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A indústria e os veículos automóveis são os principais produtores de dióxido de carbono devido à queima de combustíveis fósseis, mas o gado tem uma responsabilidade significativa na produção de metano. Ambos os gases contribuem, juntamente com o óxido nitroso, para o efeito de estufa e, consequentemente, para o fenómeno das alterações climáticas. Cabe a cada país encontrar estratégias que diminuam a emissão destes gases.

“A concentração atmosférica de gases com efeito de estufa, como dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N20), aumentou desde 1750 devido às atividades humanas”, confirmou o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), no final de 2013. A produção de gado contribui direta ou indiretamente para a emissão destes três gases, segundo a Organização para a Alimentação e Agricultura das Nações Unidas (FAO, na sigla em inglês).

Existem cerca de 1,2 mil milhões de ruminantes de grande porte, como vacas e búfalos em todo o mundo, que totalizam uma produção de 80 milhões de toneladas de metano, lê-se na página da Agência de Proteção Ambiental norte-americana (EPA). A produção de gado emite cerca de 80% do metano produzido pelas atividades agrícolas e 35% das emissões por atividades humanas, segundo a FAO.

Há duas grandes soluções propostas para reduzir a quantidade de metano da atmosfera – ou se captura o metano libertado, ou se diminui a quantidade produzida. Um estudo divulgado esta terça-feira pelo Eurekalert mostra que é possível selecionar o gado consoante a quantidade de gases que produzem.

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O metano libertado pelos ruminantes resulta do processo de digestão. Além dos quatro compartimentos do estômago, os ruminantes contam com a presença de microorganismos que os auxiliam a degradar as plantas de que se alimentam. A degradação das fibras vegetais por estes microorganismos liberta metano, muitas vezes sob a forma de eructação (arrotos).

Cada bactéria produz diferentes quantidades

Mas será que todos animais libertam a mesma quantidade de metano? Uma equipa do Departamento de Energia do Instituto Joint Genome (DOE JGI), nos Estados Unidos, descobriu que não. “Queríamos perceber porque é que algumas ovelhas produzem muito metano e outras pouco”, disse em comunicado de imprensa Edward Rubin, director do departamento. “O estudo indica que a microbiota é a única responsável pela diferença.”

Existe um programa de reprodução na Nova Zelândia que pretende selecionar ovelhas que libertem menos metano sem afetar a produção de lã nem de carne. Fazer a sequênciação genética das bactérias encontradas no rúmen (uma das partes do estômago) das ovelhas identificou Methanosphaera nas que produziam menos metano e Methanobrevibacter gottschalkii nas que produziam mais.

Mas uma análise mais profunda mostrou que o que varia realmente entre ovelhas é a expressão do gene responsável pela produção de metano, segundo o comunicado da Eurekalert. Conseguir controlar a expressão dos genes pode ser a solução para reduzir a produção de metano pelos animais.

Produzir menos arrotos…

Já em abril deste ano o Financial Times noticiava que a administração do presidente Barack Obama procurava medidas amigas do ambiente, para diminuir as emissões de metano, como comprimidos que reduzam a produção de gases, scanners de arrotos ou mochilas que recolham os gases, para atingir o objetivo de menos 25% de emissões até 2020.

A possibilidade de criar um bovino com caraterísticas únicas entusiasmou Juan Tricarico, diretor do projeto Vaca do Futuro, do Centro de Inovação de Latícinios dos Estados Unidos, no Illinois. “Para nós é muito encorajador, porque demonstra que pessoas importantes neste processo estão a pensar como nós”, diz o diretor ao Financial Times. Lembrando que “noventa por cento dos gases emitidos [pelo gado] é libertado pela parte da frente na forma de arrotos, e não pela parte de trás.”

Numa proposta alternativa, a equipa liderada por Winfried Drochner, apresentou em 2007 um comprimido que, combinado com uma dieta específica e horários definidos, reduziria a produção de metano. A ideia apresentada pelo professor de nutrição animal da Universidade de Hohenheim em Estugarda (na Alemanha) incluia ainda a possibilidade de o comprimido aumentar a produção de leite, refere o jornal The Guardian. Mas reduzir a quantidade de metano não pode significar impedir a libertação. Quando acumulam gases, os animais incham, sufocam e morrem.

… ou guardá-los?

Para aproveitar o metano produzido pelas vacas, uma equipa de cientistas argentinos, criou, em 2013, uma mochila ligada por um tubo a um dos compartimentos do estômago. “Dependendo da alimentação e do tamanho do animal, uma vaca adulta poderá produzir 1200 litros de gases por dia, dos quais 250 a 300 são metano”, diz em comunicado de imprensa o responsável pela investigação, Guillermo Berra, coordenador do grupo de Fisiologia Animal do Instituto Nacional de Tecnologia Agro-pecuária, em Castelar (na Argentina).

Além dos gases produzidos diretamente na digestão, as fezes das vacas também são uma fonte de metano depois de entrarem em decomposição. A criação de sistemas anaeróbios – sem oxigénio – de decomposição dos resíduos produzidos pelos matadouros, vacarias ou leitarias, por ação de batérias permitiria por um lado a eliminação de toxinas desses resíduos, por outro lado a produção e aproveitamento de metano.

Independentemente das alterações na alimentação das vacas ou da recolha dos gases produzidos, Ilmi Granoff, investigador no Instituto de Desenvolvimento Ultramarino, sediado em Londres, afirma que a melhor solução é a redução do número de vacas. “Esqueçam o carvão, esqueçam os carros. A melhor maneira para repensarmos as alterações climáticas é reduzindo drasticamente a quantidade de carne ingerida pelas pessoas”, diz o investigador ao Financial Times.