António José Seguro e António Costa não se entendem em todos os números, mas uma coisa é certa acerca dos resultados das eleições para as federações do PS: as votações mostram um partido muito dividido em que nenhum dos dois lados pode respirar de alívio com uma margem de avanço folgada. Pelo contrário. A diferença em termos de votos e de percentagens, que são divulgadas pelos dois lados, é mínima, o que significa que o voto dos simpatizantes (que não puderam votar agora, mas podem participar nas eleições primárias de dia 28) vai ser decisivo.

Os não-militantes poderão ter, no fundo, nas suas mãos o futuro do PS – a escolha do candidato do partido a primeiro-ministro. Vai ser a primeira vez que ocorre uma votação aberta deste género em Portugal e, pelos vistos, isso acontece numa altura em que o jogo, a nível interno partidário, está muito incerto.

António José Seguro, atual secretário-geral, e muitas vezes criticado por dominar o aparelho, não arrasou. António Costa, presidente da Câmara de Lisboa, muitas vezes apontado como um D. Sebastião, não viu uma onda arrebatadora embora tivesse roubado bastiões.

A ala segurista reclama mais votos (cerca de 1.200) nas 19 federações, apesar de dez terem sido ganhas por pessoas próximas de Costa. Em termos de percentagem de votos, 52,2% pertence a Seguro (cerca de 15.500) e 47,8% a Costa. Vão ser umas eleições primárias “fortemente disputadas”, reconheceu Eurico Brilhante Dias, em declarações à Lusa.

Segundo a diretora de campanha de Costa, Ana Catarina Mendes, as contas são ligeiramente diferentes. Só contabilizam os votos das dez federações onde houve disputa entre dois candidatos (um de cada uma das fações). Aí, os números mostram que os apoiantes de Costa somam 11.762 votos (56,1%) e os de António José Seguro 9.202 votos (43%). A diferença, no entanto, é também escassa.

Nas eleições para as federações, que decorreram sexta-feira e sábado, podiam votar os militantes com as quotas em dia, 46.229 pessoas. Votaram cerca de 30 mil pessoas, ou seja, cerca de 65%. Nas eleições primárias de dia 28, podem votar todos os militantes (com ou sem as quotas em dia) e todas as pessoas que se queiram inscrever (simpatizantes). O prazo para a inscrição termina na sexta-feira e até ao momento existem cerca de 55 mil simpatizantes inscritos.

Nas reações às eleições federativas, António José Seguro optou por publicar no Facebook uma mensagem aos dirigentes eleitos: “Saúdo todos os presidentes eleitos das federações do PS. Desejo felicidades e votos de bom trabalho. A todos os que agora terminam o seu trabalho, agradeço a dedicação e empenho em prol do Partido Socialista”.

António Costa, por seu lado, felicitou, num almoço no Porto, os vencedores das eleições para as federações do PS, garantindo que gostará e terá “enorme gosto em trabalhar” com todos. E disse que aquilo que sente e tem visto em todo o país “é que desta vez vão estar com o PS muito mais do que os tradicionais eleitores do PS”. “Porque o radicalismo ideológico do Governo, a brutalidade social desta governação, o insucesso dos resultados alcançados alteraram profundamente as fronteiras políticas do nosso país”, justificou.

Os candidatos que apoiam António Costa nas primárias socialistas de 28 de setembro venceram em Lisboa, Aveiro, Federação Regional do Oeste, Leiria, Setúbal, Braga, Castelo Branco, Portalegre, Évora e Algarve.

Os candidatos que apoiam nas primárias o secretário-geral do PS, António José Seguro, venceram em Bragança, Viana do Castelo, Coimbra, Viseu, Santarém, Baixo Alentejo, Guarda, Porto e Vila Real.