Era ainda recém-nascido quando foi aprovada a Lei da Escócia que, por iniciativa do então primeiro-ministro britânico Tony Blair, devolvia poderes legislativos a Edimburgo. A mãe, Helena Taborda MacDonald, queria juntar-se aos festejos escoceses, mas temeu pelo bebé e deixou-se ficar em casa. Esta quinta-feira, 16 anos depois, vão sair os dois à rua para votar no referendo pela independência. Mas não vão colocar a cruz no mesmo destino: James vai votar “Yes”, Helena vai votar “No”.

“Ele não explica porque vai votar pela independência, mas acredito que esteja esclarecido. Durante este ano letivo assistiu a vários debates sobre o tema”, diz Helena ao Observador.

O governo vai permitir, pela primeira vez, que os jovens a partir dos 16 anos votem no referendo para a independência da Escócia, a realizar-se esta quinta-feira. É a primeira vez que a idade para votar baixa dos 18 para os 16 anos.

Helena MacDonald tem raízes no Porto, de onde saiu há 24 anos para viver uma história de amor. Na altura, aos 30, era licenciada em História mas a falta de colocação profissional empurrou-a para um emprego de escritório. Foi quando conheceu Kenneth MacDonald, um escocês que estava a tirar doutoramento em Portugal.

“Viajei com ele até à Escócia e apaixonei-me pelo país. E pela cidade”, recorda Helena, que traz uns brincos tipicamente portugueses, semelhantes aos corações de Viana. Foi pelo coração que ficou em Edimburgo, mas também pelas condições de vida que se reuniram na altura. “O nível de vida era melhor. Era mais fácil arrendar casa e viver bem com o ordenado que se ganhava”. Acabou por casar e ganhar o nome de um clã escocês, os MacDonald – uma família com origens na Ilha de Islay.

“Os clãs já não são como antigamente. Mas há tradições que se mantêm e o meu marido casou com o kilt com o tartan (padrão do tecido usado nos fatos típicos escoceses) dos MacDonald. E usa-o em todas as cerimónias”, diz Helena.

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Kenneth e Helena no dia do casamento

Helena chegou a Edimburgo e começou a trabalhar como intérprete e tradutora. Ao mesmo tempo estudou Inteligência Artificial, Sociologia, Matemática e uma série de áreas que a Universidade de Edimburgo lhe colocou à disposição para explorar. Acabaria a dar aulas de português e a tornar-se a responsável pelo Centro de Estudos Portugueses, do Instituto Camões, que funciona naquela universidade.

Helena e Kenneth tiveram dois filhos, nascidos na Escócia. Além de James, pronto para votar esta quinta-feira pela independência da Escócia, nasceu Ian (o gaélico para João), agora com 13 anos. “Nenhum fala português. Quando eram pequenos ainda tentei ensinar-lhes, mas como o pai não conhecia a língua foi difícil manter. Mas gostam muito de Portugal”.

A professora de Português não conseguiu ensinar-lhes a língua, mas já os convenceu com a gastronomia. “Aqui os pratos tradicionais não são muito diversos. Há o borrego cozido, as batatas com nabo, que é um nabo diferente. Mas o sucesso são as batatas fritas e o peixe frito”. Uma tradição a que não conseguiu render-se, assim como aos horários, e aos invernos longos. “Aqui janta-se às 17.00, porque a noite começa muito cedo, mas eu não consigo fazer isso. Jantamos as 19.00 ou 20.00”.

Quando começou a campanha pelo referendo, houve professores que começaram a colar autocolante com o “Yes” ou o “No” nas janelas da universidade, como se vê em muitos locais da cidade. Mas a direção mandou retirar. Queria que a universidade se mantivesse neutra. Helena respeitou, mas, ao Observador, admitiu o seu ponto de vista – que fez questão de colar nas janelas de casa. “No, we’re better together” (Não, estamos melhor juntos). E os argumentos, defende, são “óbvios”. “Nós já temos a nossa independência para legislar numa série de matérias. Nós somos um povo com muitas características próprias, mas também somos muito britânicos”.

A agravar, Helena diz que o movimento independentista não esclareceu uma série de coisas: como resolveria a questão da União Europeia e da Nato, qual seria a moeda. E a defesa da Escócia?”. Por outro lado, a professora receia que, a ganhar o Partido Nacionalista Escocês, se possa cair num regime político racista.

“A política deste partido já tem sido centralizar. Exemplo disso é a polícia, que antes era organizada por cada região e agora é gerida através de Edimburgo. É por isso que os escoceses do norte defendem o ‘Não’”. É que, explica, para eles Edimburgo ou Londres é “mesma coisa”. Sentem-se distantes da política.

Um sentido de voto que pensa mudar caso o Reino Unido avance, como já anunciou o primeiro-ministro britânico David Cameron, com um referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia. “Aí acredito que o Partido Nacionalista aproveite para repetir o referendo sob o argumento de que quer manter-se na União Europeia. E aí eu já voto a favor”, revela.

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Helena com os convidados do casamento, um fotografia “tipicamente escocesa”, segundo afirma