O Queer Lisboa entra na maioridade com 127 filmes e novas parcerias que prometem mudar o festival. De 19 a 27 de setembro, o festival de temática gay, lésbica, bissexual, transgénero e transsexual instala-se no Cinema São Jorge e na Cinemateca. Em outubro é a vez de o Porto receber pela primeira vez o certame.

127 filmes, entre curtas e longas-metragens. Um número que, de acordo com João Ferreira, diretor artístico do Queer Lisboa, só é talvez comparável à 10ª edição, disse em conferência de imprensa, esta terça-feira, em Lisboa. As boas notícias devem-se à “muito boa pontuação” e, por isso, a atribuição de um subsídio por parte do programa média. Por isso mesmo, a programação conta com mais filmes europeus. “Não significa que vamos ter menos filmes norte e sul-americanos. Vamos é ter mais filmes”, explicou o diretor.

“Não vai ser uma extensão, uma escolha do que de melhor foi apresentado em Lisboa, vai mesmo ser o Queer Porto 1”, explicou João Ferreira sobre a ida do festival para a Invicta.

Na 18.ª edição bate-se um recorde que tem sido raro em Portugal nos últimos anos. “É uma edição especialmente feliz. Temos um orçamento direto de 150.000 euros, o que é um recorde”, disse João Ferreira, visivelmente satisfeito com a “emancipação económica” atingida aos 18 anos de vida do certame.

Uma das grandes novidades deste e do próximo ano é a ida do Queer para o Porto. Na 1.ª semana de outubro vai chegar à Casa da Artes um “ano zero”, apenas com a retrospetiva dedicada ao cinema de John Waters que também será exibida em Lisboa. A colaboração do Queer Lisboa com o Cineclube do Porto e a Direção Regional de Cultura do Norte chega em força em 2015, e a Casa das Artes passará a acolher o Queer Porto com a sua primeira edição. “Serão dois festivais. Não vai ser uma extensão, uma escolha do que de melhor foi apresentado em Lisboa, vai mesmo ser o Queer Porto 1”, explicou João Ferreira.

John Waters, António da Silva e um programa especial sobre África

John Waters será um nome em foco num programa que recupera cinco títulos de referência da primeira fase da sua filmografia, a serem exibidos na Cinemateca Portuguesa. Entre os títulos desta retrospetiva conta-se o célebre “Polyester” (1981), um dos vários filmes de Waters com Divine como protagonista. Por ocasião da sua estreia foram distribuídos entre os espectadores cartões-raspadinha onde era possível replicar alguns dos odores menos convencionais do filme, experiência que o Queer Lisboa vai recuperar, distribuindo também o tão famoso cartão ‘Odorama’ pelo público. “Pink Flamingos” (1972), “Female Trouble” (1974), “Desperate Living” (1977) e “Hairspray” (1988) completam a retrospetiva.

Realizador já presente (e premiado) em edições anteriores do festival, António da Silva, um dos mais relevantes nomes do cinema queer português contemporâneo, vai estrear cinco filmes só este ano. São eles “Beach 19”, “Cariocas”, “Nudes Dudes” e “PIX”. Por sua vez “Dancers” apresenta ali em exclusivo a sua versão explícita.

Este ano a secção Queer Focus é dedicada ao continente africano, pouco explorado pelos festivais queer, com produções africanas e não só através do olhar ocidental sobre África. Numa parceria com o Africa.Cont, o Queer Focus on Africa reúne uma filmografia de produção exclusivamente africana, revelando-nos não apenas as diversidades políticas e culturais deste continente, como as formas como o seu cinema tem lidado com as questões ligadas à sexualidade e ao género, recuperando clássicos como o senegalês “Touki Bouki”, realizado por Djibril Diop Mambety, de 1973, num cópia em 35mm recentemente recuperada pela Cinemateca de Bolonha. Em Lisboa vão estar presentes realizadores e artistas africanos para falarem sobre as complexas realidades queer nos diversos cantos de África.

A secção Panorama, que elege longas-metragens fora de competição consideradas merecedoras de destaque no panorama internacional, divulgou também parte da sua programação deste ano: “Elaine Stritch: Shoot Me”, de Chiemi Karasawa, ”La Partida”, de Antonio Hens, e “Eastern Boys”, de Robin Campillo, são alguns dos títulos programados.

De acordo com Nuno Galopim, programador do festival, a secção In My Shorts, começada no ano passado, vai crescer e contar com três programas dedicados aos novos talentos e realizadores.

Livro Cinema e Cultura Queer

Para assinalar os 18 anos de vida, o festival vai lançar um livro bilingue em setembro

Para comemorar a 18.ª ediçã0, o festival vai lançar o livro Cinema e Cultura Queer. Organizado por António Fernando Cascais e por João Ferreira, vai reunir uma série de ensaios assinados pelos colaboradores do Queer Lisboa, bem como por autores convidados e jornalistas.

O livro, único no seu género em Portugal, será uma edição bilingue, portuguesa e inglesa, e comercializado internacionalmente para divulgar o cinema queer de língua portuguesa. Em 600 páginas recupera-se a história do cinema queer em Portugal, fazendo uma exaustiva análise dos seus principais filmes e realizadores, e lança um olhar crítico ao cinema queer mundial, representado no programa do festival nestes últimos 18 anos. O lançamento desta publicação terá lugar a 13 setembro em Lisboa, no Museu do Chiado, e a 3 de outubro no Porto, na Galeria Wrong Weather.