O medicamento experimental ZMapp foi utilizado com sucesso em 18 macacos infetados com o vírus do Ébola, que sobreviveram e viram os seus sintomas desaparecer. O estudo foi divulgado esta sexta-feira pela revista científica Nature e vem reforçar a esperança de que este fármaco possa ser a chave para a cura definitiva da doença, que continua a causar vítimas em diversos países da África Ocidental.

Os macacos utilizados no estudo foram infetados com o vírus e só cinco dias depois, quando os animais já apresentavam sintomas da doença, é que o ZMapp lhes foi dado. O sangramento excessivo, as erupções cutâneas e problemas no fígado – característicos do Ébola – de que os macacos estavam a sofrer acabaram por desaparecer, o que torna este estudo o mais eficaz jamais feito nestes animais com medicamentos experimentais para combater o Ébola.

Apesar dos resultados, os autores do estudo preferem manter-se cautelosos, até porque não se podem extrapolar as consequências dos macacos para as pessoas de uma forma imediata. “Ter-se conseguido reverter os sintomas é bastante surpreendente”, comentou ao New York Times, ainda assim, Kartik Chandran, professor de microbiologia e imunologia especialista em Ébola, que, no entanto, não esteve envolvido no estudo. “Se é para dar alguma coisa a alguém durante esta epidemia, tem de ser isto”, afirmou.

Também o cientista que descobriu a doença, em 1976, considera estes resultados muito importantes. “Nunca pensei que 40 anos depois de ter descoberto o Ébola, esta doença ainda estivesse a matar numa escala tão devastadora”, admitiu Peter Piot ao Guardian, sublinhando que “este estudo em primatas é a prova mais convincente até à data de que o ZMapp poderá ser um tratamento eficaz” para humanos. E acrescentou: “É fundamental que os testes em humanos comecem assim que possível”.

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O grande problema agora é que o ZMapp está esgotado e passarão meses até que a empresa que o produz consiga ter novos lotes do medicamento, que tem como base a planta do tabaco. Por outro lado, sublinha um dos autores do estudo, Thomas Geisbert, da Universidade do Texas, nos Estados Unidos, não é fácil comprovar a eficácia do ZMapp nas pessoas, “porque a infeção intencional de humanos em ensaios clínicos não é possível”.

O ZMapp foi usado como parte do tratamento de dois assistentes humanitários americanos que trabalhavam na Libéria, país onde a epidemia tem sido mais violenta. Está também a ser usado no tratamento de uma enfermeira britânica que contraiu o vírus na Serra Leoa. Apesar de os dois americanos terem ficado curados, não é possível avaliar com rigor qual foi o papel desempenhado pelo medicamento, uma vez que ambos foram retirados de África e internados em hospitais nos Estados Unidos. A 12 de agosto, um padre espanhol repatriado da Libéria e que estava a ser tratado com recurso ao ZMapp, acabou por morrer já depois de estar internado num hospital.