Decorrem na primeira metade de Julho, duram uma semana e há muito que fazem parte da iconografia universal. Nas ruas estreitas da velha capital de Navarra, cheias de homens e mulheres vestidos de branco com lenços vermelhos ao pescoço, são lançados os touros que, pouco depois, hão-de ser lidados na praça da cidade. Há quase sempre feridos depois de cada correria, por vezes mortos. Mas no dia seguinte, no ano seguinte, as ruas voltarão a estar cheias. De muitos espanhóis e de um número crescente de americanos que aqui vêm procurar o perfume de outros tempos, um perfume que anteviram nas páginas de Fiesta, o grande romance de Hemingway, publicado em 1927.

A novela do escritor norte-americano, que como quase todas as suas obras tinha uma forte componente autobiográfica, tem conseguido resistir ao tempo porque, como escreveu Jorge de Sena, tradutor da obra para português, é um “documento imperecível de uma época e de um agrupamento humano, mas como autêntica obra de arte, escrita com a mais profunda e devastadora humanidade”.

E, no entanto, a sua história é simples, como também notou Jorge de Sena: “Meia dúzia de expatriados (escritores medíocres e, uma lady mais ou menos prostituta, quase todos sempre ocupados in fornication and drink), a vida de “cafés” em Paris e as festas de São Firmino em Pamplona – uma grande e extraordinária obra clássica da literatura norte-americana e um dos mais belos romances do nosso tempo? Pois é verdade.”

Com a sua escrita directa, seca, que muitos descreveram como jornalística, Hemingway descreve em Fiesta uma destas loucas corridas à frente dos touros. Hoje há muito mais gente, muito mais turistas e muito mais folclore, mas há uma parte do espírito que o escritor captou nestes breves parágrafos que se mantém intacto.

People standing on balconies look at participants as they run in front of Victoriano del Rio Cortes' bulls during the third bull-run of the San Fermin Festival in Pamplona, northern Spain, on July 9, 2014. The festival is a symbol of Spanish culture that attracts thousands of tourists to watch the bull runs despite heavy condemnation from animal rights groups.  AFP PHOTO / PEDRO ARMESTRE        (Photo credit should read PEDRO ARMESTRE/AFP/Getty Images)

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Extrato de Fiesta, de Ernest Hemingway:

Fui apertado contra as tábuas. Entre as duas vedações, a Polícia ia enxotando o povo. A passo ou às corridinhas iam todos enfiando para a arena. Depois, começou a vir gente a correr. Um bêbedo escorregou e caiu. Dois polícias pegaram nele e atiraram-no por cima da vedação. A turba já vinha correndo a valer, houve um grande clamor na multidão, e, metendo a cabeça pelas tábuas, vi os touros saírem da rua para o extenso corredor. Vinham muito depressa e a apanhar a multidão. Nesse mesmo instante, outro bêbedo disparou da vedação com uma blusa nas mãos. Queria capear os touros. Os dois polícias atiraram-se, agarraram-no pela gola, um deu-lhe com o bastão na cabeça, e arrastaram-no para a vedação e ficaram colados a ela, ao passarem o resto da multidão e os touros. Era tanta a gente que corria adiante dos touros que a massa se comprimiu e abrandou a marcha ao atravessar a porta para a arena, e, quando os touros chegaram, galopando juntos, pesados e enlameados, com os cornos a dar a dar, um que ia à frente apanhou pelas costas um homem da multidão correndo, e levantou-o ao ar. Os braços do homem estavam ao longo do corpo, a cabeça descaiu quando o chifre entrou, e o touro levantou-o e depois deixou-o cair. O touro reparou noutro homem a correr à sua frente, mas o homem desapareceu na multidão, e a multidão passara o portão e entrara na arena com os touros atrás. A porta vermelha da praça fechou-se, a multidão dos balcões exteriores apertava-se por entre a dos de dentro, houve um clamor e depois outro.

O homem que fora corneado jazia de bruços na lama espezinhada. Pessoas marinharam pela vedação, e não pude vê-lo mais, porque era compacta a multidão à volta. De dentro da praça vinham aclamações. Cada clamor significava que um touro avançava para a multidão. Podia saber-se pela intensidade dos berros a gravidade da coisa que estava acontecendo. Subiu então o morteiro que significava terem as chocas levado os touros da arena para o touril. Deixei a vedação e fiz-me de volta à cidade.

Na cidade fui ao café para tomar uma segunda chávena e umas torradas com manteiga. Os criados varriam o café e limpavam as mesas. Um veio saber o que eu queria.

– Aconteceu alguma coisa no encierro?

– Não vi nada. Um homem foi gravemente colhido.

– Onde?

– Aqui – e levei a mão ao meio das costas, e a outra ao peito, onde o corno deveria ter saído. O criado abanou a cabeça e limpou com o seu pano as migalhas da mesa.

– Gravemente colhido – disse ele. – Tudo por desporto. Tudo por gosto.

Foi-se embora e voltou com a cafeteira e a leiteira de longas pegas. Serviu o leite e o café. Saíam de longos bicos em dois fios para a grande chávena. O criado abanou a cabeça.

– Gravemente colhido pelas costas – repetiu. Pousou as cafeteiras na mesa e sentou-se numa das cadeiras. Uma grande cornada. Tudo pelo gozo. Só por gozo. Que lhe parece?

– Não sei.

– Aí está. Tudo por gozo. Gozo, entende?

– Não é aficionado?

– Eu? Que são os touros? Animais. Animais bravos. – Levantou-se e levou a mão às costas. – Mesmo nas costas. Uma cornada nas costas. Por gozo… está a ver.

Abanou a cabeça e afastou-se levando as cafeteiras. Dois homens iam passando na rua. O criado berrou-lhes. Estavam muito circunspectos. Um abanou a cabeça e respondeu:

– Muerto!

O criado fez que sim com a cabeça. Os dois homens seguiram. Iam a qualquer sítio. O criado voltou à minha mesa.

– Ouviu? Muerto. Morto. Está morto. Atravessado por Corno. Por uma manhã de gozo. Es muy flamengo.

– Saiu-se mal.

– Eu não me saio – respondeu o criado. – Que não vejo gozo nisso.

Mais tarde, nesse dia, soubemos que o homem que morrera se chamava Vicente
Girones, e viera das proximidades de Tafalia. No dia seguinte, no jornal, vinha que ele tinha vinte e oito anos, uma herdade, mulher e dois filhos. Mesmo,depois de casado, continuava a vir à fiesta todos os anos. No dia seguinte, a mulher veio de Tafalia para velar o corpo, e no outro dia houve exéquias na Igreja de San Fermín, e o caixão foi levado à estação por membros da sociedade dançante e bebente de Tafalla.