O Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, afirmou este domingo esperar que o Governo lhe tenha comunicado todos os factos “relevantes” sobre a crise no BES assim que deles teve conhecimento.

“O Presidente da República não tem ministérios, não tem serviços de fiscalização ou de investigação. Recebe toda a informação das entidades oficiais e espera que logo que o Governo tenha tido conhecimento de factos relevantes não o deixe de comunicar. No caso que refeiu, espero que tenha sido assim. É o que resulta da Constituição”, afirmou em resposta aos jornalistas, em Arganil, referindo-se às regras de relacionamento entre Governo e primeiro-ministro.

Cavaco prosseguiu dizendo que é a essa informação, via canais oficiais, que o Presidente “atribui mais importância”, mas que também ouve outros agentes económicos e sociais e “regista tudo” e “tem em conta as informações que recolhe nas conversas que tem com o Governo”.

O Presidente da República saiu ainda em defesa do governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, considerando que a solução encontrada para o BES (dividindo-o em banco bom e banco mau) foi a melhor para o país. “Perante a situação complexa, havia várias alternativas que foram ponderadas. Considero que o Banco de Portugal, de acordo com as competências que lhe cabe e de acordo com as regras comunitárias, enfrentou uma situação extremamente difícil da melhor forma para a defesa do interesse nacional”.

Cavaco Silva só tinha falado sobre o BES dia 21 de julho durante uma visita a Seul e há quatro dias resolveu colocar essas declarações no site da Presidência. Isto aconteceu um dia depois de o advogado Miguel Reis, um dos responsáveis pela defesa dos pequenos acionistas lesados pelo BES, ter dito numa entrevista ao jornal i que “quando a crise já estava ao rubro, já depois do aumento de capital, houve clientes que foram convencidos, de forma fraudulenta e enganosa, a transformar depósitos em ações, com base nas sucessivas declarações do Presidente da República e do governador do Banco de Portugal”.

Nas declarações que fez em Seul, em resposta a uma pergunta sobre como estava a acompanhar a situação e se encarava a possibilidade de consequências para a economia portuguesa, Cavaco Silva reconheceu que “haverá sempre efeitos”, não do lado do Banco, mas da área financeira.

“Se alguns cidadãos, alguns investidores, vierem a suportar perdas significativas, podem adiar decisões de investimento ou mesmo alguns deles podem vir a encontrar-se em dificuldades muito fortes; por isso, não podemos ignorar que algum efeito pode vir para a economia real, por exemplo, em relação àqueles que fizeram aplicações em partes internacionais do Grupo que estão separadas do próprio Banco em Portugal. Mas eu penso que, pela informação que temos, não terá assim um significado de monta”, referiu o chefe de Estado.

Em conversa com os jornalistas, o Presidente comentou também a sugestão da ministra das Finanças, feita ontem, para que se debata a dívida pública no Parlamento. “Discutir a dívida pública não significa renegociar”, disse Cavaco Silva. “Espero que se faça essa discussão”.