjunto. Mas foi útil: conseguiram passar nos exames com notas simpáticas. Esta “luta” pode explicar que tenham optado pelo Direito ou pela diplomacia. Na verdade, reconheço que fui incapaz de que se apaixonassem pelos números. Estão felizes com as opções que fizeram, é o que importa.

Hoje em dia, os meus irmãos quando precisam de uns “cálculos” um pouco mais rebuscados ou de tomar decisões que envolvem o rigor das “contas” sabem a quem recorrer. É um sinal de confiança que me alimenta a autoestima.

A companhia dos nossos irmãos pode desempenhar um papel relevante no nosso futuro – dela retiramos lições que são referências. É uma sorte quando acontece de forma construtiva. Estou contente por ter sido assim.

Ex-secretária de Estado da Segurança Social, Presidente da CIDADANIA SOCIAL – Associação para a Intervenção e Reflexão de Políticas Sociais

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