No dia 12 de Agosto, uma terça-feira, os pais de James Foley, o jornalista americano que foi assassinado por militantes do Estado Islâmico do Levante e Iraque (ISIS), receberam um email a avisar aquele que viria a ser o destino do filho. Nesta sexta-feira, o jornal norte-americano GlobalPost, principal meio de comunicação com que Foley trabalhava, publica a mensagem na íntegra.

Para lá dos pontos de vista extremistas expostos, o email contem incoerências fatuais. Por exemplo, explica o jornal, os familiares de Foley não tiveram qualquer oportunidade de negociar a libertação do cativo. Após mais de um ano sem notícias do filho, os pais receberam uma mensagem do ISIS, no dia 26 de Novembro de 2013, a pedir um resgate de 100 milhões de euros ou a opção de o governo norte-americano libertar prisioneiros.

“Hoje, as nossas espadas estão apontadas na vossa direção(americanos), tanto para o governo como os cidadãos. E não vamos parar enquanto não saciarmos a nossa sede de sangue”, lê-se no email. E terminam com a mensagem: “Ele [James Foley] vai ser executado como resultado direto das vossas transgressões contra nós.”

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(O Papa Francisco ligou aos pais de Foley)

A família de Foley, jornalistas do GlobalPost, autoridades do governo norte-americano e agências de segurança privadas estavam a tentar descobrir a localização do jornalista, numa tentativa de conseguir a sua libertação, desde que foi raptado há quase dois anos.

O Observador já noticiou nesta sexta-feira que mais de duas dezenas de jornalistas e trabalhadores de ajuda humanitária estarão reféns dos extremistas islâmicos no Iraque e na Síria. No último mês quatro cidadãos estrangeiros, incluindo duas jovens italianas, de 21 e 20 anos respetivamente, desapareceram na cidade de Alepo, na Síria, onde se tinham voluntariado para prestar ajuda humanitária.

O grupo terrorista afirmou que a morte de Foley iria ser uma retaliação pela intervenção dos EUA no Iraque, no último mês. Neste momento, o ISIS mantém reclusos três cidadãos americanos na Síria, e ameaça continuar com as execuções, sendo o jornalista freelancer Steven Sotloff o nome seguinte, se os EUA continuarem com os bombardeamentos no Iraque. O jornalista francês Didier François, que esteve recluso com Steven Sotloff e James Foley na Síria, diz ter uma ideia de quem o jihadista que esteve por detrás da execução do jornalista norte-americano possa ser, ainda que não conheça a sua verdadeira identidade.

Os pais de James Foley, em conjunto com o GlobalPost, decidiram publicar o último email do ISIS que receberam pelo “interesse da transparência e para contar a história completa de Foley”, nesta sexta-feira.

Segundo o jornal Telegraph, o último email que a família de Foley recebeu pode ter sido escrito por um “britânico da classe trabalhadora”, devido aos erros ortográficos, referências metafóricas e o vocabulário utilizado. Esta conclusão surge após o jornal ter pedido a uma especialista em linguística da universidade de Lancaster, Claire Hardaker, para analisar a mensagem.

Tradução livre do email na íntegra:

Durante quanto tempo vai a ovelha seguir o pastor cego?

Uma mensagem para o Governo americano e para os seus cidadãos que parecem ovelhas:

Nós deixámo-vos sozinhos desde a vossa derrota vergonhosa no Iraque. Nós não interferimos no vosso país ou atacámos os vossos cidadãos enquanto eles estavam seguros nas suas próprias casas, apesar de o podermos fazer!

Quanto à escória da vossa sociedade: aqueles que são nossos prisioneiros, eles atreveram-se a entrar na toca do leão e foram comidos!

Foram-vos dadas várias hipóteses para negociar a libertação das vossas pessoas através de trocas monetárias, tal como outros Governos aceitaram. Também oferecemos a hipótese de trocar prisioneiros para libertar muçulmanos sob a vossa detenção, como a nossa irmã Dr. Afia Sidiqqi, contudo vocês provaram rapidamente que não estavam interessados. 

Vocês não têm qualquer intenção de lidar com muçulmanos excepto na linguagem da força, uma linguagem para a qual receberam uma ‘tradução arábe’ quando tentaram ocupar as terras do Iraque! Agora, voltam para bombardear o muçulmanos no Iraque mais uma vez, utilizando ataques aéreos e ‘exércitos de proximidade'(referência ao apoio das forças militares curdas), tudo isto enquanto fogem de um combate frente-a-frente!

Hoje, as nossas espadas estão apontadas na vossa direção, tanto para o governo como os cidadãos. E não vamos parar enquanto não saciarmos a nossa sede de sangue. 

Vocês não poupam os nossos mais fracos, idosos, mulheres ou crianças, então nós não vamos poupar os vossos!

Vocês e os vossos cidadãos vão pagar o preço dos bombardeamentos!

O primeiro dos quais com o sangue do cidadão americano, James Foley!

Ele vai ser executado como resultado direto das vossas transgressões contra nós.”