Igor Bezler, conhecido pela alcunha de “Demónio”, é o líder separatista mais temido no leste da Ucrânia. Shaun Walker, correspondente do Guardian, conseguiu, na semana passada, um encontro com o homem que se suspeita ser o responsável pelo abate do avião da Malaysia Airlines MH17.

Se as forças de segurança ucranianas (SBU) tiverem razão, Igor Bezler e o seu grupo de homens são os responsáveis pelo abate do avião MH17. De acordo com a gravação de uma chamada telefónica feita dois minutos antes do desastre, “Demónio” terá dito: “Um pássaro está a voar na tua direção”. Perguntou se era grande ou pequeno e responderam-lhe que era difícil ver, porque estava a voar acima das nuvens. Em outra gravação, alegadamente gravada vinte minutos depois, Bezler confirmou ao interlocutor, supostamente um oficial russo, que o avião tinha sido abatido. Entretanto, Bezler já admitiu que esta gravação é verdadeira mas que se referia a um ataque diferente – até agora, os rebeldes abateram 10 aviões ucranianos.

Na quinta-feira passada, Shaun Walker, jornalista do Guardian e um jornalista russo não identificado conseguiram estar na presença de Igor Bezler. O encontro deu-se em Gorlovka, uma pequena cidade localizada à distância de 40 quilómetros de Donetsk – a base militar de “Demónio” nos últimos três meses. Na entrada da cidade, os jornalistas encontraram um posto de controlo com grandes barricadas de sacos de areia, rebeldes com metralhadoras Kalashnikov nas mãos e lança-granadas nos ombros, escreveu a Shaun Walker, no Guardian. Alguns dos soldados de Bezler eram locais, outros tinham vindo da Rússia e foram treinados em Rostov, do outro lado da fronteira.

Dentro de uma das salas do quartel militar, o jornalista encontrou um cenário improvável: dez coelhos brancos. Um dos quais era enorme e estava batizado como Yatsenyuk, nome do ex-primeiro ministro ucraniano que se demitiu na semana passada. Os militares contaram que planeavam esfolá-lo em breve para o cozinhar. Na casa de banho, em vez de papel higiénico, encontrou uma cópia do código legal ucraniano, com metade das páginas já arrancadas. Quando Igor Bezler lhes apareceu à frente pela primeira vez, disse: “Estou ocupado, falamos mais tarde. Para já, mostrem-lhes os prisioneiros.” Igor Bezler nasceu na Crimeia e viveu durante muito tempo na Rússia antes de mudar-se para Gorlovka, onde trabalhou como diretor de uma agência funerária. Segundo as forças de segurança ucranianas, Bezler é uma agente russo e recebe ordens diretamente de Moscovo.

Um périplo sem tempo para perguntas

Num dos quartos que os jornalistas percorreram, encontraram Vasyl Budik, um jornalista local preso devido à suspeita de ligações com o Pravy Sektor, um grupo de extrema-direita ucraniano. E também muitos militares ucranianos. Quando decidiu aparecer, Bezler informou: “A única razão pela qual eles estão aqui é porque são soldados ucranianos. Aqueles que estão a lutar no exército ucraniano, ficamos com eles como prisioneiros. Aqueles que estão a lutar em batalhões voluntários, interrogamo-los e depois matamo-los, no mesmo sítio. Porque é que devíamos mostrar alguma pena deles?”, explicou Bezler, ao mesmo tempo que aumentava o tom de voz.

“Devias ver o que eles fizeram às minhas pessoas. Eles cortaram-lhes as cabeças! Eles são fascistas. Então porque é que nós devíamos fazer alguma cerimónia com eles? Um interrogatório, uma execução, e é isto. Vou enforcar estes animais nos postes de iluminação.” Após dizer isto, Bezler apercebeu-se que os dois jornalistas estavam a utilizar gravadores e que estavam a tirar notas à mão do que ele estava a dizer. Arrancou-lhes o gravador e o blocos das mãos e mandou os soldados destruir esse material. Protestar só tornou a situação pior, conta Shaun. “Queimem os blocos de notas! Apreendam os equipamentos eletrónicos! Revistem tudo à procura de material comprometedor. Se encontrarem algo, executem-nos como espiões”, ordenou o comandante separatista.

Após um momento de tensão e uma revista ao pormenor, o “demónio” voltou a aparecer. “Devolvam-lhes as coisas deles. Levem-nos até ao posto de controlo, expulsem-nos e não os deixem voltar a entrar”, disse. “Saímos à pressa, e nunca tivemos a hipótese de perguntar ao demónio qual o seu alegado papel no abate do avião MH17”, escreve o jornalista na reportagem do Guardian. Passados três dias, no domingo, a cidade Gorlovka foi bombardeada pelas forças anti-terroristas ucranianas com rockets “Grad” – um tipo de dispositivo que lança 40 mísseis em poucos segundos, causando o máximo de danos possíveis. O “Demónio” não estava lá quando isto aconteceu. Os ucranianos dizem que fugiu, os soldados dele dizem que partiu numa missão. Pensa-se que 13 pessoas morreram em Gorlovka nesse dia, incluindo uma mãe e filho. O escritório de Bezler não foi atingido.