A Terceira Guerra Mundial poderia ter começado por causa de Angola. Em plena Guerra Fria (1976), o secretário de Estado norte-americano, Henry Kissinger, ponderou atacar Cuba como resposta ao envio de tropas de Fidel Castro para o país africano. Um conflito com Havana conduziria a um contra-ataque soviético de proporções inimagináveis e os norte-americanos sabiam disso. Estas informações estão presentes em documentos anteriormente classificados como confidenciais e que agora foram revelados no livro Back Channel to Cuba, dos investigadores norte-americanos William M. LeoGrande e Peter Kornbluh.

Numa reunião entre Kissinger e o presidente norte-americano, Gerald Ford, na Casa Branca, o secretário de Estado afirmou: “Penso que temos de esmagar Castro”. O plano passava por bombardear os portos e as instalações militares cubanas como resposta ao apoio militar de Cuba ao Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Um ataque de grandes proporções e “sem meias-medidas” a Cuba, com o objetivo de travar o ímpeto comunista em África.

Depois da fracassada “Operação Mangusto”, conhecida como Baía dos Porcos, e da Crise dos Mísseis cubanos, o governo norte-americano estava preocupado com o enfraquecimento da posição dos Estados Unidos no xadrez político global, tal como admitiu Kissinger numa reunião a 24 de março de 1976 em que se encontravam as mais altas patentes militares americanas.

“Se há uma perceção no exterior de que estamos tão enfraquecidos pelo nosso debate interno [sobre o conflito no Vietname], de modo que parece que não podemos fazer nada em relação a um país de oito milhões de pessoas, dentro de três ou quatro anos, vamos ter uma crise real“, considerava Kissinger.

O governo norte-americano temia, também, que os cubanos se tornassem “as tropas da revolução” no continente africano e que estendessem a sua influência a outros países, como a Rodésia, a Namíbia ou a África do Sul, pelo que, se eliminassem Castro, poderiam ferir de morte o foco revolucionário.

Ainda assim, os assessores de Kissinger alertaram-no nessa reunião para o facto de que “qualquer ato de agressão [a Cuba] poderia desencadear um confronto de super-potências” e que uma “nova crise cubana não levaria necessariamente a uma retirada soviética”.

“As circunstâncias que poderiam levar os Estados Unidos a optar por uma operação militar contra Cuba devem ser graves o suficiente para justificar novas medidas de preparação para a guerra em geral”, avisavam os assessores de Kissinger, bem conscientes do perigo de um conflito aberto com a União Soviética.

Pesando todas as possibilidades, Kissinger persistiu na sua intenção de agir militarmente contra Cuba e levou a proposta ao presidente norte-americano. A 25 de fevereiro de 1976, Geral Ford concorda com o ataque à ilha e planeia-o para depois das eleições.

Todavia, o dia 2 de novembro desse mesmo ano iria mudar a história dos Estados Unidos e do Mundo: Jimmy Carter foi eleito o 39º Presidente dos Estados Unidos e, com ele na liderança do país, o plano para atacar Cuba nunca se viria a concretizar, evitando aquele que poderia ter sido o início da Terceira Guerra Mundial.

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