“Hoje ser banqueiro é complicado.” Na manhã desta segunda-feira, era possível encontrar esta citação de Ricardo Salgado escrita num póster com a cara do próprio, com uma venda de ladrão, na entrada da delegação do BES Arte & Finanças, na rotunda do Marquês de Pombal, em Lisboa.

Carlos Costa, governador do Banco de Portugal (BdP), anunciou na passada noite de domingo a divisão do Banco Espírito Santo em um banco bom, o recém batizado Novo Banco, e um banco mau, aquele que vai ficar com os denominados ativos problemáticos – os de cobrança difícil – de uma ou mais instituições de crédito. No mesmo anúncio, o governador do BdP afirmou que “nada muda para os clientes”: o Novo Banco assegura a “plena continuidade da atividade da instituição, sem impactos para os seus clientes, colaboradores ou fornecedores”, explicou.

Mesmo assim, alguns depositantes foram até aos balcões do BES para saber mais sobre o estado das suas poupanças e obter mais esclarecimentos sobre o futuro do Novo Banco, nesta manhã de segunda-feira.

No número 11 da avenida de Liberdade, perto dos Restauradores, em Lisboa, às 8h45 da manhã, o balcão do BES estava quase vazio. “Vim saber o que se passa. Para já, disseram que está tudo bem, mas ainda não têm grandes explicações sobre o futuro”, conta Anabela Soares, ao Observador, ao sair da agência. Como trabalha nas redondezas daquele balcão do banco e já conhece os responsáveis “há dois ou três anos”, Anabela diz que “confia no que lhe disserem.” Mas se não chegarem mais explicações para breve, afirma que “vai tirar o dinheiro” do BES. “Muito ou pouco, o dinheiro é meu. E não o quero perder”, explica Anabela.

Passados poucos minutos, sai outro cliente do banco. “Se tivessem ouvido o que o governador do Banco de Portugal disse ontem à noite, não precisavam de vir cá”, afirma Alves da Cunha, quando confrontado com os pedidos de explicações de outros depositantes. Para ele, as palavras de Carlos Costa foram suficientemente esclarecedoras. “O banco ‘bom’ mantém-se”, acrescenta, num tom convicto.

No edifício sede do BES, na avenida de liberdade, nesta manhã, os funcionários do banco vinham trabalhar normalmente. Com pacotes de bolachas de água e sal debaixo do braço, para os momentos em que a fome dá um aperto e que não se pode sair da secretária. Provavelmente, hoje vão ter muita informação para se atualizarem. Na receção do edifício, asseguraram ao Observador que que nenhum depositante mais revoltado apareceu para reclamar. “Está tudo calminho”, garantiram.

Noutro balcão do Novo Banco, no Rossio, dá para perceber que estão clientes em fila de espera para serem atendidos. Cerca de oito, às 9h30 da manhã. “Só vim ao banco numa coisa de rotina”, diz António Bento, a rir, ao sair da agência do BES. “Estou totalmente descansado sobre esta situação”, garante.

Já José Pereira sai do balcão do BES descontente. “Vinha saber mais informações sobre esta mudança, mas o atendimento está a demorar muito tempo”, explica. José queria saber em que situação fica o seguro da sua casa e carro. “Não sei se ficou no banco bom ou mau”, diz, ao ir-se embora sem respostas.

Ainda existem muitas perguntas por responder sobre o futuro no Novo Banco, mas ao que parece os depositantes estão a encarar esta mudança de forma tranquila e sem pânico, pelo que o Observador viu nos balcões que visitou. As palavras de Carlos Costa parecem ter surtido efeito.