É preciso começar pelo princípio, e o princípio é a actualidade. Mais precisamente, a convicção na existência de uma ideologia maléfica que presidiria às acções do governo de Passos Coelho, uma ideologia chamada “neoliberalismo”. Essa teoria da sociedade seria dotada de uma unidade absoluta e Passos Coelho segui-la-ia vesgamente. A uma tal ideologia seria urgente contrapor uma visão do mundo radicalmente distinta, uma visão do mundo socialista, ou social-democrata. Igualmente una e perfeitamente definível.

Esta visão das coisas deixa um ser humano sonhador. Pelo menos a mim deixa-me. Explico, para não ser mal interpretado. Quanto mais não seja por dever de ofício, estou a par de muito do que, de Platão aos nossos dias, se escreveu sobre a natureza da sociedade humana e sobre o modo ideal que ela deve tomar. Além disso, não duvido por um instante que a interrogação sobre qual a boa sociedade, aquela que proporciona o modo de viver mais justo, não é apenas uma questão perene da filosofia política: é uma questão que qualquer pessoa que tenha vagar para pensar se deve colocar e acaba sempre por se colocar, por uma espécie de obrigação que releva de uma procura de sentido para a nossa vida mais funda do que considerações formalmente políticas.

Toda a gente, de um modo ou outro, sente isso, e exprime esse sentimento de uma forma mais ou menos articulada. E o mesmo vale, embora certamente em menor grau, para a questão paralela a esta, a que se interroga sobre o fundamento da sociedade, sobre a origem do vivermos juntos numa comunidade política. O problema não está, portanto, aí. Está noutro lado.

Ele é duplo. Primeiro, as teorias da sociedade só imperfeitamente a descrevem ou explicam. A sociedade sofre de uma indeterminação que a torna rebelde a conceptualizações certinhas, como aquelas que as ciências da natureza nos podem oferecer, o que se repercute na equivocidade dos termos que usamos para a pensar. Tome-se, por exemplo, o conceito de justiça. Há praticamente tantas concepções de justiça quanto filósofos políticos que sobre ela escreveram, o que não acontece com os físicos quando falam, digamos, de protões.

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Segundo, e mais importante aqui, as teorias da sociedade, e os projectos políticos delas decorrentes, esbarram com uma coisa chamada realidade, que resiste mal-educadamente a ser posta entre parêntesis. E é com a realidade que temos, infelizmente, de lidar. Isto parecerá pouco sofisticado, mas é verdade. E daí decorre que fingir que assim não é representa o mais pueril dos exercícios, um exercício que, quando conduzido por mentes exaltadas que crêem na eficácia mágica das teorias, leva infalivelmente aos piores resultados. Salva-nos o facto de a maior parte das pessoas possuirem um sentido robusto da realidade que as preserva em geral de a alucinarem a partir de uma teoria e lhes permite orientarem-se por critérios mais simples e fiáveis. Não é que não tenham, também elas, teorias da sociedade – há muito tempo que, tirando pouquíssimos amigos, não encontro ninguém que não tenha uma -, mas elas desempenham um papel saudavelmente diminuto nas suas vidas.

Voltemos a Portugal, que é aonde queria, com sinistros intuitos políticos, chegar. Há, provavelmente, muito mais tolerância e compreensão por parte da população portuguesa em relação ao que faz o governo de Passos Coelho do que normalmente se pretende. E isso porque as pessoas, que não se vestem nem calçam de teorias da sociedade, percebem que a situação obriga a que vivam durante bastante tempo muito pior do que viviam. Não gostam (era o que faltava que gostassem), mas percebem. E percebem também, já agora, a imensa responsabilidade do governo de Sócrates na sua situação actual. Uma responsabilidade que não é exclusiva, mas que foi decisiva. Os resultados das eleições europeias lembram este último facto, e não é por António Costa substituir (substituirá?) o sofrível Seguro que as coisas mudarão no capítulo. Nem a coisa vai com a pretensa subtileza das “narrativas”. Esta compreensão não é teórica, é prática – ela resiste precisamente às teorias e às “narrativas” – e é ela que permite a “resiliência que a maioria das pessoas tem demonstrado”, para utilizar as palavras certíssimas de Manuel Villaverde Cabral neste jornal.

Acresce a isto que, somando tudo, e tirando várias trapalhadas, entre as quais o lamentável episódio da demissão irrevogável de Paulo Portas – que pôs o PS, na sua costumeira irresponsabilidade, a perder-se de amores por ele -, o governo lá vai fazendo o que pode para manter a coisa, a sociedade, junta. Passos Coelho, em particular, mostrou-se muito mais maduro e prudente do que muita gente (incluindo eu) imaginava. E, sem se deixar levar por qualquer férrea teoria da sociedade, a verdadeira teoria, teve de lidar com a realidade bruta. Claro que todos saímos amachucados (uns pouco, outros muito) e ele também não deve estar muito bem. Mas a culpa não é de nenhuma teoria que ele perversamente tenha adoptado: é da realidade.

P. G. Wodehouse dizia pertencer àquela metade do mundo que ignora o que fazem os restantes três quartos. No fundo, toda a gente é assim. E no actual PS três quartos é uma estimativa por baixo: Costa ignora tudo o que não cheire a Seguro e Seguro ignora tudo o que não cheire a Costa. Tudo junto é pouca gente. Mas a realidade bate de vez em quando à porta – às vezes entra sem avisar – e é preciso lidar com ela. A melhor maneira, a única, é prestar-lhe atenção, algo que não se consegue batendo forte na cabeça com um livro que nos diz como as coisas devem ser. A interrogação sobre qual a melhor sociedade, e sobre qual a melhor vida, não precisam de ser eclipsadas no meio das desgraças, mas é necessário, ao mesmo tempo que as levamos a cabo, espreitar o mundo. Se me fosse permitido associar o meu nome a uma lei fundamental da sociologia (lei Wodehouse-Tunhas, em homenagem ao genial precursor), ela seria assim: a realidade é o que acontece quando uma metade do mundo percebe que os restantes três quartos lhe invadem a casa.

PS. Sem nada a ver com isto. António Costa declarou, no passado dia 14, não se sentir no direito de continuar no sossego da vida que tem tido se puder ser útil ao país. Confesso que nunca imaginei que ser presidente da maior câmara do país permitisse levar uma vida sossegada. Pensava que só os proverbiais taxistas salazaristas pensavam assim. Está-se sempre a aprender.