Sabia que a parte direita do cérebro controla a parte esquerda do seu corpo e que, portanto, a metade esquerda do cérebro é responsável pelos movimentos do lado direito? Por isso é que uma lesão num dos hemisférios (metades) cerebrais pode deixar o lado oposto do corpo paralisado. Tentar descobrir como é que isto acontece foi um dos objetivos da equipa da Fundação Champalimaud que publica esta terça-feira os resultados na revista Nature Communications.

Para perceber como é que cada hemisfério cerebral controla o lado oposto do corpo (movimentos contralaterais) a equipa do programa de neurociência foi ao centro da questão. Literalmente. A parte envolvida no processo – os gânglios da base – estão localizados mesmo no centro do cérebro. Estes gânglios, carregados de neurónios, existem em ambos os hemisférios e qualquer problema nesta região dará origem a dificuldades no controlo motor como na doença de Parkinson ou de Huntington.

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Secção do cérebro mostrando nas áreas coloridas os gânglios da base – Andrew Gillies /Wikimedia Commons

Estudos anteriores indicavam que os gânglios da base tinham dois circuitos que funcionavam de forma oposta: o direto promovia os movimentos contralaterais e o indireto inibia-os. Mas o que este estudo vem mostrar é que os dois circuitos estão ativos em simultâneo e ambos contribuem para o movimento, explica ao Observador Rui Costa, neurocientista e coordenador do estudo.

“Os dois circuitos num hemisférico cerebral trabalham coordenadamente para controlar os movimentos”, diz o investigador. Ao desativarem um dos circuitos durante a experiência verificaram que tanto a promoção como a inibição dos movimentos do lado oposto do corpo ficavam comprometidas.

Embora a experiência tenha sido realizada com ratos de laboratório, os circuitos são muito parecidos com os dos humanos. Rui Costa refere que tentar perceber o que acontece em situações normais pode ajudar a tratar os problemas que afetem o controlo motor.

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Os circuitos dos gânglios da base (a branco) – Gabriela Martins/Fundação Champalimaud

“Na doença de Parkinson a ideia é que há muita ativação do circuito indireto e, por isso, muitas terapias tentam inibir esse circuito. Agora vemos que o circuito indireto também precisa de estar ativo [para que haja movimento] e em balanço com o circuito direto”, nota o investigador, reforçando que esta descoberta poderá fazer repensar os tratamento aplicados.

Apesar destes resultados, Fatuel Tecuapetla, primeiro autor do estudo, relembra em comunicado de imprensa: “Ainda há muito por ser desvendado quanto aos circuitos neuronais na base destes movimentos [contralaterais]”. Reforçando a conclusão do artigo de que pode haver mais fatores envolvidos do que a relação entre circuito direto e indireto. “Estes resultados sugerem que a conectividade funcional nos gânglios da base é mais complexa do que antes pensado”, lê-se no artigo.