O Crédit Agricole, banco francês que, durante cerca de 30 anos, foi um parceiro estratégico e segundo maior acionista do Banco Espírito Santo (BES), chegou a ameaçar, em janeiro, que poderia “interpor um processo contra a administração” do banco português, os auditores da KPMG e até contra o Banco de Portugal. Porquê? Os gauleses não queriam ser afetados por prejuízos causados pelas dívidas do Grupo Espírito Santo (GES), avançou esta quinta-feira o jornal i. E tê-lo-ão tornado bem claro.

Ao ponto de Ricardo Salgado, então líder do banco, numa reunião do Conselho Superior do GES, ter classificado a postura do Crédit Agricole como “uma agressividade jamais vista num parceiro de 30 anos que regularmente ganhou dinheiro com o banco e com os investimentos que fez” com a instituição bancária portuguesa.

Os problemas, de acordo com o jornal i, fixavam-se na então crescente ameaça de o BES registar uma imparidade — redução do valor recuperável dos ativos –, que poderia atingir os mil milhões de euros, de acordo com “ensaios” projetados pela auditora KMPG. O Crédit Agricole não queria ser penalizado com a dívida do BES e, em janeiro, Juan-Paul Chiffret, presidente do banco, ter-se-á até deslocado a Lisboa para falar com o Banco de Portugal sobre o assunto.

A 23 de janeiro, escreve o i, Ricardo Salgado chegou a ir a Paris propor a Xavier Musca, número dois do Conselho de Administração do Crédit Agricole, “uma hipótese de trabalho mais equilibrada”, que consistia em distribuir 450 milhões da imparidade no BES e 550 na Espírito Santo Finantial Group (ESFG). Isto porque, caso a dívida fosse registada no banco, ao invés da ESFG, os franceses não seriam prejudicados, já que o Crédit era o segundo maior acionista do BES.

Em março, aliás, a ESFG, holding financeira do grupo, acabaria por fazer uma provisão de 700 milhões de euros, o que salvaguardou a posição do banco gaulês. Mas as relações, porém, nunca mais foram as mesmas. “O Crédit Agricole, neste momento, não podemos contar muito com eles”, chegou a admitir José Maria Ricciardi, presidente do BESI, numa outra reunião do Conselho de Administração, realizada a 21 de fevereiro.

No final de maio, recorde-se, com a extinção da BESPAR — holding que permitia à ESFG controlar 35,3% do capital do BES –, o banco francês passou a deter 20,12% do capital do Banco Espírito Santo. Os gauleses detinham 24,6% do capital do BESPAR e, por decisão da resolução do Banco de Portugal, aquando da reestruturação do BES, o Crédit Agricole foi incluído na lista de acionistas que ficou no ‘banco mau’.