Foi publicado em agosto no Diário de Notícias, mas só despertou a atenção nos Estados Unidos depois das notícias que davam conta de um liberiano infetado pelo ébola e internado naquele país. Desde então, o cartoon do português André Carrilho tornou-se viral. E se olhar com atenção percebe porquê.

A imagem retrata uma enfermaria onde todos os doentes são negros. Há apenas um infetado pelo vírus do ébola que tem pele branca e é ele o único alvo de atenção por parte da comunicação social. O cartoon foi publicado a 10 de agosto no jornal Diário de Notícias, onde André Carrilho colabora, na sequência de dois missionários americanos terem regressado infetados ao país. Mas, só dois meses depois, a imagem se tornou viral, como o ilustrador publicou na sua página da rede social Facebook.

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Foi por esta altura que se noticiou que um liberiano a viver nos Estados Unidos tinha contraído o vírus. Acabou por morrer. Foi o primeiro a morrer nos EUA com a doença que na Serra Leoa, na Guiné e na Libéria já matou 3 431 pessoas. O Observador perguntou ao ilustrador porquê.

“Porque só agora há a sensação de que o Ébola está a chegar aos EUA e Europa. As pessoas estão mais atentas, e os media estão a noticiar mais a doença. Essa diferença de atitudes é o tema do cartoon, e as pessoas reconhecem-no. Até agosto, que foi quando o cartoon foi publicado, sempre tive a sensação de que os media ocidentais no geral tratavam o ébola como uma doença que não nos dizia respeito. Até aparecerem dois missionários americanos infetados, aos quais foi logo administrada uma droga experimental que até então não se tinha ouvido falar. Só então uma cura começou a parecer possível”, respondeu André Carrilho.

E foi essa diferença de tratamento mediático que o americano Huffington Post noticiou. E ilustrou a história, sob o título “A ilustração da cobertura do ébola mostra como o tratamento noticioso pode ser problemático” (tradução livre), com o cartoon de Carrilho – também colaborador do “The New York Times”, “The New Yorker”, “Vanity Fair”, ou a “New York Magazine”.

André Carrilho, 40 anos e a viver em Lisboa, já recebeu contactos do The Guardian, The Independent, Mic Online e Gazeta Wyborcza por causa do cartoon publicado há dois meses. À Mic Online Carrilho concretizou melhor a sua ideia. “As pessoas no continente africano são mais olhadas como uma estatística abstrata do que como um paciente nos Estados Unidos ou na Europa”.

“Quantas histórias conhecemos de pacientes africanos? Nenhuma”, afirma Carrilho.

O caso da vítima que veio da Libéria e acabou por morrer nos Estados Unidos veio mudar este paradigma. “O facto de ele ser negro não muda nada porque ele está em território americano”, explica o ilustrador. No entanto, é mais do que uma questão “do preto contra o branco”, mas “do ocidente contra o resto”, sublinha no artigo intitulado “Uma poderosa ilustração mostra exatamente o que está errado em como o Oeste fala do ébola”.

A 12 de outubro, André Carrilho publicou o seu segundo cartoon sobre o tema, o vírus ébola, no Diário de Notícias. Desta vez, o pânico gerado no transporte de passageiros via aérea e nos perigos de contágio. Mas já não teve o mesmo efeito, nas suas palavras.

(Artigo corrigido.)