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A perceção do tempo não é igual para os poderosos. Pelo menos, é isso que um estudo da Universidade da Califórnia defende, depois de ter estudado centenas de pessoas. Os autores concluíram que quanto mais poder uma pessoa tem, maior é a sensação de tempo livre na sua vida.

Que o tempo é relativo já quase todos percebemos em alguma ocasião. O tempo de um bom filme dá a sensação de passar mais depressa do que o tempo de um mau filme. Contas feitas, o tempo em si é igual. Mas não é disso que trata o novo estudo da Universidade da Califórnia.

Em “O poder de controlar o tempo: o poder influencia quanto tempo (acha que) tem”, Alice Moon e Serena Chen testaram o sentimento de poder, ou falta dele, atribuindo o papel de patrão ou empregado a quem se submeteu ao estudo, em desafios de quebra-cabeças.

Os patrões tinham que decidir que puzzles os funcionários iriam resolver e como seria feita a divisão do prémio, neste caso, doces. No final, todos tinham de preencher um inquérito sobre as suas perceções de disponibilidade de tempo.

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A conclusão foi de que os patrões, ou seja, quem tinha o poder, sentiam uma “abundância de tempo”, diz o estudo. A razão é que os sentimentos de controlo sobre vários aspetos da sua vida transferiam-se para o seu sentido de tempo, o que vai ao encontro de estudos anteriores que também analisaram a relação entre poder e perceção. Um desses estudos, publicado em 2010, sugeria que as pessoas em cargos de poder tendem a subestimar quanto tempo uma tarefa vai demorar a ficar pronta.

O estudo da Universidade da Califórnia concluiu ainda que o aumento da perceção do tempo disponível leva a que os poderosos sejam, em geral, menos stressados. Do lado oposto, as pessoas que não têm poder sentem a pressão da “inexorável marcha do tempo”. Pior: estas pessoas com menos poder, incluindo económico, logo com menos tempo, tendem a tomar decisões piores, o que só perpetua a sua condição.

Mas a falta de pressão não é o único motivo que leva a que os mais poderosos tenham mais hipóteses de conseguir resultados financeiros mais favoráveis. A revista The Atlantic encontrou outro estudo, desta vez da Universidade do Sul da Califórnia, que descobriu que os sentimentos de poder levam os poderosos a tomar decisões de longo prazo mais favoráveis.

Como escreveu a jornalista Maria Konnikova no New York Times, que tantas vezes se vê sem tempo para cumprir todas as tarefas que lhe pedem no jornal, “as exigências do momento suplantam as exigências do futuro, tornando o futuro mais difícil de alcançar”.